A inflação voltou a ser uma ameaça e tudo aquilo que protege o investidor da alta de preços ganhou mais apelo. A incerteza sobre o cenário externo, somada ao repique nos preços, recoloca na mesa a necessidade de buscar alternativas — e os ETFs de inflação aparecem como uma das alternativas.

Por serem negociados em bolsa, esses fundos têm suas cotas variando ao longo do dia. Esse movimento reflete tanto a atualização do valor dos títulos da carteira diariamente – a chamada marcação a mercado – quanto a dinâmica de compra e venda entre investidores.

Na prática, isso faz com que os ETFs apresentem mais oscilação no curto prazo do que o investimento direto em títulos públicos. Por essa razão, costumam ser mais adequados a perfis que toleram alguma volatilidade, ainda que possam ser usados de forma complementar por investidores mais conservadores.

Os ETFs de inflação replicam o desempenho do Tesouro IPCA+, o nome popular das NTN-Bs. Uma das vantagens é a praticidade: o próprio fundo faz a gestão da carteira e reinveste automaticamente os recursos em títulos semelhantes à medida que eles vencem, mantendo a exposição ao prazo escolhido sem necessidade de ajustes por parte do investidor.

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“Inflação curta”: a opção de menor risco

Código na B3 Nome Gestora Retorno em 1 ano
PACC11 BTG Pactual IMA-B P2 BTG Asset 11,98%
B5P211 It Now IMA-B5 P2 Fundo de Índice Itaú Asset 12,09%
BOL511 B-Index IMA-B P2 Fundo de Índice Bradesco Asset
Fonte: B3. Campo vazio = o fundo existe há menos de um ano. P2 = Prazo médio de dois anos

Nos ETFs atrelados a títulos mais curtos, com vencimento médio de dois anos, o retorno vem principalmente do “carregamento” dos juros ao longo do tempo. Como esses papéis vencem mais rapidamente, o dinheiro é reaplicado com frequência – e, em um ambiente de juros altos, isso permite incorporar taxas mais elevadas à carteira.

Foi esse mecanismo que fez com que os ETFs de títulos curtos entregassem mais resultado nos últimos anos. Com a alta dos juros – saímos de 2% para 15% ao ano, vale lembrar –, os papéis mais longos perderam valor no meio do caminho, prejudicando os ETFs que os compravam.

É a dinâmica da renda fixa: os preços caem quando os juros sobem. E os ETFs de títulos curtos, além de sofrerem menos com esse efeito, passaram a reinvestir em títulos com taxas cada vez maiores.

Esse processo não depende apenas do momento atual. Em um ambiente como o brasileiro, em que as taxas mais longas costumam ser mais altas, os títulos curtos tendem a incorporar esses níveis ao longo do tempo por meio do reinvestimento.

É justamente por isso que esses papéis funcionam como uma proteção mais direta contra a inflação. Com vencimentos mais próximos, eles incorporam mais rapidamente tanto o IPCA quanto o nível atual dos juros, sem depender de mudanças mais amplas no cenário.

O ponto agora é que, para repetir um cenário tão favorável quanto o dos últimos cinco anos, seria necessário um novo aumento expressivo das taxas de longo prazo a partir de níveis já elevados. Como essas taxas hoje já estão altas, fica mais difícil sustentar uma nova abertura na mesma magnitude.

Ou seja, quem entra no jogo agora deve fazê-lo muito mais pensando em baixo risco do que necessariamente em um ganho tão robusto como se viu nos últimos anos.

“Inflação longa”: maior potencial de retorno – e maior volatilidade

Código na B3 Nome Gestora Retorno em 1 ano
PACL11 BTG Pactual IMA-B 5+ Fundo de Índice BTG Asset
B5MB11 ETF Bradesco IMA-B5 Bradesco Asset 12,04%
IB5M11 It Now IMA B5+ Itaú Asset 12,13%
Fonte: B3. Campo em vazio: o fundo existe há menos de 1 ano.

Os ETFs de inflação longa (papéis com prazo acima de cinco anos) cumprem um papel um pouco diferente. Mais do que uma proteção direta, eles funcionam como uma aposta no cenário econômico.

Os papéis com vencimento mais distante são mais sensíveis às mudanças nos juros e, por isso, respondem com mais força quando as taxas caem ou sobem. Afinal, como são títulos que refletem um horizonte mais distante, o investidor exige um “prêmio” bem maior para investir neles.

Quer dizer: o ganho nos ETFs nesse caso depende menos do carregamento ao longo do tempo e mais de movimentos de mercado (a marcação a mercado). E, em um ambiente com incertezas, são produtos que reagem com muita intensidade a cada mudança de cenário.

Depois de um período em que foram pressionados, esses títulos passaram a carregar taxas mais altas. Isso aumenta o potencial de valorização caso haja uma queda mais consistente dos juros. É o cenário com que se trabalhava antes do começo da guerra no Oriente Médio e é por isso que eles continuam sendo uma valiosa alternativa de investimento.

E por quê? Porque, com a guerra, a inflação passou a ser uma grande preocupação com a alta do petróleo do petróleo para acima de US$ 100 e de outros insumos, mas não tirou da frente o ciclo de cortes da Selic.

Para se ter uma ideia, no último boletim Focus, que reúne projeções de economistas do mercado, a estimativa para a inflação em 2026 subiu pela terceira semana seguida, para 4,31%, aproximando-se do teto da meta já levando em conta a margem de tolerência. Mas a expectativa de Selic ao fim do ano passou de 12,00% há quatro semanas para 12,50% no mais recente – versus 14,75% atualmente.

A pressão inflacionária é um ponto de atenção, mas não frustra a expectativa de redução dos juros na economia, pois apenas faz com o que o mercado recalibre o tamanho esperado dos cortes. Em termos simples, novamente: taxa de juros em queda significa preço dos títulos em alta.