Há mais de uma década, o consumo de carne bovina passa por um processo de transformação e de sofisticação no Brasil, em um fenômeno com diferentes faces: da multiplicação de açougues gourmet e de influenciadores nas redes sociais até a “importação” de nomes de cortes de países como Estados Unidos e Argentina, como flat iron, denver steak, ancho e vacio.

Para a Seara, marca da JBS que tem receitas anuais com vendas da ordem de R$ 50 bilhões ao ano, há um caminho que guarda semelhanças a ser percorrido com o frango, cujos novos hábitos de consumo podem alçá-los para um lugar de ainda mais destaque na mesa dos brasileiros.

Atualmente, a marca conta com 315 tipos de produtos de aves (SKUs, no jargão da indústria), dos quais o equivalente a 25% – ou 79 para ser exato – foram lançados nos últimos cinco anos. Isso para um produto animal que está presente há muitas décadas nas mesas dos brasileiros.

A priorização da inovação em produtos se traduziu nos últimos anos em versões como frango empanado com molhos, temperado e para preparo em air fryer e forno, frango orgânico com certificação e frango marinado de padaria, o que inclui novas embalagens para preservar o sabor e a suculência.

Em comum, segundo seus executivos, as inovações buscam atender a três pilares: conveniência (praticidade), indulgência e saudabilidade – aqui, a marca se vale da tendência de busca do consumidor por proteína, na esteira da “febre” dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, que causam perda de peso e também de massa magra.

É uma estratégia também adotada pela Sadia, da rival MBRF (empresa resultante da fusão da Marfrig com a BRF).

Há duas novas frentes prioritárias na estratégia da marca para entender e atender aos novos hábitos de consumo dos brasileiros, o que, no fim do dia, acaba se traduzindo em aumento de vendas com novos produtos que buscam gerar valor para os clientes e, claro, a companhia – há quatro anos, as vendas da Seara estavam na casa de R$ 36 bilhões.

A empresa investiu em novas embalagens para o frango resfriado, in natura, com uma tecnologia conhecida como ATM (Atmosfera Modificada), em que o oxigênio interno é substituído por uma mistura de gases que preserva o frescor por mais tempo e deixa o alimento com menos umidade.

Um sistema de dupla absorção também atua para reduzir aquele líquido típico das bandeja de isopor – presentes há décadas em supermercados e açougues -, que demanda em geral um saco de plástico para não molhar outras compras ou no momento de levar para casa.

O racional por trás do investimento na inovação, que será apresentada ao mercado nesta quarta-feira (22) – com informação antecipada pelo InvestNews -, é ajudar a transformar o perfil do consumo de frango no país: atualmente, congelados respondem por 55% das vendas, acima dos 45% da carne resfriada, segundo dados da Kantar.

O frango resfriado, por sua vez, tem preço de 10% a 15% acima do congelado, segundo dados de toda a indústria citados pela marca.

A visão da Seara é que dá para avançar mais na venda de resfriados, porque isso se traduz em praticidade ao longo da cadeia: facilita o manuseio da carne, do varejista que não precisa mais preparar as peças antes de levar à gôndola, até o consumidor, uma vez que os cortes de frango, como filé de peito, coxinha da asa e sobrecoxas, já chegam embalados e na quantidade desejada.

“Acreditamos em migração e qualificação do consumo do frango por versões com mais valor agregado, e isso passa pelo frango resfriado”, disse João Campos, CEO da Seara, em entrevista ao InvestNews. Ele citou padrões mais semelhantes ao que se vê nos Estados Unidos e na Europa.

“O que mudou não foi o frango. Foi o consumidor, em busca de soluções para as suas necessidades. E o reflexo é que saímos da oferta de cortes básicos para um número muito maior de versões que se encontram nas gôndolas de supermercados. O desafio é antecipar a necessidade”, disse o executivo.

Pesquisas conduzidas com centenas de consumidores para a tomada de decisão do investimento revelaram que um terço aponta o frescor da carne de frango e a possibilidade de visualizar o alimento na embalagem como fator de escolha do produto, segundo informações da marca.

“A inovação de um produto não pode ser uma inovação por si só. Ela tem que atender uma necessidade do consumidor, que, nesse caso, passa pela busca por conveniência”, disse Campos.

A busca por inovação se traduziu em mais de 150 lançamentos de produtos da Seara em 2025, em uma estratégia que vai muito além do frango e que envolveu R$ 8 bilhões em investimentos em cinco anos.

E isso tem ajudado no fortalecimento da marca, o que se traduz de maneira prática em índices mais altos de recompra pelo consumidor e em poder de precificação, disse o CEO da Seara.

Pesquisas e desenvolvimento são conduzidos em um hub de inovação em São Paulo, denominada Academia Seara, o que inclui testes com consumidores. São de 500 a 700 estudos por mês, de ingredientes, novos sabores, modo de preparo e tamanhos das porções, entre outros.

No caso das novas embalagens, houve também testes “pra valer” em mercados regionais.

“Colocamos as novas embalagens em supermercados e lojas para testar inicialmente em Florianópolis com a marca Macedo e houve uma aceitação muito boa dos clientes e dos varejistas, o que nos deu confiança para expandir para outros mercados, nacionalmente”, afirmou.

Seara investe em novas embalagens para reforçar as vendas de cortes de frango resfriado, em detrimento dos congelados (Foto: Seara) (abril de 2026)
Seara investe em embalagens para reforçar as vendas de cortes de frango resfriado (Foto: Seara)

Frangos em rotisserias

Em outra frente de estratégia de negócios, a Seara tem investido para levar o frango assado pronto e em cortes para rotisserias dentro de supermercados e em lojas independentes de rua.

O modelo dialoga também com a busca por praticidade principalmente em grandes cidades, em que muitos consumidores – sozinhos, em casal ou família – já buscam o alimento temperado e assado, em vez de ter que comprar in natura e preparar em casa, durante a semana ou no fim de semana.

O programa, que existe há quatro anos, tem ganhado escala, a tal ponto que a marca entrega centenas de milhares de frangos por mês às rotisserias. E ganha novas versões para as lojas, como cortes de frango e de lombo, com versões em diferentes tamanhos para cada necessidade.

O investimento incluiu do desenvolvimento de fornos elétricos em parceria de técnicos da Seara com fabricantes do Rio Grande do Sul, com capacidade para assar até 48 frangos inteiros simultaneamente e que são cedidos em comodato, até treinamentos de três dias com cozinheiros do varejo que recebem os equipamentos ou os frangos da marca – além de embalagens próprias para a venda.

O racional é assegurar a melhor experiência possível, de modo que os clientes que façam a compra tenham o frango assado no ponto certo, evitando, por exemplo, que fiquem secos demais.

Segundo o CEO da Seara, há mais inovações sendo desenvolvidas com o frango, de olho em uma oferta que atenda cada vez mais a necessidades dos clientes e seus novos hábitos. Se depender da marca, o frango como conhecemos terá cada vez mais novas expressões de consumo.