O produtor do filme, Graham King, estava de férias no sul da França quando seu telefone tocou com uma notícia alarmante: grande parte das filmagens do cinebiográfico de Michael Jackson, que ele havia recentemente concluído, teria de ser descartada e regravada.

A terceira parte do filme tratava de um processo de 1993 movido em nome de um garoto de 13 anos que alegava ter sido abusado pelo astro pop — acusação que Jackson negou. No entanto, o espólio de Jackson percebeu tardiamente que um acordo assinado com a família do garoto proibia o uso da história para fins comerciais.

“Foi algo bem insano e surreal”, disse King. “Nunca passei por algo assim, de terminar um filme e depois descobrir que não tinha os direitos legais para contar aquela história.”

Ele e a equipe criativa de “Michael” tiveram de criar um novo final para um filme que já havia sido cuidadosamente estruturado para contar uma história inspiradora sobre um protagonista controverso. O espólio pagou dezenas de milhões de dólares pelas filmagens adicionais, o que atrasou o lançamento em um ano.

O caos caro nos bastidores ilustra os riscos de dramatizar a vida de uma pessoa real e controversa. Mas “Michael”, que agora termina antes de qualquer acusação de abuso ocorrer, também é um exemplo do dinheiro que pode ser gerado ao retratar as lutas e conquistas de um dos artistas mais populares da história moderna nas telonas.

Quanto o filme deve arrecadar

Apesar de críticas iniciais em grande parte negativas, o filme deve estrear neste fim de semana com mais de US$ 60 milhões nos Estados Unidos e no Canadá e arrecadar mais de US$ 500 milhões globalmente, com a maior parte da receita vindo do exterior, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Pesquisas pré-lançamento indicam alto interesse em todos os grupos demográficos, especialmente entre o público negro.

O apelo do filme se baseia em grande parte na recriação de performances icônicas do Jackson 5 e do próprio Michael, incluindo “ABC”, “Thriller” e “Bad”. A Lionsgate Studios e a Universal Pictures, que financiaram “Michael”, apostam que o público está disposto a deixar de lado as acusações de má conduta para aproveitar uma história nostálgica e inspiradora.

Eles citam o sucesso do musical da Broadway “MJ the Musical”, que não aborda as acusações de abuso, e de “Bohemian Rhapsody” (2018), filme sobre a banda Queen que arrecadou mais de US$ 900 milhões.

A música de Jackson “ressoa com pessoas de todas as idades até hoje”, disse Adam Fogelson, presidente do grupo de cinema da Lionsgate. “Não precisamos educar os jovens sobre quem essa pessoa é e por que sua música foi tão profundamente impactante.”

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Se “Michael” for tão bem-sucedido quanto seus financiadores esperam, eles pretendem rapidamente produzir uma continuação cobrindo o restante da vida de Jackson. Cerca de um terço do segundo filme provavelmente usaria cenas já gravadas, incluindo performances das turnês Dangerous (anos 1990) e Invincible (anos 2000), disseram Fogelson e King.

King, após produzir “Bohemian Rhapsody”, recebeu diversas propostas para filmes sobre outros artistas musicais. Ele quis fazer um filme sobre Jackson e descobriu que o espólio estava aberto à ideia. Inicialmente com US$ 500 milhões em dívidas após a morte do cantor em 2009 por overdose de anestesia, o espólio recuperou sua saúde financeira com vendas de direitos, streaming e o musical da Broadway. “Michael” pode aumentar ainda mais seu valor ao impulsionar o interesse pela música do artista.

Por volta da época em que King começou a trabalhar no filme, em 2019, a HBO lançou o documentário “Leaving Neverland”, com homens que alegavam ter sido abusados por Jackson quando crianças. Embora o espólio o tenha chamado de “assassinato de reputação sensacionalista”, o filme prejudicou a imagem do cantor, que foi absolvido em 2005 em um julgamento criminal envolvendo outra acusação de abuso.

King disse que considerou o documentário “muito unilateral” e que seu objetivo era “deixar o público decidir o que sente sobre ele”.

Conseguir financiamento e distribuição para um filme sobre Michael Jackson, porém, foi difícil após “Leaving Neverland”. Vários estúdios recusaram o projeto até que a Lionsgate concordou em distribuí-lo nos EUA em 2022. A Universal financiou a maior parte em troca dos direitos internacionais.

O maior desafio inicial foi encontrar um ator principal que se parecesse, soasse e dançasse como Jackson, sem ser tão conhecido a ponto de ofuscar o papel. King encontrou seu protagonista ao ver vídeos do sobrinho de Michael Jackson, Jaafar Jackson, cantando com o pai, Jermaine.

Após dois anos de treinamento com coaches de atuação e coreógrafos, Jaafar passou três semanas sozinho na casa do tio falecido praticando e depois apresentou a performance de “Billie Jean” para um pequeno grupo.

“Ele tinha se transformado e dominado todos os movimentos”, disse King.

O filme custou cerca de US$ 150 milhões, devido aos direitos musicais caros, filmagens de cenas de shows e efeitos visuais para retratar a passagem do tempo e os animais de estimação de Jackson, como o chimpanzé Bubbles.

O longa estava em pós-produção no fim de 2024 quando o espólio descobriu o erro. Um porta-voz do espólio não comentou o caso.

No ano passado, King, o diretor Antoine Fuqua e o roteirista John Logan criaram um novo terceiro ato sobre Michael Jackson se afastando da influência profissional e psicológica de seu pai.

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As novas filmagens levaram ao adiamento do lançamento em um ano e também permitiram encurtar o filme, que originalmente tinha mais de três horas.

Agora, “Michael” tem cerca de duas horas. Os cineastas já têm um esboço da parte dois, com planos de filmagem ainda este ano, o que poderia levar ao lançamento no fim de 2027 ou 2028. O que falta para avançar é o desempenho do primeiro filme.

“Eu esperaria que tomássemos uma decisão poucas semanas após a estreia”, disse Fogelson.

Escreva para Ben Fritz em ben.fritz@wsj.com

Traduzido do inglês por InvestNews