Para a primeira pergunta, a resposta é: os sinais de uma continuidade do avanço da cotação do ouro continuam a piscar no verde. Por enquanto. Na segunda-feira, por exemplo, os investidores voltaram a correr para a commodity em meio ao clima cada vez mais tenso no cenário global.
Segundo Gabriel Cecco, da Valor Investimentos, se o investidor não tem o metal na carteira, pode fazer sentido investir agora sim, mas com a estratégia certa.
“O ouro não é ativo para dar tiro de curto prazo nem para concentrar aposta especulativa. Ele serve para equilibrar a carteira. Continua cumprindo um papel que poucos ativos cumprem: reduzir a volatilidade do portfólio em momentos de estresse, funcionando como hedge (proteção).”
Para quem já tem ações no Brasil, no exterior e títulos de renda fixa, portanto, o ouro funciona como um seguro: costuma ter correlação negativa ou próxima de zero com boa parte dos ativos.
O que está acontecendo com o ouro?
As recentes mini corridas ao ouro têm sido alimentadas, principalmente, pelas sucessivas turbulências geopolíticas protagonizadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Só relembrando: Trump já “atacou” o próprio banco central – o Federal Reserve, o Fed -, realizou uma intervenção armada na Venezuela, sinalizou neste ano que poderia invadir a Groenlândia e, mais recentemente, flertou com a ideia de ajudar o Japão a fortalecer o preço do iene, o que foi visto pelo mercado como interferência direta. Resultado: mercados à beira de um ataque de nervos. E, nesses momentos, como quase sempre acontece, o dinheiro corre para os chamados ativos de proteção.
Mas não dá para colocar tudo na conta do presidente americano, claro. Também entram nessa equação a queda dos juros no mundo – que empurra o capital para outros ativos – e as compras bilionárias de ouro feitas pelos bancos centrais.
Somem-se a esse quadro as preocupações que vira e mexe ressurgem sobre uma eventual bolha nas ações de tecnologia e temos uma demanda firme e sustentada pela commodity.
O mercado segue relativamente otimista com o metal. Na semana passada, o Goldman Sachs elevou sua projeção de preço da commodity de US$ 4.900 para US$ 5.400 por onça até o fim do ano. O banco citou como principais motores a diversificação para o metal por parte de investidores privados e as compras de bancos centrais de países emergentes
Como investir em ouro?
O investidor brasileiro conta com várias formas de investir no metal.
Ouro físico
A forma mais tradicional é ir a uma instituição autorizada e comprar o ouro físico. A ideia de ter peças do metal precioso faz parte do imaginário popular associado a riqueza. Tem até programas famosos de TV aberta, como o Domingão do Huck e o Show do Milhão que ficaram famosos por oferecer prêmios em barras de ouro.
Mas a maior desvantagem é óbvia: dá trabalho guardar. Não faz muito sentido esconder barras de ouro no fundo do armário. Além disso, a liquidez (a facilidade de transformar em dinheiro) é menor. Por outro lado, o ouro é seu. Não tem nenhum risco intermediário que é o que acontece com os produtos financeiros associados ao metal, como a gestora quebrar, o custodiante ter problema um operacional e por aí vai.
ETFs de ouro
Talvez o melhor custo-benefício esteja nos ETFs – os fundos que seguem índice e são negociados em bolsa. Eles estão bem pop ultimamente. Há dois caminhos: investir nos produtos listados na B3 ou comprar ETFs lá fora. Aqui no Brasil é mais simples: basta ter conta em corretora, entrar no home broker e comprar.
A maior parte dos ETFs de ouro oferecidos no mercado local mantém exposição cambial, ou seja, além das oscilações do próprio ouro, o investidor precisa colocar na conta a variação do dólar em relação ao real.
Por exemplo, em 2025, o metal precioso avançou 62,54%. Porém, em dólar, a alta foi menor: de 51,54%. Isso porque a moeda americana recuou 11% ante o real no ano passado.
ETFs made in Brazil
No Brasil, o maior ETF é o Trend LBMA, o famoso GOLD11. A cota custa cerca de R$ 28. Ele já subiu cerca de 12% em 2026 e 62,9% em 12 meses. A taxa de administração é relativamente baixa, de 0,30% sobre o patrimônio líquido ao ano. O fundo tem R$ 3,18 bilhões de patrimônio líquido até dezembro, segundo a B3.
Outros ETFs de ouro nacionais negociados na B3 são o GLDX11, da Investo que replica o ETF americano VanEck Merk Gold Trust (OUNZ); o AURO11, da Buena Vista, um ETF que, além de exposição ao metal, paga dividendos mensais aos investidores; o GOLB11 , do BTG Pactual, baseado em contratos futuros de ouro.
Uma vantagem do ETF é que o investidor pode comprar e vender suas cotas na bolsa. E, claro, negocia só o que ele precisa, sem precisar vender tudo de uma vez, caso, por exemplo, da barra de ouro. Mas tem desvantagem também nos ETFs, claro. A taxa de administração, mesmo relativamente baixa, vai comendo um pedacinho do retorno ao longo do tempo.
Lá fora o ouro é mais líquido
A B3 oferece ainda aos investidores acesso a BDRs de fundos de índices do metal lançados lá fora. Esses brazilian depositary receipts são recibos que representam cotas de ETFs estrangeiros de ouro. Há o BIAU39, um BDR que reflete o iShares Gold Trust (IAU) e o ABGD39: BDR de um ETF de ouro gerido pela Aberdeen.
É possível investir diretamente nos ETFs lá fora por meio das contas globais oferecidas pelas plataformas digitais. O maior fundo internacional do gênero é o SPDR Gold Shares (GLD), com taxa de administração de 0,40% ao ano. A cota gira em torno de US$ 468. É um monstro: tem cerca de US$ 172,7 bilhões sob gestão. Avançou cerca de 16% em 2026 e 82% em 12 meses.
A maior vantagem de investir diretamente no exterior é, principalmente, a maior liquidez. Fica mais fácil vender por um bom preço quando você tiver de “sacar”. Fora isso, a oferta de produtos do gênero é mairo. O World Gold Council contabiliza mais de 100 ETFs atrelados ao metal no mundo.
Fundos tradicionais de ouro
Além dos ETFs, existem também os fundos tradicionais de ouro – aqueles que não são negociados em bolsa e são comprados diretamente nas plataformas dos bancos e corretoras. Eles costumam se dividir em dois grupos: os que têm efeito do dólar (o investidor ganha ou perde também com o câmbio) e os hedgeados – ou seja, que protegem da variação da moeda americana e refletem basicamente só o preço do metal.
Há várias opções no mercado, muitas com resgate em D+1 – ou seja, que vai ficar disponível um dia útil depois que você pediu resgate. Dois exemplos são o BB Multimercado Ouro e o Empiricus Ouro FIC FIM. A vantagem é ter uma gestora profissional cuidando do dinheiro. A desvantagem: essas coisas custam mais caro – normalmente há taxa de administração e, em alguns casos, taxa de performance, o que pode diminuir o retorno final.
O BB Multimercado Ouro tem uma taxa de administração de 0,85% ao ano. O Empiricus Ouro tem taxa de 0,14% ao mês, o que, anualizada alcança quase 1,7%.
Stablecoins de ouro
Por fim, há o jeito mais moderninho e digital: via stablecoins – criptomoedas atreladas a ativos. Algumas são ligadas ao ouro. Cada token pode representar uma onça-troy ou uma fração menor do metal, dependendo do emissor. Alguns exemplos são Tether Gold (XAUt), Pax Gold (PAXG) e Kinesis Gold (KAU).
Vantagem? Dá para comprar direto em exchanges. É fácil. Mas tem risco, claro: o investidor não é dono do ouro, e sim de um token emitido por uma empresa privada. Se a empresa emissora quebrar, o valor do token pode ir junto.