Para quem olha de fora, a percepção é que os estacionamentos são um negócio simples. Bastam um terreno vazio, algumas vagas pintadas no chão – às vezes nem isso -, uma cancela e um ou dois funcionários para cobrar e manobrar os carros.

Só que, cada vez mais e em mais lugares, esse empreendimento se tornou um negócio de gente grande, que envolve bilhões de reais, concessões públicas e investimentos cada vez maiores em tecnologia.

Dois grupos ajudam a ilustrar essa transformação: a Estapar, controlada pelo banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, e a multinacional francesa Indigo, que opera em dez países.

No ano passado, as duas companhias faturaram cerca de R$ 2 bilhões cada. Tanto Estapar quanto Indigo estimam deter cerca de 10% do mercado brasileiro, um sinal de que ainda existe amplo espaço para consolidação.

A Indigo, por exemplo, administra operações em ativos como o Aeroporto de Guarulhos, o Parque do Ibirapuera e a Neo Química Arena, estádio do Corinthians. Já a Estapar opera estacionamentos de locais como o Allianz Parque, do Palmeiras, e os aeroportos de Congonhas e Brasília.

O avanço dessas empresas reflete a transformação de um setor historicamente pulverizado em um negócio cada vez mais profissionalizado e disputado por grandes investidores. Operadoras passaram a disputar concessões públicas – como aeroportos e parques –, além de contratos de longo prazo em grandes empreendimentos com fluxo de pessoas, como shoppings, arenas e hospitais.

Hoje, poucos grupos concentram uma parcela relevante desse mercado. Embora não existam estatísticas oficiais consolidadas, estimativas da própria Estapar, com base em estudos da consultoria McKinsey, apontam que o mercado brasileiro de operações de estacionamento movimenta cerca de R$ 15,7 bilhões por ano.

Nascida no Brasil

Na prática, a lógica das empresas de estacionamentos é semelhante a de outros serviços urbanos que passaram por consolidação ao longo dos últimos anos.

Parte do crescimento vem de concessões públicas – como estacionamentos em aeroportos e parques –, enquanto proprietários de imóveis comerciais, shoppings e hospitais passaram a contratar operadores especializados para administrar suas vagas, em vez de manter a operação internamente.

Essa dinâmica criou uma barreira de entrada crescente para novos concorrentes. “Quem quiser competir com a Estapar vai ter que enfrentar dificuldades que nós já enfrentamos ao longo de 45 anos: tecnologia, marca, relacionamento e operação”, afirma Emílio Sanches, CEO da empresa.

A Estapar foi criada pelos irmãos Helio Cerqueira Júnior e Helio Francisco Cerqueira no início dos anos 1980, em Curitiba, no Paraná, quando começaram a operar seus primeiros estacionamentos na capital paranaense.

A grande transformação ocorreu a partir de 2009, quando fundos do BTG adquiriram 95% da companhia. Sob a gestão do banco, a empresa ganhou escala e intensificou os investimentos em tecnologia.

Emilio Sanches, CEO da Estapar
Emilio Sanches, CEO da Estapar (Divulgação)

Em maio de 2020, em meio à pandemia, a companhia realizou seu IPO (Oferta Pública Inicial de ações) e levantou R$ 345,3 milhões. Parte dos recursos foi destinada a um dos ativos mais relevantes do grupo: a concessão da Zona Azul de São Paulo, sistema de estacionamento rotativo em vias públicas hoje operado digitalmente por meio de aplicativos.

Nos anos seguintes, a partnership do BTG Pactual decidiu reduzir sua exposição no negócio, e o próprio André Esteves acabou comprando as ações da Estapar. Hoje, por meio de seus veículos de investimento pessoais, o banqueiro detém cerca de 80% da empresa.

A gestão da companhia permanece nas mãos de executivos profissionais, mas a família Esteves acompanha o negócio de perto. A esposa do banqueiro, Lilian, integra o conselho de administração. “É uma família muito presente no negócio”, reforça o CEO.

Com mais de 800 estacionamentos e cerca de 520 mil vagas pelo país, a Estapar também aposta na expansão de sua plataforma digital. A empresa desenvolveu o Zul+, aplicativo que reúne serviços como pagamento de Zona Azul, contratação de seguros e compra de tags para pedágios, em uma tentativa de ampliar a receita para além da gestão das vagas.

A plataforma já soma 8,8 milhões de usuários cadastrados, com 2,7 milhões de usuários ativos mensais, segundo o balanço mais recente da companhia. Em 2025, a Estapar registrou R$ 1,87 bilhão em receita líquida, crescimento de 18% em relação a 2024, e lucro de R$ 14 milhões, revertendo o prejuízo registrado um ano antes.

Centro de controle da Estapar monitora todos os estacionamentos da companhia
Centro de controle da Estapar monitora todos os estacionamentos da companhia (Divulgação)

Além da aposta em novos serviços, a empresa afirma não ter preferência por regiões ou pelo tamanho dos estacionamentos que administra. Segundo o executivo, o crescimento também passa por novas geografias. A companhia entrou recentemente em cidades como Cuiabá (em Mato Grosso) e Campo Grande (em Mato Grosso do Sul) e inaugurou sua primeira operação em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

Investimento estrangeiro

Se a Estapar representa um player nacional que construiu seu negócio ao longo de décadas com apoio de investidores do mercado financeiro, a Indigo simboliza a presença do capital estrangeiro na tese dos estacionamentos.

Com sede em Paris, o grupo atua em dez países e administra milhões de vagas ao redor do mundo. No Brasil, a operação já alcançou 350 mil vagas e mais de 5 mil funcionários, segundo a empresa.

A Indigo desembarcou no Brasil em 2015 ao adquirir a Moving, uma operadora de estacionamentos com sede em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Inicialmente regional, a empresa serviu de base para a expansão da multinacional francesa no país.

A operação ganhou escala em 2022, quando a Indigo combinou suas operações com o Grupo PareBem, operador brasileiro controlado pela gestora Patria, que passou a integrar a sociedade da subsidiária local. No fim de 2025, a multinacional recomprou a participação do Patria e voltou a deter 100% da operação brasileira.

A subsidiária brasileira da Indigo faturou cerca de R$ 1,7 bilhão no ano passado, com expectativa de alcançar R$ 2 bilhões em 2026. Para a multinacional francesa, o Brasil representa um mercado com grande potencial diante do interesse da população por carros e da importância que os veículos têm nas maiores cidades. 

No ano passado, a companhia investiu aproximadamente R$ 300 milhões na expansão e modernização de suas operações no país. “É um mercado enorme e ainda muito fragmentado. Isso significa que existe muito espaço para desenvolver o setor”, afirma Thiago Piovesan, CEO da Indigo Brasil.

Segundo o executivo, o país também chama atenção pelo avanço das concessões de infraestrutura e pelo crescimento da frota de veículos.

Thiago Piovesan, CEO da Indigo Brasil
Thiago Piovesan, CEO da Indigo Brasil (Divulgação)

Hoje, a companhia tem priorizado estacionamentos maiores e contratos mais longos. Esse ainda é um desafio no Brasil, onde muitos acordos têm duração média de um a dois anos, enquanto concessões de maior porte podem chegar a prazos bem mais extensos.

Para a Indigo, operações maiores permitem capturar mais valor ao longo do tempo, já que envolvem investimentos mais relevantes em tecnologia, infraestrutura e serviços. Atualmente, o tamanho médio dos estacionamentos administrados pela empresa no país gira em torno de mil vagas.

Em paralelo, a multinacional francesa começou a ampliar sua presença em operações com menos vagas. O modelo, chamado “Indigo Light”, foi desenvolvido para estacionamentos de academias, supermercados e outros empreendimentos de menor porte, com uma estrutura mais enxuta e custos competitivos frente aos estacionamentos de bairro.

Para Piovesan, o setor ainda deve passar por novas transformações nos próximos anos. “O mercado vai mudar muito e a inovação vai ser fundamental. O estacionamento precisa se conectar cada vez mais com a mobilidade e com a experiência do usuário”, afirma.

A tecnologia, segundo o executivo, também permite uma gestão mais eficiente das vagas, com ajustes de preços ao longo do dia conforme o fluxo de veículos. À medida que as cidades se tornam mais congestionadas, a gestão eficiente dos estacionamentos passa a ganhar importância maior. 

No fim das contas, aquela vaga delimitada no chão pode valer muito mais do que parece.