Os próximos 12 meses dificilmente se parecerão com os últimos 12. A afirmação é do CEO da Sparta, Ulisses Nehmi, e ele define, em boa medida, como será o ano novo da renda fixa. Se 2025 foi um período de bonança para investimentos atrelados à Selic, 2026 será um meio termo.

Mesmo com a taxa básica de juros ainda em patamar elevado, a zona de conforto de juros no maior patamar em quase 20 anos vai começar a diminuir. Afinal, se nenhum “cisne negro” aparecer pelo caminho, a taxa básica deve cair e levar o investidor a deixar gradativamente o porto seguro em busca de mais diversificação.

Ainda assim, mesmo com a potencial da mudança no cenário de juros, é preciso ter em perspectiva os principais fatos relativos ao cenário da renda fixa no ano que vem para o investidor:

Os riscos para 2026

Um fator importante no processo de reprecificação na renda fixa será o ritmo dos corte de juros. A gestora ASA prevê uma aceleração das reduções ao longo do primeiro semestre de 2026. Na visão do diretor de macroeconomia da gestora e ex-diretor do BC, Fabio Kanczuk, a Selic deve terminar o próximo ano em 11,50%. “A gente enxerga os juros abaixo de 12% no fim de 2026 e isso significa dar um corte de 0,75 ponto percentual no meio do caminho.”

Caso isso aconteça, o saldo de quem tem prefixados e IPCA+ na carteira tende a subir com força, provavelmente acima do CDI. Pois essa é a mecânica: o valor deles cresce conforme a expectativa para o futuro da Selic cai – algo que tende a acontecer num cenário de queda mais acelerada da Selic “no presente”.

Quais os riscos para 2026? Na visão de Kanczuk, o principal é que a curva de juros embute nos preços a perspectiva de um ajuste fiscal após as eleições, seja quem for eleito. “O fiscal ficou bem mais fragilizado a partir deste ano. Houve muitas mudanças nas regras e isso não se refletiu numa dinâmica muito pior dos preços dos ativos. Isso em grande medida porque o mercado está encomendando um ajuste fiscal a partir de 2027.”

Se as sinalizações dos líderes das pesquisas eleitorais forem no sentido contrário, ou seja, de ampliar os gastos públicos a partir de 2027, pode haver um estresse na curva de juros para refletir essa perspectiva. Isso significa que as taxas reais podem subir ainda mais e, consequentemente, reduzir o saldo de quem tem títulos prefixados e atrelados à inflação na carteira.

Crédito privado ainda pede seletividade

Com a aproximação do início do ciclo de queda da Selic, o mercado de crédito privado deve atravessar uma fase de transição.

A redução da Selic costuma reativar o interesse por classes de maior risco, caso dos títulos de renda fixa emitidos por empresas. No cenário de queda de juros, podem surgir oportunidades de entrada em títulos isentos de imposto de renda, como as debêntures incentivadas e os certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio( CRA). Como o fluxo de recursos tende a a migrar para outros ativos, o chamado “spread”, ou seja, o prêmio pedido pelos investidores acima do retorno de papéis do Tesouro, pode subir novamente.

Ao longo de 2024 e 2025, esse prêmio ficou muito reduzido diante da elevada demanda pelos títulos isentos. Houve casos de companhias com perfil de crédito mais elevado, como Vale e Petrobras, que emitiram debêntures incentivadas com spread negativo, ou seja, com retorno nominal abaixo de títulos públicos de vencimentos semelhantes.

A Sparta enxerga o ambiente em um rumo de normalização, “menos dependente de fluxo e mais orientado por preço relativo e fundamentos”. Por isso, “continuamos construtivos nas estratégias indexadas ao IPCA e nas prefixadas para incentivados, onde a queda nas taxas de juros tende a ser o principal motor de retorno”.

Os analistas Viviane Silva, Melina Constantino e Fernando Cunha, do BB Investimentos, ressaltam o papel defensivo da renda fixa, incluindo o crédito privado, nos portfólios em meio a um ano que tem tudo para vivenciar muitos altos e baixos nos mercados. “A maior volatilidade registrada em outras classes de ativos reforça o espaço para que a renda fixa permaneça relevante na composição de portfólios.”

Para 2026, no caso do crédito privado a casa recomenda aos investidores manter uma estratégia conservadora e seletiva, de papéis de companhias com perfil de crédito mais elevado e fundamentos mais sólidos, o chamado “high grade”. “Embora a projeção de retornos seja mais modesta em comparação com ativos de maior risco – o ‘high yield’ –, os níveis altos de taxas dos juros reais e o incentivo fiscal continuam, em nossa visão, mantendo a competitividade da classe.”