As melhores chances em renda fixa estão nos ativos que sobem quando os juros caem. Os mais populares nessa linha são os títulos públicos do tipo IPCA+, do Tesouro Direto. Vamos ver aqui quanto eles podem ganhar caso a Selic entre mesmo num ciclo de baixa, na intensidade que o mercado imagina.
E o mercado imagina 12,25% no final do ano – pelo cenário do Relatório Focus, a pesquisa semanal que o BC faz com mais de cem instituições financeiras. E entre elas algumas estão particularmente otimistas. Para o Bank of America, a Selic pode fechar 2026 em 11,25%. Um tombo forte ante os atuais 15%. Veja esse e outros palpites aqui:
O que mais importa para quem investe é o seguinte: momentos de queda firme dos juros, quando eles saem de um pico e passam a testar patamares cada vez mais baixos, fazem com que certos produtos de renda fixa apresentem um desempenho de renda variável (nos melhores momentos da variável).
É plausível, por exemplo, que o IPCA+2040 renda 30% em um ano. Hoje, essa porcentagem corresponde a 200% do CDI (na hipótese de a Selic média ficar em pouco mais de 13% neste ano, com o iníco dos cortes, esse rendimento vai dar 215% do CDI).
O mecanismo
Vamos ao mecanismo que cria essa renda. A Selic é a “taxa básica” da economia porque baliza todas as taxas de juros do país, inclusive a dos títulos IPCA+. Ele paga a inflação + uma taxa prefixada de juros. No caso do título desse tipo que vence em 2040, os IPCA+2040, essa taxa está em 7,2%.
Trata-se de um dos níveis mais altos da história para títulos com esse prazo, justamente porque estamos sob a maior Selic em 19 anos. Com a perspectiva para a taxa básica caindo, a parte prefixada do IPCA+ cai também. Não há outro caminho.
E quando isso acontece o preço do título sobe. Caso você tenha ele na carteira, vai observar isso vendo o seu saldo crescer. Vamos para uma suposição realista, a de que a parte prefixada caia do nível atual para 6% ao longo de um ano.
O preço do título, aí, passaria por uma alta de 29% – supondo aí que o IPCA (a parte variável do rendimento), fique em 4%. Ou seja, quem comprasse agora e vendesse daqui a um ano, nesse cenário hipotético, embolsaria um rendimento de IPCA+25% em 12 meses.
Se o clima continuar propício para mais quedas na parte prefixada da remuneração, e ela cair a 5% em dois anos, o rendimento para esse período chegaria a 58% – mais ou menos 8% da inflação mais 50% de rendimento real, acima do IPCA.
Esse efeito mágico acontece porque os títulos IPCA+ são de longo prazo: qualquer mudança no juro tem o efeito multiplicado por anos e anos de juros compostos. Para visualizar o fenômeno, basta ver o rendimento potencial de um IPCA+ ainda mais longo que o 2040, o 2050.
A parte prefixada da taxa dele está hoje em 6,9%. Caso ela caia para 6% em um ano, o rendimento seria de 33% – 4% da inflação mais 29% de rendimento real. Ou seja: IPCA+29% em um ano. Isso dá monstruosos 244% do CDI projetado para 2026 (13,6%, o ponto médio entre os atuais 15% e os 12,25% da previsão do Focus).
Um abuso. E não será a primeira vez. Isso acontece em momentos de virada de chave na Selic. Entre 2016 e 2019, quando a taxa básica caiu de 14,25% para 4,5%, o título com vencimento em 2035 subiu a uma taxa média de 29% ao ano – por quatro longos anos.
Claro que nada disso que simulamos aqui é garantido. Qualquer repique da inflação pode (e vai) arruinar essas perspectivas positivas para a Selic. E aí o rendimento dos IPCA+ evapora.
Isso se houver rendimento, porque se no futuro próximo o céu nublar, e prevalecer a visão de que a Selic voltará a subir, o preço dos títulos IPCA+ cai, levando o seu saldo junto para o buraco. E aí você vai ter de esperar anos até sair do vermelho. E até o vencimento, em 2040, 2050, para ter a renda que contratou (IPCA+7%, por exemplo).
Pois é. A renda fixa com rendimento potencial de renda variável também tem risco de renda variável.