Qual a chance de o Federal Reserve (Fed) cortar juros na reunião de hoje? Zero. Ninguém no mercado internacional vê a mínima chance de o banco central americano fazer qualquer movimento no encontro desta quarta-feira (29).

Isso é o que mostra a ferramenta CME FedWatch, que acompanha as apostas do mercado nos rumos da política monetária nos EUA. O painel mostra 100% das posições fechadas na manutenção dos juros na faixa entre 3,50% e 3,75%.

O canto de cisne do atual presidente do Fed, Jerome Powell, portanto, parece já entoado. Em sua última reunião à frente do Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc, a manutenção dos juros parece selada.

A despedida de Powell da presidência do Fed tem uma data marcada: 15 de maio. Mas seu mandato como integrante do conselho do banco central americano se estende até 2028. Se seguir a tradição, deve deixar a instituição logo após entregar a cadeira de “chairman“.

O futuro comandante do BC americano, Kevin Warsh, provavelmente, vai assumir nas próximas semanas. Sua posse ainda depende da aprovação do Senado, em sessão marcada para esta quarta-feira (29), mas que deve confirmar sua nomeação sem sobressaltos.

Assim que sentar na cadeira já terá de encarar uma missão complicada: equilibrar as expectativas do presidente dos EUA, Donald Trump, que bombardeou Powell durante boa parte de seu mandato com exigências de queda de juros, e, ao mesmo tempo, segurar as rédeas da inflação.

As respostas sobre a postura do novo presidente do Fed, se ele vai ceder às pressões políticas ou manterá a independência da instituição, vão ser respondidas em 17 de junho, quando vai chefiar sua primeira reunião do Fomc.

Se depender das expectativas do mercado, Warsh vai desagradar Trump: o FedWatch mostra que, nas apostas de investidores, os juros americanos vão continuar onde estão, pelo menos, até dezembro de 2027.

Guerra turva cenários de juros

Essa visão meio cinza de juros altos por (bem) mais tempo vem das preocupações com os efeitos inflacionários da guerra no Oriente Médio. A gasolina, por exemplo já subiu mais de 38% em território americano do fim de fevereiro até agora. Já o diesel acumula elevação de 45%.

As altas vem na esteira da escalada dos preços do barril de petróleo que nesta quarta-feira (29) se mantém acima de US$ 110. Só para relembrar, antes da guerra a cotação do Brent, a referência global da commodity, estava em torno de US$ 65 o barril.

E não são apenas os combustíveis. Os fertilizantes sobem 31% e, entre eles, um dos mais utilizados, a uréia, acumula alta de 60%. E os fretes marítimos já avançam 16%.

Os mesmos fatores que colocaram o Fed nessa encruzilhada também afetam os rumos da política monetária brasileira.

Por aqui, o painel das opções de Copom, uma ferramenta que tem função similar ao FedWatch, mas com foco nas decisões do nosso BC, indicam 86,3% de possibilidades de o comitê cortar a Selic em 0,25 ponto percentual para 14,50% ao ano.

Há ainda uma fatia de 10,5% que vê uma chance maior de a taxa básica ser mantida no patamar atual. Os 3% restantes ainda enxergam alguma brecha para uma redução maior.

Inflação começa a colocar as mangas de fora

A prévia da inflação em abril, o IPCA-15, divulgado na terça-feira (28), veio abaixo das expectativas do mercado, com alta de 0,89% ante consenso de 0,98%. A economista do Itaú Unibanco, Luciana Rabelo, porém destacou ver um perfil qualitativo pior na composição do índice.

“Houve uma surpresa altista em industriais subjacentes, concentrada principalmente em higiene pessoal e vestuário, possivelmente já refletindo efeitos indiretos do choque do petróleo.”

E esse impacto deve se manter nos próximos meses. No boletim Focus, do Banco Central, que reúne as projeções de instituições financeiras, as expectativas para o IPCA no fim de 2026 sobem pela sétima semana consecutiva e agora alcançam 4,86%, acima do teto da meta de inflação do BC.

Para 2027, o mercado já enxerga um patamar de 4%, bem acima dos 3% que é a “verdadeira” meta da autoridade. É que as regras preveem uma tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo, ou seja, na prática, o BC pode considerar o trabalho feito se o IPCA se mantiver na faixa entre 1,5% e 4,5%.

Desancoragem é maior preocupação do BC

O problema é que, conforme o Focus indica, há um processo gradativo de perda de referência sobre os níveis futuros esperados para a inflação. Esse fenômeno é chamado pelos economistas de “desacoragem” expectativas e o resultado, se houver um descontrole, costuma ser um movimento disseminado de aumentos preventivos de preços.

Ninguém espera, no entanto, que o BC tenha de subir juros em algum momento do ano. Mas o ritmo de queda dos juros por aqui vai continuar mais lento. As expectativas do mercado colocam a Selic em 13% no fim de 2026. Isso implica em cinco cortes de 0,25 ponto percentual e uma redução de 0,5 ponto nas próximas seis reuniões do Copom até dezembro.

Decisões na superquarta têm impactos reduzidos

As decisões do Fed e do BC brasileiro ainda vão impactar pouco o fluxo de recursos aos mercados emergentes. No caso do Brasil, significa a manutenção da entrada de dólares para a bolsa em busca de diversificação fora dos EUA. Nesse cenário, o câmbio tende a se manter menos volátil.

A maior interrogação será a busca pelo acordo de paz entre EUA e Irã. O impasse sobre o programa nuclear iraniano pode levar a uma retomada dos ataques americanos e a volta do bloqueio no Estreito de Ormuz.

Nesse cenário, a busca por proteção em meio à escalada das incertezas pode pausar ou até reverter o fluxo de capital para o país e levar a um aumento da volatilidade cambial.

Enquanto o mercado acreditar na possibilidade de um acordo, porém, mesmo que a Selic caia para 14,50% ao ano nesta quarta-feira, não altera a atratividade do real como moeda de “carry trade“.

O carry trade consiste em tomar recursos em mercados com juros baixos, como os Estados Unidos, e aplicar em ativos de países que pagam taxas elevadas, caso do Brasil, para ganhar com a diferença de remuneração.

O nível de taxas continua muito elevado e o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos ficaria em 10,75 pontos percentuais mesmo com manutenção por lá e corte aqui.