Com o preço do barril de petróleo de volta para perto da faixa dos US$ 100 e com a inflação ao consumidor (medida pelo IPCA) de fevereiro acima das expectativas de mercado, há quem defenda que o Banco Central nem tenha mais espaço para iniciar o ciclo de queda da Selic agora.
O consenso do mercado, porém, aponta, sim, para um corte. Só que o tamanho da redução ficou menos claro, em particular no curto prazo.
Crescem as apostas de analistas e economistas em um movimento mais contido, de 0,25 ponto percentual, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima quarta-feira (18).
Para investidores, na prática, uma redução mais contida da Selic pode inspirar uma alta nos juros com vencimento para os próximos anos, como aqueles dos títulos Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+.
A influência da Selic não é direta, como no caso do CDI, mas uma postura mais cautelosa do Copom tende a levar o mercado a reavaliar as projeções de inflação futura, o que afeta a chamada curva longa.
Taxas de juros mais longas significam queda no valor dos papéis atrelados do Tesouro Direto, o que se reflete na carteira do investidor. Por outro lado, caso a expectativa seja a de normalização do mercado, o momento atual pode servir como ponto de entrada para investimentos em tais ativos: a queda dos juros futuros vai valorizar esses papéis.
Essa elevação dos juros futuros também ocorre porque os investidores tendem a retirar recursos desses papéis. Como a volatilidade dos títulos prefixados e IPCA+ aumenta, muitos investidores voltam a aplicar em produtos que seguem a Selic e o CDI, os chamados pós-fixados, pouco afetados pelas oscilações.
Apostas convergem para corte de 0,25 ponto
As opções de Copom, ou seja, contratos derivativos que apostam nos rumos da política monetária brasileira, mostram nesta quinta-feira (12) que 54% do mercado enxerga uma queda de 0,25 ponto da taxa básica de juros no dia 18.
Esse grupo tem crescido na medida em que os preços do petróleo continuam sua escalada. O IPCA de fevereiro, com uma alta mensal de 0,70% e de 3,81% em 12 meses, ficou acima das expectativas de mercado e também contribui para a mudança das apostas.
Faz pouco tempo, a visão majoritária era a de uma redução de meio ponto. Na sexta-feira passada (6), por exemplo, o grupo que apostava nessa queda mais forte alcançava 58%. Agora, “apenas” 35% veem maiores chances de uma diminuição nessa magnitude.
E, antes do início da guerra, o percentual de investidores que apostavam em um corte inicial de 0,50 ponto na reunião do Copom neste mês chegou a alcançar 87%.
Mercado reprecifica queda de juros
De qualquer modo, o consenso no mercado continua a ser o de que o BC vai começar a cortar a taxa Selic na semana que vem. As questões que ficam em aberto agora são: qual será o ritmo do ciclo de redução dos juros e até que ponto a autoridade monetária pretende levar a diminuição da taxa básica, ou seja, qual será a chamada taxa terminal no fim do ciclo.
O economista-chefe do Citi no Brasil, Leonardo Porto, reforça o coro de um início de cortes mais contido por parte do BC. A visão do banco é a de que os preços da energia acendem um alerta para as expectativas de inflação, ainda que não sejam suficientes para mudar o rumo da política monetária.
Antes mesmo de a guerra começar, o componente dos preços de energia do índice de inflação ao consumidor já havia mostrado aceleração com alta de quase 3%. “E esse dado já deve estar defasado frente aos conflitos geopolíticos globais”, disse Porto.
A gestora G5 Partners também já enxerga menos espaço para o corte da Selic na próxima semana. Para o economista-chefe Luis Otavio Leal, o cenário para o início do ciclo de queda de juros está mantido, mesmo com todos os “poréns” sobre a inflação em meio à escalada dos preços do petróleo.
Com a Guerra do Irã, a gestora reviu a projeção e passou a considerar um corte inicial de 0,25 ponto percentual. “O Copom deve começar em um ritmo mais fraco inclusive para não botar mais ‘lenha na fogueira’ da desvalorização do real”, disse o economista.
Corte menor pode atenuar alta do dólar
Para economistas, o câmbio tem sido há anos um dos principais canais de transmissão das incertezas externas para a inflação brasileira. E agora não será diferente.
O cenário, porém, pode ser mais suave do que o choque da guerra faz acreditar. Isso, especialmente, se o Banco Central se mostrar mais conservador.
Como o nível de juros ainda está muito elevado, com a Selic em 15% ao ano, um corte mais contido basicamente não altera a atratividade do real como moeda de “carry trade“.
Essa estratégia consiste em tomar recursos em mercados com juros baixos, como os Estados Unidos, e aplicar em ativos de países que pagam taxas elevadas, caso do Brasil, para ganhar com a diferença de remuneração. Esse ambiente de juros, portanto, costuma atrair recursos do exterior e ajuda a sustentar uma taxa de câmbio mais favorável ao real.
O Brasil conta ainda com outros suportes que podem ajudar os mercados a navegar com menos dificuldades pelas águas turbulentas atuais.
O país se tornou, após a descoberta do pré-sal nos anos 2000, um exportador líquido de petróleo (exporta mais do que importa). Desse modo, quando os preços dos barris sobem, há uma entrada de recursos de fora. Esse fluxo pode ajudar a amenizar uma alta global da moeda americana.
A arrecadação federal de impostos também aumenta por causa do crescimento das receitas com a commodity. Isso porque o governo sempre se beneficia com aumento de dividendos distribuídos pela Petrobras em momentos de alta do petróleo, o que ajuda nas metas fiscais.
Em 2022, por exemplo, quando começou a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a Petrobras distribuiu mais de R$ 210 bilhões em proventos. Desse total, o governo federal recebeu quase R$ 80 bilhões.
São fatores que, por si só, não bastam para blindar o país dos efeitos inflacionários e cambiais da escalada dos preços do petróleo e dos combustíveis, mas ajudam a atenuá-los.