Em tempos de guerra tarifária, a Gerdau colocou sobre a mesa alguns dos seus projetos de investimento. A ideia é olhar com cuidado para cada um deles para então decidir se vale a pena seguir com o plano original, ou se o melhor é mudar o destino dessas alocações.

Isso vale tanto para investimentos na ampliação da produção das fábricas já existentes quanto para a construção de novas unidades – a Gerdau já havia anunciado, por exemplo, planos para a construção de uma nova fábrica no México. Mas também para projetos já concretizados, como a Gerdau Summit, empresa criada para atender especificamente fabricantes de equipamentos para o setor de energia eólica – uma indústria que vem deixando gradualmente o país.

“Se o governo federal não intensificar a defesa comercial brasileira até junho, a empresa irá debater se vale a pena continuar com o volume de investimentos e recursos que coloca no Brasil”, afirma Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, em entrevista exclusiva ao InvestNews.

Somente para 2025, a Gerdau aprovou um plano de investimentos em produtividade e aumento da capacidade de produção (capex) de R$ 6 bilhões.

Além do Brasil, a Gerdau tem produção em outros seis países, incluindo Estados Unidos e México. E o que está em discussão neste momento é onde vale a pena alocar esses recursos: no Brasil ou em algum dos outros mercados onde a companhia já está instalada. Hoje, olhando friamente para o cenário, os Estados Unidos seriam muito mais atrativos para investimentos, aponta Werneck.

No ano passado, a receita líquida da Gerdau na América do Norte foi de R$ 6,2 bilhões, valor praticamente do mesmo tamanho da operação no Brasil. Então, se as tarifas de importação impostas por Trump fizerem crescer a demanda por aço produzido em solo americano, a companhia vai sair beneficiada.

“A reindustrialização dos Estados Unidos, um dos objetivos das tarifas, pode gerar mais oportunidades para a Gerdau naquele mercado”, diz Werneck, CEO da Gerdau desde 2018. Não é de hoje que o executivo fala sobre o impacto negativo do que ele chama de “invasão” do aço chinês. E a falta de políticas de “defesa comercial” no Brasil é um dos pontos de atenção da Gerdau para tomar suas decisões de investimento futuro.

A questão central é que, hoje, o país consome 4 milhões de toneladas de vergalhão por ano. Já a China tem uma capacidade instalada compatível com 400 milhões de toneladas – estrutura montada nos anos em que teve seu crescimento sustentado por investimentos em infraestrutura e construção civil.

Com a desaceleração da economia chinesa dos últimos anos, há um enorme excedente de aço que está sendo vendido mundo afora a preços muitas vezes abaixo do custo de produção. É esse tipo de concorrência que o governo americano está tentando barrar ao subir as tarifas. E que, na visão de Werneck, deveria ser alvo de ações também por parte do governo brasileiro.

Nos 124 anos de história da empresa, nunca a Gerdau Brasil e a Gerdau Estados Unidos estiveram em situações tão distintas ”

Gustavo Werneck, CEO da Gerdau

Nem mesmo a sobretaxa de 25% sobre a entrada de alguns tipos de aço chinês, anunciada pelo governo há quase um ano, gerou o efeito esperado no setor. “As importações, inclusive, aumentaram”, critica Werneck. Entre 2023 e 2024, as compras de aço da China cresceram 20%, de acordo com estimativas do setor.

Segundo o executivo, apesar da porta fechada pelo Brasil, as indústrias chinesas encontraram algumas “janelas” para manter a entrada do aço produzido por lá: a importação via Zona Franca de Manaus; também por meio de um acordo bilateral entre Brasil e Egito; e ainda através benefícios de ICMS que alguns Estados oferecem. “São distorções que precisam ser corrigidas”.

Ciclo longo

Mas não é só isso. O CEO da Gerdau afirma que há muita preocupação também com a competitividade do negócio, em especial quanto ao fornecimento e ao custo da energia, insumo fundamental para a siderurgia.

Ele cita, por exemplo, a oferta ainda restrita de gás natural, mesmo depois da lei de 2021 que abriu o mercado com o objetivo de acabar com o domínio da Petrobras. Isso faz o custo do combustível ser quatro vezes mais caro no Brasil do que nos EUA, segundo o executivo. “Os Estados Unidos têm dado mostras de que vai buscar aumentar a competitividade da indústria local, melhorando o custo da energia, por exemplo”, diz o executivo.

Uma indústria como a de siderurgia tem ciclos longos. Isso significa que a empresa toma uma decisão de investimento hoje para começar a produzir em alguns anos. É por isso que é tão importante ter alguma previsibilidade para tomar decisões. Além da competição – desleal, nas palavras de Werneck – do aço chinês, temas como insegurança energética e os efeitos da reforma tributária estão sendo considerados pela companhia para tomar os próximos passos.

“O balanço da Gerdau está super desalavancado, a empresa está muito bem preparada para o futuro, então a gente não tem preocupação de curto prazo. Mas o que nós estamos agora analisando com detalhe é onde nós vamos de fato colocar os maiores recursos da companhia ao longo dos próximos anos”, diz.

Presidente Lula inaugurou nova linha de produção da Gerdau em Ouro Branco (MG)
Presidente Lula inaugurou nova linha de produção da Gerdau em Ouro Branco (MG) (Ricardo Stuckert/PR)

Há poucos dias, a companhia inaugurou a ampliação de uma planta produtiva em Ouro Branco (MG), projeto que custou R$ 1,5 bilhão e que foi definido quatro anos atrás. Naquele momento, diz Werneck, o Brasil estava sob o efeito do avanço de algumas agendas importantes para o setor produtivo, como a reforma trabalhista.

“Passados quatro anos, a gente vê todas essas dificuldades. Então, o que nós vamos observar agora com um pouco mais de detalhe é se o Brasil está ou não de fato preocupado com a questão da indústria “, diz.

Outro exemplo da reavaliação da Gerdau está no México, onde a empresa tem três plantas. A companhia tem planos para construir uma fábrica de aços especiais no país. Mas esse projeto, avaliado em US$ 500 milhões, também entrou em stand by.

Werneck explica que a companhia está reavaliando a viabilidade econômica do projeto diante das mudanças impostas pelo governo de Claudia Sheinbaum. “Nossa leitura é que o México está deixando de ser um país pró-competitividade”, acrescenta. A decisão será tomada também nos próximos meses.

Idas e vindas

A indústria siderúrgica já vem sentindo o efeito da descontinuidade de projetos de diferentes clientes potenciais. Um caso é o setor de energia eólica.

A Gerdau firmou uma parceria com a japonesa Sumitomo para investir em uma empresa que produz aço especificamente para a indústria de energia eólica, chamada Gerdau Summit. Só que boa parte dessas empresas foram embora do Brasil. Com isso, resta à Summit encontrar uma nova vocação, ou simplesmente deixará de existir “porque não tem ninguém para quem produzir”. 

Outro caso, diz Werneck, é a indústria naval, um dos principais mercados para as siderúrgicas mundo afora. E, segundo o executivo, ela “começa a desaparecer” no Brasil. O CEO lembra que a própria Gerdau investiu na expansão de suas linhas de aços planos, utilizados por essa indústria, esperando que o país pudesse incentivar o crescimento da atividade. “Não é possível que não possamos ter uma indústria naval aqui, mesmo pequena”, diz.

Pensamento limitante

A dificuldade de se construir um ambiente favorável a negócios para o longo prazo não é só do governo. Para Werneck, o “pensamento limitante do empresário brasileiro” inviabiliza o avanço da agenda de produtividade no país. E isso tem a ver com a visão de curto prazo que muitos deles têm.

Um exemplo são as críticas da indústria automobilística e de máquinas contra as tarifas de importação do aço, em um momento em que grandes companhias estrangeiras estão se instalando no país sem consumir nenhum insumo no Brasil.

É o caso da BYD – nome que o executivo evitou citar – que instalou uma linha de montagem de seus veículos na Bahia trazendo todas as partes do veículo já prontas de fora. “O debate não pode ser feito olhando para setores específicos, mas pensando em uma política mais ampla e de longo prazo”, diz.

Embora veja riscos e incertezas à frente, Werneck diz que não há nenhum tipo de “desilusão” no cenário traçado para o Brasil. “Somos uma empresa de 124 anos e nossas decisões são sempre pragmáticas”, afirma.