As ações da Microsoft passaram nesta quinta-feira (29) por uma das piores quedas de sua história na Bolsa, em um movimento que tirou US$ 357 bilhões em valor de mercado e transformou o balanço divulgado na véspera em um divisor de águas na narrativa da inteligência artificial da big tech.

As ações da companhia fecharam em queda de 10%, o maior tombo desde março de 2020. Trata-se da segunda maior desvalorização em um único pregão já registrada, atrás apenas da queda da Nvidia no ano passado, após o lançamento do modelo de IA de baixo custo da chinesa DeepSeek.

O gatilho foi a combinação que o mercado menos tolera: gastos recordes antes de provas claras de retorno. A Microsoft revelou um aumento de 66% no capex, que atingiu US$ 37,5 bilhões no trimestre, puxado principalmente por investimentos em data centers e infraestrutura de IA. O mercado esperava que os investimentos atingissem US$ 36,2 bilhões.

Ao mesmo tempo, o crescimento do Azure – principal termômetro da tese de IA – desacelerou em relação ao trimestre anterior. Embora a unidade de nuvem tenha avançado 39%, acima das estimativas, o guidance apresentado na conferência com analistas reforçou a leitura do mercado de perda de fôlego. A CFO Amy Hood indicou crescimento entre 37% e 38% no próximo trimestre, consolidando a percepção de que a desaceleração não é pontual.

O mercado reagiu ainda antes da abertura do pregão. No pré-market, os papéis já caíam quase 7%, sinalizando uma digestão negativa do balanço e, sobretudo, do discurso da administração. Parte do lucro também foi vista como menos recorrente: o segmento “Outros” registrou um ganho de US$ 10 bilhões, impulsionado por mudanças na estrutura societária da OpenAI, da qual a Microsoft detém cerca de 27%.

Revendo a tese

A leitura dominante passou a ser menos sobre resultados trimestrais e mais sobre reprecificação estrutural da tese. Analistas começaram a questionar se o volume de capital sendo direcionado à IA será capaz de gerar retorno proporcional. Para a Mizuho, a ação pode se tornar “dead money” enquanto o crescimento do Azure não voltar a superar 40%.

A crítica, no entanto, não é unânime. Parte de Wall Street defende que a Microsoft fez uma escolha consciente ao priorizar o desenvolvimento interno de IA, mesmo que isso limite o crescimento de curto prazo da nuvem. A empresa vem alocando parte de seus chips gráficos para projetos próprios, como Copilot e aplicações de maior margem no futuro, em vez de direcionar toda a capacidade à demanda externa.

Os defensores da estratégia apontam para a força da demanda: as obrigações de desempenho remanescentes (RPO, em inglês) somam US$ 625 bilhões, alta de 110% em um ano, indicando um backlog robusto. Ainda assim, o consenso é que o mercado trocou paciência por cobrança. A partir de agora, a Microsoft precisará mostrar monetização concreta de seus produtos de IA — especialmente do Copilot — para recuperar a confiança.

O episódio contaminou outras gigantes de tecnologia ao longo do dia, com Nvidia e Alphabet chegando a perder mais de US$ 100 bilhões em valor de mercado em momentos do pregão, sinalizando que o ceticismo não se limita à Microsoft.