A Nvidia, empresa mais valiosa do mundo, apresentou uma projeção de vendas que provocou uma reação morna dos investidores, mesmo com a receita vinda de operadores de data centers continuando a crescer com força.

As vendas nos três meses encerrados em julho devem ficar em cerca de US$ 91 bilhões, informou a companhia em comunicado na noite de quarta-feira. Embora analistas estimassem, em média, US$ 87 bilhões, as projeções chegavam a US$ 96 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.

A Nvidia também ampliou a remuneração aos acionistas, elevando o dividendo trimestral de US$ 0,01 para US$ 0,25 por ação. A fabricante de chips também anunciou US$ 80 bilhões em recompras de ações.

Homem de cabelos grisalhos, óculos e jaqueta de couro preta fala ao microfone, gesticulando, em palco verde.
Jensen Huang, CEO da Nvidia. Foto: David Paul Morris/Bloomberg

O CEO da Nvidia, Jensen Huang, disse que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial está “acelerando em velocidade extraordinária”.

A projeção decepcionou investidores que se acostumaram a ver a Nvidia superar expectativas de forma ampla. A companhia também enfrenta os primeiros grandes desafios à sua dominância em computação para IA, com várias fabricantes de chips tentando conquistar uma fatia desse mercado.

“A Nvidia entregou outro resultado acima do esperado, mas, neste ponto, isso já está essencialmente precificado, já que a empresa vem superando as expectativas trimestre após trimestre”, disse Jacob Bourne, analista da Emarketer, em nota. “A questão que permanece é se ela conseguirá convencer os investidores de que a expansão da IA terá fôlego em 2027 e 2028.”

As ações da Nvidia caíam menos de 1% nas negociações após o fechamento, depois da divulgação dos resultados. Os papéis acumulavam alta de 20% no ano, desempenho superior ao do S&P 500, mas abaixo da maioria dos grandes pares do setor de chips.

A Nvidia é a maior vendedora dos chamados aceleradores de IA, chips usados no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. Mas enfrenta uma concorrência crescente no Vale do Silício. A Advanced Micro Devices tem processadores rivais, enquanto a Broadcom e o Google, da Alphabet, avançam sobre o mercado com suas próprias tecnologias.

Por ora, a Nvidia ocupa uma posição invejável — com Wall Street projetando que a receita da companhia responderá por mais de um terço das vendas de todo o setor de semicondutores neste ano. O CEO Jensen Huang tem mantido a afirmação de que a Nvidia continuará entregando crescimento sem precedentes, à medida que a demanda permanece forte no horizonte previsível.

“A construção das fábricas de IA — a maior expansão de infraestrutura da história humana — está acelerando em velocidade extraordinária”, disse ele no comunicado de quarta-feira.

Os gastos com data centers — principal fonte de receita da Nvidia — não deram sinais de arrefecimento. Os grandes compradores nessa área, grupo conhecido como hyperscalers, planejam desembolsar, juntos, cerca de US$ 725 bilhões em IA neste ano.

Isso não impulsionou apenas as vendas de aceleradores. CPUs de uso geral, ou unidades centrais de processamento, também estão em maior demanda. Esse movimento elevou os resultados da Intel e da AMD. Novatas do setor de chips também vêm sendo beneficiadas: a Cerebras Systems, que oferece um produto inovador baseado em grandes peças de silício, fez na semana passada a maior oferta pública inicial de ações do ano.

A Nvidia, sediada em Santa Clara, na Califórnia, não vende apenas aceleradores. A companhia oferece uma gama de chips, além de soluções de rede, software, modelos de IA e até sistemas completos de computação. Isso ajuda a tornar seu alcance e suas capacidades difíceis de contestar, argumenta a administração da empresa. A Nvidia afirmou que tem mais pedidos do que consegue atender e está investindo para ampliar a oferta diante dessa forte demanda.

Nos três meses encerrados em 26 de abril, as vendas da Nvidia cresceram 85%, para US$ 81,6 bilhões. Analistas esperavam, em média, US$ 79,2 bilhões. O lucro, excluindo alguns itens, subiu para US$ 1,87 por ação, acima da projeção de US$ 1,77.

A margem bruta ajustada, percentual da receita que resta depois da dedução dos custos de produção, foi de 75%.

A unidade de data centers, a mais importante da Nvidia, gerou receita de US$ 75,2 bilhões, ante estimativa de US$ 73,5 bilhões. A área de redes, que faz parte da divisão de data centers, registrou vendas de US$ 14,8 bilhões, contra projeção de US$ 12,7 bilhões.

A companhia está no caminho para registrar receita superior a US$ 370 bilhões neste ano, segundo estimativas. Por essa métrica, será cerca de 22 vezes maior do que era no ano fiscal de 2021. A Nvidia fatura, com folga, mais em um trimestre do que suas três maiores concorrentes somadas.

Huang acaba de voltar de uma viagem à China com o presidente Donald Trump. O país é o maior mercado global de semicondutores em termos gerais. As regras de exportação dos Estados Unidos vinham limitando o crescimento da Nvidia no país ao restringir, por motivos de segurança nacional, a venda de aceleradores de IA.

O governo Trump começou a permitir que produtos mais antigos da Nvidia fossem vendidos a clientes chineses. Mas Pequim, que tenta desenvolver fornecedores locais, tem resistido a essa iniciativa. Com isso, a Nvidia segue em grande parte fora de um mercado que, segundo a própria empresa, poderia gerar US$ 50 bilhões por ano.

Enquanto isso, a Nvidia continua avançando para novas áreas. A companhia começou a vender processadores de uso geral e está oferecendo chips voltados à etapa de inferência da inteligência artificial — o momento em que os modelos já foram treinados e passam a lidar com dados e comandos do mundo real.