O papel fechou em queda de 8% nesta terça (25) após a companhia ter divulgado seus resultados, na noite de ontem. O Mercado Livre registrou US$ 559 milhões de lucro – 14% abaixo na comparação anual. E aquém da previsão de US$ 596 milhões, a mediana dos dados compilados pela Bloomberg.
A receita líquida cresceu: de 45% na comparação anual, para US$ 8,8 bilhões, superando o consenso de US$ 8,5 bilhões, à medida que clientes aproveitaram benefícios de frete grátis no Brasil e aumentaram a demanda por ofertas de crédito do Mercado Livre. Esse foi o 28º trimestre consecutivo com crescimento anual acima de 30%.
Ainda assim, os investimentos substanciais no negócio principal de e-commerce e na unidade de fintech em expansão pesaram nas margens, provocando uma reação negativa do mercado e levando as ações ao menor nível desde janeiro de 2025.
Mais cedo, no pregão, o papel chegou a cair até 14% antes de reduzir parte das perdas.
“Tomamos decisões de forma consciente para investir em tudo o que faz do Mercado Livre o melhor marketplace”, disse Leandro Cuccioli, vice-presidente sênior de relações com investidores da empresa, em entrevista antes da divulgação. “Mas, claro, no curto prazo, estamos muito conscientes de que isso tem algum impacto na compressão das margens.”
O analista Rodrigo Gastim, do Itaú BBA, afirmou que os principais gastos foram “a decisão certa” para a companhia.“
A empresa está novamente sacrificando a rentabilidade de curto prazo para reforçar suas vantagens competitivas”, escreveu em uma nota, acrescentando que vê qualquer desempenho abaixo do esperado das ações após a divulgação do balanço como uma “boa oportunidade de compra”.
Enquanto os grandes investimentos corroem as margens, a empresa está sob pressão para continuar melhorando seus serviços. Há forte competição de empresas como a Amazon, gigante global com presença crescente no Brasil e no México, e de players asiáticos como a Shein Group Ltd., que busca atrair consumidores sensíveis a preço com importações baratas e promoções agressivas.
“Esses investimentos são necessários para o futuro deles — ampliar o sortimento de produtos impede que consumidores busquem alternativas, enquanto investir em capacidades de crédito aumenta o poder de compra dos consumidores e melhora a fidelidade”, disse Craig Maurer, diretor-gerente da Financial Technology Partners. “A liderança deles em logística e o investimento contínuo estão tornando muito difícil a vida dos concorrentes.”
Os resultados chegam meses após a primeira grande transição de liderança na história da empresa. O chefe de comércio, Ariel Szarfsztejn, tornou-se diretor-presidente (CEO) em 1º de janeiro, sucedendo o fundador Marcos Galperin, que deixou o cargo após 26 anos para se tornar presidente do conselho (executive chairman).
Corrida armamentista na fintech
No lado da fintech, o Nubank, que deve se tornar um banco no México ainda neste ano, e a Revolut Ltd., que vem abrindo espaço na América Latina, representam um desafio ao Mercado Pago, a unidade de serviços financeiros da companhia.
“A concorrência trouxe um nível de desenvolvimento para esses mercados que não teria sido possível sem muitos jogadores competindo”, disse Cuccioli. “Nosso crescimento é fruto da competição porque ela empurrou todos nós a oferecer produtos melhores aos consumidores.”
O Mercado Pago continuou superando a unidade de e-commerce, à medida que mais clientes adotaram sua carteira digital e produtos de crédito e investimento. A área de fintech processou US$ 83,7 bilhões em volume total de pagamentos (TPV) no trimestre, alta de 42% em relação ao ano anterior. A carteira de crédito saltou 90% na comparação anual, para US$ 12,5 bilhões, enquanto os usuários ativos mensais subiram para quase 78 milhões. Os ativos sob gestão dispararam 78% em um ano, para quase US$ 19 bilhões.
“Alguns mercados financeiros na América Latina são ainda menos desenvolvidos do que alguns mercados de varejo”, disse Cuccioli. “Essa é uma oportunidade enorme, especialmente para fintech no México, que eu diria ser a maior oportunidade para a empresa como um todo.”
O Mercado Livre registrou 83 milhões de compradores únicos na plataforma, alta de 24% em relação a um ano antes. O volume bruto de mercadorias (GMV) — valor total dos bens vendidos no marketplace — cresceu 37%, para US$ 19,9 bilhões.
Bem posicionado
“O Mercado Livre está bem posicionado para continuar sendo a plataforma dominante de e-commerce na América Latina. A rentabilidade pode ser pressionada por investimentos em frete grátis, fulfillment e no negócio de crédito, embora isso possa ser parcialmente compensado por maior engajamento de clientes e por vendas de publicidade, de margem mais alta”, escreveram Poonam Goyal e Sydney Goodman da Bloomberg Intelligence
A empresa também seguiu acelerando sua aposta em inteligência artificial, construindo ferramentas “agentic” internas para melhorar busca, recomendações e atendimento ao cliente em todo o marketplace e no Mercado Pago.
A tecnologia deve aumentar a personalização, as vendas cruzadas e os serviços para lojistas, além de abrir caminho para mais receita de publicidade digital à medida que os orçamentos de marketing migram para o online, disse Szarfsztejn em teleconferência de resultados na terça-feira.
“A parte em que estamos colocando a maior parte dos nossos esforços é no desenvolvimento da nossa própria experiência agentic dentro da Mercado Livre”, disse ele.
Por Maria Clara Cobo e Leda Alvim