Sempre que conseguia uma comissão de seis dígitos para seu pequeno banco suíço, Paul-Michel von Merey era conhecido por gritar pelo escritório em plano aberto, perto do Lago de Zurique, tocando ruidosamente um sino de vaca em celebração.

O barulho constante refletia uma fonte lucrativa que sua empresa explorava. O MBaer Merchant Bank, cofundado por von Merey em 2018, às vezes cobrava dos clientes até dez vezes a taxa de mercado para processar pagamentos, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, principalmente em transações que outros bancos não aceitavam.

Mas, mesmo após o banco ter sido apontado como um dos “mais prósperos” bancos privados suíços, no ano passado, em um evento local de gestão de fortunas, seu fim estava próximo. A suposta facilitação de lavagem de dinheiro chamou a atenção do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que, às vésperas da guerra contra o Irã no final do mês passado, praticamente o forçou a fechar as portas.

“O MBAer canalizou mais de cem milhões de dólares por meio do sistema financeiro dos EUA em nome de agentes ilícitos ligados ao Irã e à Rússia”, disse Bessent em comunicado. A ameaça de cortar o acesso do banco ao sistema financeiro americano foi suficiente para superar os desafios legais da ordem anterior da autoridade reguladora suíça Finma de liquidar o banco.

A seguir está um relato de como o MBaer conseguiu operar sem ser detectado, enquanto, segundo autoridades dos EUA, em alguns casos, era “provavelmente cúmplice das atividades de lavagem de dinheiro de seus clientes”. Seu fim desonroso compromete os esforços de longa data da Suíça para sanear o sistema financeiro e provar que Zurique e Genebra não oferecem mais um refúgio fácil para dinheiro ligado ao crime.

Um porta-voz do MBaer não quis comentar sobre esta reportagem. A Finma também não se manifestou.

Banco foi fundado por herdeiro do Julius Baer

O MBaer foi fundado como um banco de investimentos concebido para atender tanto aos interesses empresariais dos clientes — como o financiamento do comércio — quanto ao seu patrimônio pessoal. Seu cofundador homônimo e primeiro diretor-executivo do banco, Mike Baer, ​​passou 12 anos no Julius Baer Group, banco fundado por seu bisavô. Durante esse período, ele ocupou diversos cargos sêniores, incluindo a chefia das áreas de banking, trading e TI, de acordo com seu perfil no LinkedIn. No Julius Baer, ​​ele também conheceu muitos clientes em potencial e alguns dos outros sócios do MBaer.

Mike Baer e Paul von Merey não quiseram comentar para esta reportagem.

No início de 2005, Mike Baer deixou o banco da família e, nos anos seguintes, ocupou vários cargos em conselhos de administração, de acordo com seu perfil no LinkedIn, incluindo na Odey Asset Management e no Falcon Private Bank, ambos com problemas regulatórios não relacionados nos últimos anos.

Corredor entusiasta, que completou maratonas nos polos Norte e Sul, Baer utilizou fortemente o nome da família. “A herança do MBaer Merchant Bank remonta a 1890, quando Julius Bär lançou as bases para uma longa tradição bancária em Zurique”, afirmou o banco em seu site.

Expansão acelerada a partir de 2023

Ao longo dos anos, o banco expandiu-se rapidamente, em particular, vivenciando um salto nos ativos em 2023. No final de 2025, detinha ativos de clientes no valor de cerca de 4,9 bilhões de francos suíços (US$ 6,2 bilhões), e contava com cerca de 700 clientes e 60 funcionários. Seu tamanho o enquadrava inicialmente na categoria mais baixa de supervisão da autoridade reguladora suíça Finma — destinada a pequenos participantes no mercado, ou de “baixo risco”.

Fontes internas descreveram a cultura do banco como uma reminiscência dos tempos mais liberais das finanças suíças — antes do confronto com os EUA sobre a evasão fiscal nos anos 2000, que levou a tentativas de “limpeza” e ao fim do sigilo bancário absoluto.

Segundo investigadores da unidade de crimes financeiros do Tesouro dos EUA, a FinCEN, o banco começou a atrair atenção por possíveis atividades de lavagem de dinheiro ligadas à Venezuela por volta de 2020. O banco teria então facilitado o financiamento da máquina de guerra russa e ajudado a canalizar fundos petrolíferos iranianos de volta ao regime — incluindo para o Corpo da Guarda Revolucionária.

Lavagem de dinheiro e apoio ao terrorismo

“O MBaer também proporcionou acesso ao sistema financeiro dos EUA a pessoas que oferecem apoio material a esforços de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo relacionados ao Irã, incluindo apoio a organizações terroristas iranianas”, afirmou a FinCEN em um documento publicado em 2 de março.

As autoridades acusaram o MBaer de facilitar pagamentos em conexão com um esquema internacional de contrabando de petróleo e lavagem de dinheiro conduzido pela Força Quds, da Guarda Revolucionária. Os EUA consideram a Força Quds, que opera fora do país, como uma organização terrorista estrangeira.

Clientes do MBaer transferiram cerca de US$ 37 milhões em conexão com uma empresa sancionada, chamada Turkoca Import Export Transit Co. Ltd., em grandes pagamentos arredondados em dólares, que normalmente levantariam suspeitas de lavagem de dinheiro, declara a FinCEN. A Turkoca era uma “entidade intermediária” usada por afiliados da Força Quds para lavar fundos para o Irã, disse a FinCEN.

Cultura de medo

O MBaer supostamente tinha diversos métodos para conduzir negócios sem chamar atenção. Funcionários permitiam pagamentos em francos suíços ou euros para clientes de alto risco, em uma tentativa de contornar controles mais rigorosos sobre transações em dólares, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

Alguns funcionários de fato geraram alarmes sobre deficiências operacionais. Muitos enfrentaram obstáculos internos significativos após expressarem suas preocupações ou acabaram deixando a empresa. Isso criou uma cultura de medo entre os funcionários e uma relutância em denunciar irregularidades percebidas, afirmaram as fontes.

Em 2023, autoridades dos EUA e a Finma começaram a investigar o banco mais de perto.

Por volta da mesma época, o MBaer rompeu com a empresa que atuava como seu banco correspondente nos EUA — o agora extinto Credit Suisse, de acordo com pessoas familiarizadas com o tema. O JPMorgan passou a prestar esse serviço posteriormente, disseram as pessoas a par do assunto, juntamente com diversas outras instituições financeiras.

O JPMorgan não quis comentar sobre seu relacionamento com o MBAer.

Em 2024, Bignia Vieli, então membro do conselho administrativo, contratou o escritório de advocacia do qual era sócia para realizar uma revisão da infraestrutura operacional do banco, que identificou riscos sistêmicos generalizados. O relatório chegou a sugerir que o banco deveria se autoreportar à Finma.

Fontes de ‘alto risco’

Apesar das preocupações com lavagem de dinheiro, aparentemente nenhuma medida corretiva significativa foi tomada após o relatório, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que afirmaram que a administração continuou recebendo seus bônus integrais. Vieli não respondeu a um pedido de comentário.

A Finma iniciou formalmente procedimentos de execução contra o MBaer em 2024. Posteriormente, informou que 98% dos ativos recentes de clientes do banco vinham de fontes de “alto risco”, segundo um comunicado. O banco havia sistematicamente falhado em investigar o histórico dos relacionamentos de seus clientes e auxiliado ativamente clientes a contornar o congelamento de ativos, afirmou a Finma.

Contudo, no sistema regulatório suíço, um processo sancionador pode se arrastar por anos, e os bancos podem continuar a operar enquanto contestam judicialmente as ordens da Finma. No início de 2026, uma ordem da Finma para fechar o MBaer estava travada nos tribunais — até a intervenção do Tesouro dos EUA.

Liquidação forçada

Na segunda-feira, 9 de fevereiro, Annett Viehweg, CEO do MBaer desde janeiro de 2025, tentou tranquilizar os funcionários do banco, segundo uma pessoa presente na reunião. O MBaer se defenderia na justiça, Viehweg teria afirmado, de acordo com a pessoa.

O banco acabou negociando com a Finma os termos de sua autoliquidação, segundo fontes a par do assunto. As duas partes estavam em desacordo sobre se a lavagem de dinheiro seria mencionada especificamente no comunicado que anunciava o fechamento, até que o Tesouro dos EUA as forçou a agir, disseram as fontes. Posteriormente, o MBaer retirou seu recurso, o que significa que a ordem de liquidação entrou em vigor em 27 de fevereiro.

Von Merey e Mike Baer deixaram o banco, e ambos têm mantido um perfil discreto. O perfil de Von Merey no LinkedIn minimiza sua função no MBaer. No mês passado, a Finma também informou ter aberto processos contra quatro indivíduos não identificados associados ao MBaer. Esses procedimentos se concentram em pessoas que já deixaram o banco, afirmou uma fonte familiarizada com o assunto. Os funcionários foram informados de que até 25 pessoas seriam demitidas em março e abril.

A carteira de clientes de “alto risco” do MBaer agora enfrenta uma espera por uma resolução que pode levar anos, com poucos ou nenhum outro banco na Suíça dispostos a aceitá-los.

Para um banco acusado de lavagem de dinheiro para venezuelanos, russos e iranianos, o fim do MBaer demorou surpreendentemente a chegar. O país está em processo de reformulação da regulamentação financeira, incluindo medidas para ampliar os poderes da agência reguladora Finma. As lições da crise do Credit Suisse, em 2023, estão sendo incorporadas à legislação em tramitação no Parlamento suíço.

Por ora, a aparente incapacidade da Finma de fazer cumprir sua decisão inicial destaca a fragilidade da Suíça no combate eficaz aos crimes do setor financeiro, segundo Mark Pieth, advogado especializado na área e membro fundador do Grupo de Ação Financeira, radicado em Basileia, na Suíça.

“Os americanos tiveram que intervir novamente e apontar uma arma para o peito deles”, disse Pieth. “Em termos de sistema jurídico, a Suíça ainda é um centro offshore, onde os casos se arrastam por anos sob o pretexto do devido processo legal”.