O consumo de cerveja esfriou em 2025, com o volume vendido por toda a indústria caindo mais de 5%. Para a Ambev, líder do mercado com cerca de 60% das vendas, a queda não foi sinal de mudança estrutural no apetite do brasileiro pela categoria, e, sim, pelo efeito de um ano em que o clima atrapalhou as ocasiões de consumo.

Na teleconferência de resultados, o CEO Carlos Lisboa repetiu a ideia de que “o que mudou em 2025 não foi se o consumidor quer cerveja, mas com que frequência os momentos certos aconteceram”. Na leitura da companhia, o fenômeno La Niña alongou e intensificou o inverno, empurrando frio e chuva para mais perto do segundo semestre — e isso bateu direto na principal ocasião da categoria no Brasil: beber fora de casa, com amigos.

Em 2025, o volume de cerveja no Brasil caiu 4,5%, quando comparado a 2024. A receita líquida da Ambev somou R$ 88,24 bilhões, um aumento de 4%, e o lucro líquido ajustado chegou a R$ 15,12 bilhões, um avanço de 1,6% ante o ano de 2024. No quarto trimestre, o volume de cerveja caiu 2,6%, abaixo do que previam os analistas – o que ajudou a ação a subir mais de 4% na tarde desta a quinta-feira (12).

Carlos Lisboa, CEO da Ambev
Carlos Lisboa, CEO da Ambev (Ilustração: Daniela Arbex)

O recuo foi similar ao do grupo Heineken, seu principal concorrente. O grupo reportou queda de um dígito médio de volume e um recuo de um dígito baixo na receita – algo como 1% a 3%. Ainda assim, as duas maiores cervejarias do país, que têm brigado pela liderança do segmento premium, ganharam fatias de mercado, com o Grupo Petrópolis lidando com dificuldades financeiras em meio a seu processo de recuperação judicial.

Para 2026, a Ambev projeta um ano mais favorável. Lisboa citou que o calendário à frente ajuda: mais feriados e fins de semana prolongados, além da Copa do Mundo, em fuso horário considerado conveniente para os mercados latino-americanos – com boa parte dos jogos no início da noite, o happy hour.

Ano de stress test

A diretoria da Ambev também descreveu 2025 como um teste de resistência. A combinação de mercado fraco, pressão de commodities e câmbio e a desalavancagem operacional (menos volume dilui menos custos) teria forçado o grupo a ganhar músculo em disciplina e execução — sem, segundo eles, abrir mão de investir nas marcas.

O CFO Guilherme Fleury destacou que a companhia fechou 2025 com expansão de 0,50 ponto percentual na margem EBITDA, para 33,4%, marcando o terceiro ano consecutivo de melhora.

Premium com crescimento e Skol em recuperação

Os volumes de cervejas premium cresceram mais de 15% em 2025, acirrando a disputa com a Heineken, que liderou esse segmento por uma década. A Ambev defende que foi a única a crescer no segmento no último trimestre e que, desde o terceiro trimestre, vinha liderando essa frente com rótulos como Spaten, Corona e Stella Artois.

A Heineken contesta. O grupo holandês reconheceu que seu principal rótulo caiu em volume no ano, mas pessoas próximas ao negócio dizem que esse cenário já se reverteu em dezembro, ajudando a fazer do quarto trimestre o mais rentável do grupo desde que ele chegou ao Brasil.

Apesar do crescimento ter vindo do segmento premium, a Ambev destacou que a categoria de maior consumo, chamada de core e composta por rótulos como Brahma, Antárctica e Skol, já começou a se estabilizar no último trimestre. A Skol, que vinha perdendo força e cuja a recuperação da marca foi uma das principais missões de Lisboa ao assumir como CEO, voltou a ganhar tração em estados do Nordeste, por exemplo.

Outra frente de expansão do rótulo foi o lançamento recente da Skol 00, que não tem álcool nem açúcar na composição. Trata-se de mais um investimento em rótulos batizados de balanced choices (“escolhas equilibradas”), que são zero ou têm baixo percentual de álcool, como Bud Zero, Corona Cero ou Michelob Ultra. Esse portfólio cresceu 60% em vendas em 2025.

Questionada por analistas sobre o avanço de remédios de perda de peso (GLP-1) e possíveis mudanças de hábito, a Ambev disse que não observou impacto significativo no negócio até aqui. Lisboa reforçou que o que puxou 2025 para baixo foi, sobretudo, clima e ocasião — e afirmou que a companhia vai monitorar a tendência, enquanto amplia o portfólio para atender consumidores que buscam opções mais leves.