O motivo, de acordo com pessoas próximas à companhia, é que não há tempo hábil para que os novos controladores consigam renegociar as dívidas antes dos próximos vencimentos. A previsão é que a gestora IG4 assuma as ações da Novonor (ex-Odebrecht), atual controladora, apenas em maio.
Enquanto isso, a empresa, cujo outro acionista relevante é a Petrobras, tem dois grandes riscos no radar.
O primeiro: a petroquímica não teria condições de honrar o pagamento dos cupons de juros de seus bonds no mercado internacional que vencem entre junho e julho, estimados em mais de US$ 100 milhões, considerando os títulos com vencimento em 2028, 2030, 2031 e 2041.
O segundo gatilho pode vir da Braskem Idesa, subsidiária no México que já está em default após deixar de pagar juros sobre seus bonds em novembro passado e fevereiro deste ano. A Braskem Idesa negocia com credores uma possível reorganização via Chapter 11, o equivalente à recuperação judicial nos Estados Unidos.
A Braskem mantém com a subsidiária mexicana um contrato de suporte financeiro (equity support agreement) que, em caso de evento de default, pode gerar obrigações adicionais para a própria Braskem. A dívida bruta da Braskem Idesa é de US$ 2,25 bilhões, contra um caixa de apenas US$ 35 milhões.
“A companhia vai precisar de uma reestruturação muito profunda”, disse uma das pessoas ouvidas pelo InvestNews, sob condição de anonimato. A Braskem, prossegue a fonte, está hoje em situação de insolvência, e alguma medida precisará ser tomada antes da troca de gestão. “A realidade está se impondo.”
O cenário descrito pelas fontes é compatível com os números trimestrais divulgados pela Braskem na última sexta-feira (27). A companhia encerrou 2025 com prejuízo de R$ 9,9 bilhões, patrimônio líquido negativo de R$ 16,5 bilhões e alavancagem de 14,74 vezes o Ebitda.
A KPMG, que auditou o balanço, registrou “incerteza relevante relacionada à continuidade operacional.” O próprio CFO da petroquímica, Felipe Jens, classificou a reorganização da estrutura de capital como “prioridade absoluta” durante teleconferência com analistas.
Procurada, a Braskem não comentou. A IG4 também não se manifestou.
Bondholders no centro
A reestruturação será complexa porque 75% da dívida corporativa da Braskem está nas mãos de bondholders internacionais. Bancos respondem por 15% do endividamento, e o restante se divide entre mercado de capitais local e órgãos multilaterais.
Os bancos locais no Brasil seguem fornecendo capital de giro à companhia por meio de operações colateralizadas (garantidas) por recebíveis, mas uma renegociação com detentores de títulos no exterior tende a ser mais lenta e litigiosa.
A companhia contratou em setembro de 2025 o banco Lazard, o escritório americano Cleary Gottlieb e o brasileiro E. Munhoz Advogados para assessorá-la na reestruturação.
O perfil dos assessores, especialmente a presença de Eduardo Munhoz, referência em recuperações judiciais e extrajudiciais no país, já havia ligado um sinal de alerta no mercado.
A dívida líquida da Braskem está em US$ 7,5 bilhões (R$ 41,2 bilhões). Em termos brutos, o endividamento corporativo soma US$ 9,4 bilhões (R$ 51,8 bilhões).
Além da linha de crédito stand-by de US$ 1 bilhão que vence em dezembro de 2026, a companhia enfrenta vencimentos de US$ 1,4 bilhão em 2028 e US$ 1,6 bilhão em 2030.
Com ratings de CC pela Fitch e CCC- pela S&P, o que indica elevada probabilidade de defaut, a Braskem tem o seu acesso ao mercado de capitais para novas emissões atualmente fechado.