O início de 2026 tem sido difícil para Philipp Navratil, que assumiu no começo de setembro o comando da Nestlé .

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Poucos meses depois, o novo CEO da multinacional suíça enfrenta uma crise de grandes proporções com a contaminação em fórmulas infantis que, em menos de uma semana, saiu de alguns países da Europa para mais de 50 mercados ao redor do mundo.

Dezenas de produtos de marcas como Nan, Alfamino e Nestogeno estão sendo recolhidos do mercado, e diversas fábricas foram afetadas após a detecção de cereulida — uma toxina que pode causar náuseas e vômitos — em um ingrediente fornecido por um dos produtores de óleo usados nas fórmulas.

A própria Nestlé iniciou o recall, afirmou que nenhum bebê adoeceu e disse que o impacto financeiro deve ser limitado. Ainda assim, o dano reputacional já é visível.

As ações da empresa acumulam queda superior a 4% desde o início do recall. Analistas do Jefferies estimam que a companhia pode sofrer uma perda de vendas de até 1,2 bilhão de francos suíços (US$ 1,5 bilhão).

Além disso, a divulgação gradual de novos mercados afetados ao longo da semana levantou questionamentos sobre a transparência da companhia, que já carrega um histórico sensível quando o tema é comercialização de fórmulas infantis.

Navratil, que assumiu prometendo uma gestão mais aberta após seu antecessor ser afastado em meio a um escândalo envolvendo um relacionamento no escritório, agora enfrenta sua primeira grande crise operacional justamente enquanto tenta cortar milhares de empregos e reverter o desempenho da empresa.

“É essencial que a Nestlé seja proativa e transparente no recall”, disse Christopher Rossbach, diretor de investimentos da J. Stern & Co e acionista da companhia. “Foi um problema com fornecedor — isso pode acontecer. Mas só há um caminho: transparência radical.”

Detecção da toxina

A Nestlé tomou conhecimento do possível problema há mais de um mês, após testes realizados por meio de seus próprios protocolos de segurança. A empresa rastreou a origem da contaminação até um ingrediente chamado óleo de ácido araquidônico.

A partir daí, iniciou-se um processo de identificação de lotes afetados e comunicação às autoridades locais — um esforço dificultado pelo período de festas de fim de ano. O nome do fornecedor não foi divulgado.

Navratil, de 49 anos e veterano da companhia, vem coordenando a resposta a partir da sede da Nestlé, em Vevey, na Suíça, desde o primeiro recall, iniciado em 10 de dezembro. “As orientações estão vindo do mais alto nível da empresa”, afirmou um porta-voz. “Philipp Navratil está profundamente envolvido, sendo informado diariamente e acompanhando cada decisão.”

Um funcionário organiza latas de fórmula infantil Illuma, produzida pela Nestlé, em uma loja em Xangai, na China
Um funcionário organiza latas de fórmula infantil Illuma, produzida pela Nestlé, em uma loja em Xangai, na China (Bloomberg)

Segundo a empresa, foram recebidas milhares de ligações de pais preocupados nesta semana. Cada atendimento durou, em média, de alguns minutos até meia hora. Uma das grandes dificuldades, segundo especialistas, é que a detecção da cereulida é tecnicamente complexa e cara, além de o composto ser extremamente resistente.

“Por ser uma molécula muito pequena, ela não pode ser removida por filtração. E, por sua estrutura, também resiste a temperaturas muito elevadas”, explicou Monika Ehling-Schulz, professora da Universidade de Medicina Veterinária de Viena e coautora de métodos de detecção da toxina. “Em produtos contaminados, é praticamente impossível removê-la. As instalações precisam ser totalmente higienizadas.”

Em muitos países, as normas de segurança alimentar adotam tolerância zero para a presença de cereulida. Na Holanda, há cerca de 15 anos, mais de 100 estudantes passaram mal após consumir arroz contaminado — mesmo em quantidades mínimas.

A Nestlé afirmou, em nota, que “segurança, qualidade e conformidade não são negociáveis” e que todas as fábricas afetadas foram limpas e retomaram a operação sob protocolos reforçados e em conformidade com as autoridades.

Sob pressão

O recall surge em um momento particularmente sensível para Navratil, ex-chefe da Nespresso, que tenta revitalizar o desempenho da Nestlé.

Desde que assumiu, ele anunciou planos para cortar 16 mil empregos, sendo 4 mil na área industrial, além de focar em aumento de volumes vendidos, geração de caixa, redução de dívida e preservação do dividendo. Também pretende elevar os investimentos em publicidade e concentrar o portfólio em menos iniciativas, porém mais relevantes.

Com a crise, a pressão para conter custos em toda a operação tende a se intensificar.

Não é a primeira vez que a Nestlé enfrenta recalls — e alguns foram mais graves. Em 2022, duas crianças morreram na França após consumir pizzas Buitoni contaminadas com E. coli. Ainda assim, autoridades austríacas classificaram o episódio atual como o maior recall da história da companhia, dada sua expansão para seis continentes.

A empresa também enfrenta, há décadas, críticas relacionadas à comercialização de fórmulas infantis, especialmente desde os anos 1970, em países em desenvolvimento, onde o uso do produto em locais com água não tratada gerou graves problemas de saúde pública.

Na China — maior mercado de fórmulas do mundo —, um escândalo envolvendo produtos contaminados de um fabricante local em 2008 aumentou ainda mais a sensibilidade do tema. Até agora, a Nestlé retirou 41 lotes do mercado chinês, e autoridades locais cobraram ação rápida para proteger consumidores.

Um alívio parcial para Navratil é que o mercado dos Estados Unidos não foi afetado pelo recall. Isso é relevante porque o setor lá é altamente concentrado e qualquer interrupção pode gerar desabastecimento — como ocorreu em 2022, após um recall da Abbott.

Ainda assim, segundo analistas, o impacto financeiro pode ser maior do que o inicialmente comunicado pela Nestlé. A empresa disse que o custo representa bem menos que 0,5% das vendas anuais, mas investidores estimam que o prejuízo pode ser até três vezes maior.

“Quando assumiu, Navratil prometeu mais transparência”, disse Kai Lehmann, analista da Flossbach von Storch. “Mesmo entendendo que é preciso tempo para organizar a resposta, eu esperava mais atualizações até agora.”

A Nestlé afirma que está concentrada em administrar o recall e, ao mesmo tempo, garantir o fornecimento contínuo de fórmulas infantis — algo considerado crítico pelas autoridades. Segundo a empresa, um novo fornecedor de óleo já foi contratado e o local de processamento na Suíça opera 24 horas por dia desde segunda-feira.

“Podemos viver sem chocolate nas prateleiras”, disse o porta-voz. “Mas não é esse o caso com fórmula infantil.”