Já abordamos aqui como o mercado premia os pacientes e aqueles que já estavam posicionados em ativos que perderam valor, à espera de uma recuperação, como ocorreu com a bolsa. E também por que investir em dólar e em ouro complementa uma boa estratégia neste momento.
Combinar isso com aplicações atreladas ao IPCA (índice de inflação ao consumidor) e se desviar de setores que tendem a perder com o atual cenário completa o “combo” para enfrentar uma nova onda de volatilidade, se (e quando) ela acontecer.
Primeiramente, a inflação. Há cerca de um mês, as previsões para o IPCA no fim do ano estavam em 3,91%, segundo o último Boletim Focus, que aponta as projeções de mercado. Agora, a estimativa dos economistas consultados pelo Banco Central é de 4,17%.
Os receios de que o petróleo em alta, acima dos US$ 100 o barril, provoque um choque inflacionário no mundo persistem. O Brasil é um exportador líquido da commodity, o que significa que tem a ganhar quando o petróleo é vendido por um preço maior.
Mas, na outra ponta, a alta consistente da matéria-prima pode levar à necessidade de repasses para os preços internos, o que afeta a cadeia de combustíveis e outros segmentos ligados a ela, como alimentos – uma inflação mais resiliente de combater. E outras commodities, como fertilizantes, também podem permanecer com preços altos que se alastrem para a economia.
Dito isso, quem investe no Tesouro IPCA+ se protege da piora da inflação logo de cara, já que o título paga um prêmio acima do índice de preços. E aí, entra um componente que contribui ainda mais para as perspectivas para esse investimento agora: as suas taxas elevadas.
Os juros dos títulos públicos subiram para acompanhar a piora na aversão ao risco desde o começo dos ataques entre EUA e Irã. Desde então, o comportamento tem sido no estilo “batimento cardíaco”, com sobe-e-desce intenso.
A verdade é que, passado esse impacto, essas taxas tendem a ceder – como vinha acontecendo – e se estabilizarem em níveis mais baixos em relação aos picos históricos em que estão. E aí, na dinâmica da renda fixa, quando a taxa cai, o preço sobe. E é isso que o investidor que já tem o papel na carteira possivelmente verá.
Ou seja: o investimento protege da inflação e permite que o investidor que entre agora “trave” uma remuneração alta se antecipando ao movimento que tende a acontecer quando a aversão a risco diminuir. Tudo sempre pode mudar – para pior –, mas a estratégia é sólida no atual cenário.
Aviação, petroquímica e transporte: setores sensíveis
De um lado, as petroleiras no Brasil – Prio e Petrobras, em particular – tendem a ser bastante beneficiadas com a alta do petróleo. Mas, do outro lado da moeda, estão as empresas que tendem a perder com a guerra e que podem ter mais dificuldade de voltar ao jogo da atratividade.
O setor aéreo é um dos mais sensíveis à alta do petróleo porque o combustível – o querosene de aviação (QAV) – é um de seus principais custos operacionais, frequentemente representando entre 25% e 40% das despesas totais das companhias.
Em momentos de disparada do petróleo, empresas aéreas veem suas margens comprimidas rapidamente, já que nem sempre conseguem repassar integralmente o aumento para o preço das passagens no curto prazo. Ou seja, o petróleo é um dos principais determinantes da rentabilidade do setor, o que explica o risco que o investidor corre ao apostar nessas empresas.
Já a indústria petroquímica depende diretamente do petróleo e do gás como matéria-prima para a produção de resinas, plásticos e diversos insumos industriais. Quando o petróleo sobe, o custo dessas matérias-primas aumenta, o que pressiona as margens das empresas.
Isso se torna especialmente relevante em ambientes de demanda mais fraca, nos quais o repasse de preços é limitado. E, considerando que as margens são altamente cíclicas (dependem do ambiente macroeconômico), o setor é vulnerável aos choques de preços.
Por fim, as empresas de transporte – incluindo logística rodoviária, marítima e urbana – têm forte exposição ao diesel e a outros combustíveis, o que torna seus custos diretamente atrelados ao preço do petróleo.
Em economias como a brasileira, em que o transporte de cargas depende majoritariamente de rodovias, a alta do diesel impacta rapidamente o custo operacional das companhias e pode levar à compressão de margens, sobretudo em contratos de curto prazo ou com baixa capacidade de repasse.
E isso em um ambiente em que o encarecimento dos combustíveis é transmitido para toda a cadeia de distribuição.