O saneamento talvez seja hoje o ativo de infraestrutura essencial mais atrasado do país, quando comparado à energia elétrica e ao transporte público. Não por acaso, o setor tem sido um dos principais motores de investimento da economia brasileira, exigindo algumas algumas centenas de bilhões de reais para levar água e esgoto encanado para locais onde isso não é realidade.

Com uma necessidade de capital cada vez maior, as maiores operadoras privadas se movimentam. A Aegea, líder do setor, e a BRK Ambiental preparam aberturas de capital que podem movimentar bilhões na B3 depois de quase cinco anos sem IPOs.

O objetivo da dupla é ter fôlego financeiro para encarar uma bateria de leilões nos próximos anos que vão demandar pelo menos R$ 80 bilhões em investimentos. Mesmo assim, a Iguá Saneamento, terceira maior operadora privada do país, observa tudo isso com uma distância deliberadamente calculada.

“A gente não precisa de novos leilões para o crescimento da companhia”, disse o CFO João Luiz Guillaumon Lopes, em conversa com jornalistas nesta quarta-feira (25). “A companhia tem um crescimento orgânico contratado muito grande. Rio é uma operação recente ainda, Sergipe tem tudo para acontecer. São operações onde a gente vê uma criação de valor muito forte.”

O momento da Iguá, prossegue o executivo, é diferente do de suas concorrentes. Tanto que, mesmo com uma chance de reabertura de IPOs, a empresa não está engajada numa tentativa e não vem participando de grandes leilões, como o de Pernambuco, ocorrido em dezembro, que foi um dos principais certames do setor em 2025.

Tampouco demonstra apetite pela privatização da Copasa, tida como o principal leilão de 2026. O CFO explicou que o modelo da estatal mineira não permite integração plena com o portfólio existente e que o serviço de saneamento de Sergipe, incorporado em maio do ano passado após exigir um grande desembolso em 2024, exige toda a atenção da empresa.

O argumento é que, com os ativos atuais, a companhia já projeta crescimento de dois dígitos ao ano, o suficiente para crescer sem conquistar um único contrato novo. “Daqui a três, quatro anos eu dobrei o tamanho da companhia, só com as operações que eu já tenho”, afirmou o CEO René Silva.

Crescimento em 2025

E os números de 2025 sustentam o argumento dos executivos. No ano passado, a Iguá atingiu receita líquida ajustada de R$ 2,7 bilhões, alta de 42,5% em relação ao ano anterior, puxada principalmente pela entrada da operação de Sergipe a partir do segundo trimestre. 

O resultado operacional (Ebitda) ajustado somou R$ 1,16 bilhão, com margem de 42,7%, e os investimentos totais chegaram a R$ 828 milhões, crescimento de 28%. A Iguá encerrou 2025 com 2,38 milhões de economias de água e esgoto, a métrica que o setor usa para contar cada ligação ativa no sistema, alta de 75,4% puxada pela entrada de Sergipe.

René Silva, CEO da Iguá Saneamento
René Silva, CEO da Iguá Saneamento (Divulgação)

Praticamente todo esse avanço veio de dentro de casa. A operação do Rio de Janeiro, que responde por 45% da receita, totalizou R$ 1,4 bilhão no acumulado de 2025, com margem Ebitda de 53,5% no quarto trimestre.

Enquanto isso, Sergipe, que passou a segunda maior operação, já contribuiu com R$ 583 milhões em receita. As duas concessões, somadas a Cuiabá, a mais antiga da Iguá, representam quase 90% do faturamento anual da empresa.

A concentração é reforçada por um processo ativo de venda de ativos que a companhia realizou nos últimos anos. A Iguá vendeu nove operações menores e anunciou a negociação de mais três (Andradina, Castilho e Sanessol, todas em São Paulo) para a Sabesp, outra interessada na Copasa, em processo de fechamento. 

Quando olhar novamente para novas concessões, os critérios serão mais seletivos: municípios com mais de 200 mil habitantes e proximidade geográfica do que já opera. “A gente quer concessões maiores e que tenham sinergia com o que a gente já tem”, diz Silva. Atualmente, a Iguá possui 10 operações em seis estados brasileiros e 121 municípios, com cerca de 6 milhões de pessoas atendidas.

Casa pronta

A Iguá é, tecnicamente, uma empresa listada. Integrava o Bovespa Mais, o antigo segmento de acesso à bolsa, e na semana passada migrou para o segmento principal após a B3 extinguir a categoria. 

Só que 100% das ações pertencem a seus três únicos acionistas: os fundos de pensão canadenses CPP Investments e AIMCo, que são seus controladores, e o BNDESPar. “A Iguá é a plataforma exclusiva dos nossos controladores para investimento no saneamento do Brasil. Eles são muito seletivos”, diz René Silva.

Desde 2018, os três investidores já aportaram mais de R$ 5 bilhões na companhia. O CFO reforça que o trio é composto por investidores institucionais em fase de acumulação, com horizonte de décadas e sem pressão por saída. “Eles têm uma visão de longuíssimo prazo e um bolso fundo”, prossegue Lopes.

A diretoria afirma que, em termos de estrutura de capital, a Iguá não precisa de um IPO para sustentar as operações atuais, mas também não pretende ignorar a conjuntura caso ela se torne favorável para novas listagens, o que não ocorre desde dezembro de 2021. 

“No Brasil, como você tem janelas muito marcadas, não dá para esperar o projeto ideal e depois ir para o mercado. O mais importante seria ter uma janela adequada”, diz o CFO.

João Luiz Guillaumon Lopes, CFO da Iguá Saneamento
João Luiz Guillaumon Lopes, CFO da Iguá Saneamento (Divulgação)

A alavancagem de 10,4 vezes dívida líquida sobre Ebitda ao fim de 2025 pode soar elevada para os padrões de empresas maduras do setor, que costumam operar entre 2 e 3 vezes. Mas a Iguá argumenta que a estrutura é inteiramente composta por financiamentos de projeto com prazo superior a 20 anos, sem necessidade de rolagem. 

O índice de cobertura do serviço da dívida, que mede se o caixa gerado é suficiente para honrar os pagamentos, se mantém acima de 1,2 vez, o que significa que a empresa gera 20% mais de caixa do que precisa para cobrir suas obrigações. 

A Iguá prevê refinanciar as captações restantes até 2029 em condições compatíveis com o prazo das concessões. “Para o Rio de Janeiro, eu não vou mais ao mercado. Vou só operar bem, gerar caixa e ir pagando”, resume Lopes.