Segundo a Bloomberg, Trump deve assinar nesta segunda-feira (11) duas ordens executivas com foco em ampliar a oferta de carne no mercado americano e aliviar a pressão sobre os preços ao consumidor. As ações fazem parte de uma estratégia mais ampla do governo para conter a alta do custo de vida, especialmente no setor de alimentos.
Em paralelo, o jornal americano The Wall Street Journal informou que o governo está preparando uma redução temporária das tarifas sobre importações de carne bovina. A proposta prevê a suspensão do sistema de cota tarifária anual, que eleva as tarifas após determinado volume importado, permitindo a entrada de maiores quantidades de carne com alíquotas mais baixas.
Exportadores
A medida deve beneficiar diretamente grandes exportadores globais, com destaque para o Brasil, além de países como Austrália e Canadá.
O WSJ também revelou que a administração americana pretende adotar um pacote adicional de medidas estruturais. Entre elas estão a ampliação de linhas de crédito para pecuaristas por meio da Small Business Administration, a flexibilização de regras ambientais ligadas à proteção de lobos cinzentos e mexicanos — tema de reclamação recorrente do setor rural — e a revisão de exigências regulatórias, como o uso obrigatório de etiquetas eletrônicas de identificação do gado pelo Departamento de Agricultura dos EUA.
Segundo um funcionário da Casa Branca citado pelo jornal, a redução de tarifas tem como objetivo resolver problemas de oferta no curto prazo, enquanto as medidas de desregulamentação buscam reduzir custos estruturais da produção no longo prazo.
Menor rebanho em 75 anos
O pano de fundo é um mercado pressionado. O rebanho bovino dos Estados Unidos caiu ao menor nível em 75 anos, após anos de seca, aumento de custos e redução de incentivos para expansão. Ao mesmo tempo, a demanda por carne permaneceu forte, o que ajudou a impulsionar os preços a níveis recordes.
A carne moída, por exemplo, acumula alta de cerca de 40% em cinco anos, segundo o WSJ, tornando-se um dos principais componentes da inflação de alimentos no país — um tema politicamente sensível para o governo Trump.
Nesse contexto, o comércio internacional ganhou papel central. Os Estados Unidos já importam cerca de 20% de toda a carne consumida internamente, e o volume vem crescendo. Para 2026, o país deve registrar importações recordes de aproximadamente 6 bilhões de libras de carne bovina, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.
Importância do Brasil
O Brasil tem papel relevante nesse fluxo. Maior produtor mundial de carne bovina, o país responde por cerca de 20% da oferta global e tem ampliado sua participação no mercado americano. O WSJ destaca que o Brasil ultrapassou os EUA como principal produtor global, impulsionado por escala e competitividade.
As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram de forma significativa. Apenas no primeiro trimestre, o país embarcou US$ 795 milhões em carne bovina para o mercado americano, alta de 21% na comparação anual. Em 2025, o total exportado aos EUA atingiu US$ 1,75 bilhão, um recorde histórico.
Hoje, essas vendas são limitadas por um sistema de cotas: até 65 mil toneladas podem entrar nos EUA com tarifa reduzida; acima disso, incide uma tarifa de 26%. Segundo o WSJ, essa cota foi atingida já em janeiro, o que intensificou pressões de exportadores brasileiros por mudanças no sistema.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) chegou a solicitar a intervenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar negociar com Washington uma revisão das regras de importação.
Trump e Lula se reuniram na Casa Branca na semana passada, em um encontro que abordou comércio, tarifas, segurança e investimentos, incluindo possíveis projetos ligados a minerais críticos no Brasil. Segundo o WSJ, o tema das exportações agrícolas também esteve na agenda.
A possível flexibilização tarifária provocou reação imediata no mercado financeiro. As ações da Minerva Foods chegaram a subir com a perspectiva de maior acesso ao mercado americano, enquanto papéis da JBS também oscilaram ao longo do pregão.
Do lado americano, o movimento pode gerar resistência política. O WSJ destaca que associações de pecuaristas dos EUA já criticaram a abertura para mais importações, argumentando que o aumento da entrada de carne estrangeira poderia pressionar os preços pagos ao produtor doméstico — um grupo historicamente influente na base política de Trump.
O resultado final da estratégia deve depender do equilíbrio entre o objetivo de curto prazo de reduzir a inflação ao consumidor e o impacto sobre produtores rurais americanos, em um setor que já enfrenta margens apertadas e um processo lento de recomposição do rebanho, que especialistas estimam levar até 2028 para mostrar recuperação significativa.