Ao entregar projetos de transmissão antes do prazo regulatório, a ISA Energia conseguiu antecipar cerca de R$ 205 milhões em Receita Anual Permitida (RAP) em 2025, acelerando o retorno de um ciclo de investimentos recorde feito pela empresa no ano passado, de R$ 5,1 bilhões.

A monetização mais rápida dos ativos ocorre em um momento em que a companhia eleva a alavancagem para financiar a expansão e substituir receitas que desaparecerão com o fim da RBSE – indenização associada à renovação antecipada das concessões de transmissão feita em 2013 e que será paga até julho de 2028.

Os R$ 205 milhões de receita antecipada vieram da energização dos projetos Água Vermelha, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais; Riacho Grande, na região metropolitana de São Paulo; e do primeiro bloco do projeto Piraquê, entre Minas Gerais e Espírito Santo.

A antecipação média foi de cerca de 14 meses, permitindo que a companhia começasse a receber a remuneração pelos ativos quase um ano antes do previsto. 

Como a RAP é a principal fonte de receita das transmissoras de energia e tem remuneração contratada e indexada à inflação, a antecipação reduz o intervalo entre o desembolso dos investimentos e a geração de caixa – um fator especialmente relevante em um momento de expansão financiada por emissão de dívida.

A estratégia de acelerar a entrega dos projetos, explica o CEO da ISA Energia, Rui Chammas, faz parte do esforço da empresa para construir novas fontes de receita antes do fim da RBSE. Após um ciclo de vitórias em leilões de concessões entre 2021 e 2023, a transmissora passou a concentrar esforços na execução dos projetos contratados e na geração de receitas capazes de substituir gradualmente esse fluxo.

“Sabendo que a empresa precisa buscar criar valor permanentemente, a gente começou nos últimos anos um programa de ganhar novas concessões e de investir na concessão paulista, nosso principal ativo, nos reforços e melhorias que geram mais receitas”, afirma Chammas, em conversa com o InvestNews

Redesenhando a receita

Na prática, a antecipação de RAP é vista internamente como um indicador de uma execução bem sucedida desse plano. O fluxo da RBSE representa hoje cerca de R$ 1,6 bilhão em receita anual, mas a companhia já tem projetos contratados suficientes para compensar a maior parte dessa perda. 

Segundo a diretora financeira Silvia Wada, apenas os projetos licitados já representam perto de R$ 1 bilhão adicional em receita futura, sem contar reforços e melhorias na rede existente. A companhia avalia que a substituição do RBSE já está encaminhada. 

Chammas pondera, no entanto, que o objetivo não era necessariamente repor a receita, mas investir em projetos rentáveis – algo que acabou produzindo um efeito semelhante. “Tem a coincidência agradável de ver que a gente vai superar o RBSE, mas a gente só está fazendo isso por ter projetos rentáveis que criem valor de fato para a companhia”, afirmou Chammas.

No quarto trimestre de 2025, a ISA Energia registrou receita líquida de R$ 1,12 bilhão, queda de 3% em relação ao mesmo período de 2024. O Ebitda somou R$ 854 milhões, alta de cerca de 7%, refletindo a entrada em operação de novos projetos de transmissão, enquanto o lucro líquido caiu 40%, para R$ 483 milhões, pressionado pelo aumento das despesas financeiras em meio ao ciclo de investimentos.

No ano passado, a empresa obteve lucro líquido de R$ 1,63 bilhão, queda de cerca de 22% em relação a 2024.

Estrutura de capital

O ciclo de investimentos elevou a dívida líquida da ISA Energia para cerca de R$ 14 bilhões no fim de 2025, com alavancagem próxima de 3,6 vezes o desempenho operacional (Ebitda).

A companhia também precisou obter do BNDES uma anuência (“waiver”) para que não fosse declarado o vencimento antecipado de parte de seus financiamentos após a aproximação dos limites de covenants financeiros, em meio ao aumento da alavancagem provocado pelo ciclo de investimentos.

Apesar disso, a empresa não vê a redução da dívida como prioridade imediata. Segundo Chammas, o nível atual é compatível com a estratégia de crescimento. “Enquanto nós conseguirmos ter projetos com rentabilidade superior ao nosso custo de captação, não há por que baixar a alavancagem”, disse o executivo.

As emissões recentes de debêntures foram realizadas a taxas entre IPCA mais 6,6% e IPCA mais 7,4% ao ano, patamar que a companhia considera compatível com a rentabilidade dos projetos de transmissão. Em 2025, a ISA captou cerca de R$ 4 bilhões no mercado de capitais em emissões de debêntures.

Novos projetos

Segundo a CFO, a empresa passou a ser mais seletiva após vencer grandes projetos nos leilões de 2023, equilibrando crescimento, endividamento e dividendos. “Depois que a gente ganhou os dois maiores projetos mais recentes, a gente não participou mais de leilão porque está de olho nessa equação”, disse Silvia.

Ainda assim, a direção da ISA Energia vê espaço para voltar a crescer em novas frentes, especialmente nos futuros leilões de sistemas de armazenamento de energia em baterias, considerados uma extensão natural do negócio de transmissão.

Banco de baterias da ISA Energia, em Registro (SP). Foto: Divulgação

O governo prepara o primeiro leilão nacional de sistemas de armazenamento em larga escala, que deverá contratar potência a partir de baterias capazes de armazenar energia e liberá-la nos momentos de maior demanda, contribuindo para a estabilidade do sistema elétrico. A data do certame ainda não foi definida.

A ISA Energia já opera um projeto pioneiro de armazenamento em baterias na subestação de Registro (SP), com capacidade de 30 MW e 60 MWh, considerado o primeiro sistema em larga escala instalado no sistema de transmissão brasileiro. A instalação funciona como um laboratório tecnológico para o setor e ajuda a reforçar o atendimento em momentos de pico de consumo.

Esse histórico, avalia Chammas, coloca a companhia em posição privilegiada para disputar o leilão que deve inaugurar um mercado ainda pouco explorado no país.