Criada há quatro anos pela JBS com um investimento de R$ 400 milhões para transformar subprodutos do boi em itens de maior valor agregado, a Genu-in, focada na produção de gelatina e colágeno para as indústrias de suplementos alimentares e cosméticos, já prepara para nova fase de expansão.

A fábrica inaugurada em 2022 em Presidente Epitácio, no oeste paulista, tem capacidade para cerca de 6 mil toneladas anuais de peptídeos de colágeno e outras 6 mil toneladas de gelatina – volume que já se mostrou insuficiente diante do crescimento das vendas.

“Já ultrapassamos a capacidade projetada originalmente”, disse ao InvestNews o diretor-executivo da companhia, Ricardo Gelain. O executivo afirma que o aumento na oferta de alimentos funcionais – categoria que inclui alimentos enriquecidos com proteínas, vitaminas ou outros ingredientes associados a benefícios à saúde – abriu ainda mais espaço para o crescimento da empresa. 

Atualmente, a Genu-in fornece colágeno para a linha de alimentos proteicos da Seara, também da JBS, bem como para a água proteica produzida pela Mamba, marca do grupo Heineken. Além da Genu-in, a Swift, também da família Batista, tem a marca de suplementos Pro & Fit, que vende whey protein e pré-treinos.

Além disso, a empresa exporta atualmente para mais de 20 países e tem nos Estados Unidos o principal destino. O Brasil ainda é um mercado relevante, mas apresenta consumo muito inferior ao de países mais maduros no uso de suplementos alimentares.

Água proteica da Mamba conta com colágeno fornecido pela JBS
Água proteica da Mamba conta com colágeno fornecido pela JBS (Divulgação)

A subsidiária da JBS se apoia nas projeções para o mercado de suplementos alimentares para justificar o potencial de crescimento do negócio. Estimativas do setor indicam que o mercado global de colágeno voltado a essa indústria já se aproxima de US$ 7,5 bilhões por ano. A Genu-in não divulga atualmente seus números de faturamento e lucro.

Indústria do reaproveitamento

O interesse crescente dos frigoríficos pelo colágeno está diretamente ligado à própria estrutura do negócio de proteína animal. A principal matéria-prima para a produção dos peptídeos – pele bovina, suína ou de peixe – é um subproduto do abate e historicamente foi destinada a aplicações de menor valor, como couro ou insumos industriais.

A produção de colágeno permite transformar parte desse material em ingredientes utilizados pelas indústrias de suplementos, alimentos e cosméticos, com margens significativamente superiores às obtidas na venda de carne. Segundo estimativas do setor, os peptídeos podem registrar margens Ebitda próximas de 30%, acima das observadas nos negócios tradicionais de proteína animal.

Fábrica da Genu-in, do grupo JBS, em Presidente Epitácio (SP)
Fábrica da Genu-in, do grupo JBS, em Presidente Epitácio (SP) (Divulgação)

O avanço da Genu-in reflete um movimento mais amplo entre grandes processadores de proteína animal, que passaram a investir em ingredientes nutracêuticos – compostos utilizados em suplementos e alimentos funcionais – e outros produtos de maior valor agregado como forma de reduzir a dependência dos ciclos tradicionais do setor.

Em 2024, a BRF também decidiu entrar no segmento ao comprar 50% da Gelprime, produtora de gelatina e colágeno sediada em Londrina (PR), por R$ 312,5 milhões. A operação avaliou a empresa em cerca de R$ 625 milhões e marcou a entrada formal da companhia no mercado de ingredientes nutracêuticos.

No caso da JBS, a aposta no colágeno se aproveita da própria escala industrial do grupo. A matéria-prima utilizada pela Genu-in vem de toda a rede de frigoríficos e curtumes da companhia. 

Segundo Gelain, a integração permite acelerar o processamento e reduzir a degradação do material, fator considerado relevante para a qualidade do produto final. A Genu-in compra a matéria-prima das demais unidades da JBS em transações a preços de mercado, operando de forma independente dentro do grupo.

Apesar do crescimento recente, a empresa ainda utiliza apenas uma fração do material disponível na cadeia do grupo. “Não absorvemos ainda 100% do que a JBS gera, mas a nossa ideia é crescer passo a passo”, acrescenta Gelain.

Do boi ao suplemento

A Genu-in atua principalmente como fornecedora de ingredientes para marcas de suplementos e alimentos, no elo B2B da cadeia. O colágeno produzido pela empresa é utilizado em cápsulas de medicamentos, pós-treino e bebidas proteicas, além de aplicações nas indústrias alimentícia e farmacêutica.

A companhia também foi a única produtora brasileira a obter autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para associar seu colágeno a benefícios como firmeza e elasticidade da pele, com base em estudos clínicos realizados desde a criação da empresa. 

Na prática, a autorização da agência permite que empresas que compram o ingrediente da Genu-in possam indicar esses efeitos diretamente nos rótulos e na publicidade, um diferencial para as vendas.

A eficácia do colágeno oral ainda é tema de debate científico. Durante a digestão, a proteína é quebrada em aminoácidos e peptídeos que são distribuídos pelo organismo conforme as necessidades metabólicas, o que leva parte dos especialistas a questionar a ideia de benefícios direcionados especificamente à pele ou aos cabelos.

Ricardo Gelain, diretor-executivo da Genu-in
Ricardo Gelain, diretor-executivo da Genu-in (Divulgação)

A próxima fase do negócio, diz o CEO, deve ser a ampliação das aplicações do colágeno para além dos suplementos tradicionais. Segundo Gelain, a empresa trabalha para ampliar a oferta de produtos voltados ao mercado de alimentos funcionais, incluindo bebidas e produtos lácteos enriquecidos com proteína de colágeno.

A estratégia acompanha uma mudança mais ampla nos hábitos de consumo, marcada pela expansão de alimentos com maior densidade nutricional e teor protéico elevado, como já mostrou o InvestNews. De refeições prontas a iogurtes e bebidas protéicas, a indústria vem redesenhando portfólios para atender consumidores que buscam produtos mais nutritivos e com benefícios específicos à saúde.

Nesse cenário, a aposta é ampliar o uso do colágeno para aplicações do dia a dia, incorporando o ingrediente a produtos como iogurtes, bebidas e refeições prontas.

Para o executivo, a combinação entre proteína e ciência deve sustentar o crescimento do setor nos próximos anos, acompanhando a maior preocupação dos consumidores com alimentação saudável e envelhecimento com qualidade de vida.