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Economia

‘Auxílio temporário não vai jogar o Brasil na crise fiscal’, diz ex-FMI

Ex-vice presidente do Banco Mundial e ex-diretor-executivo do FMI, Otaviano Canuto afirma que o Brasil tem capacidade fiscal para enfrentar a crise provocada pelo Covid-19.

Publicado

em

por

Katherine Rivas

Há seis meses, o economista Otaviano Canuto defendia que o Brasil era um país de renda média, cuja evolução era impedida pela falta de produtividade e pela “obesidade” do gasto público. O ex-vice-presidente do Banco Mundial e ex-diretor executivo do FMI, hoje no comando do Center for Macroeconomist and Development, enxergava a saída na infraestrutura. Com a pandemia, ele reviu seus conceitos.

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Hoje, Canuto defende que não é hora de misturar as agendas, apesar de considerar aquele o pilar do crescimento econômico brasileiro. “A prioridade são as medidas emergenciais. Não vamos pegar carona em debates que contrariem o ajuste fiscal“. Investir em infraestrutura, segundo Otaviano, ficou para o futuro, quando a crise passar – o que, segundo o ex-FMI, não deve ocorrer este ano, nem em 2021, porque não existem bases sólidas para uma recuperação eficaz.

O ex-diretor do Banco Mundial diz que cada nação terá o desafio de minimizar os efeitos da recessão, dos impactos globais, os choques de oferta e demanda. Os mercados emergentes devem ser os que carreguem mais peso nas costas.

Como o “velho normal” ainda está longe, Otaviano conversou com o InvestNews sobre as medidas de auxílio emergencial que o governo brasileiro está utilizando para sobreviver a este período.

Investnews – O auxílio emergencial do governo demorou para vir?

Otaviano Canuto – Estamos na direção correta, mas acredito que o trabalho poderia ter uma magnitude maior. O grande desafio do Brasil é descobrir como alcançar aquela parcela da população na base da pirâmide, que não está incorporada no Cadastro Único ou está fora da cobertura do coronavoucher.

O governo poderia ter sido mais rápido como outros foram, mas temos um problema de coordenação interna que não ajudou. O presidente Jair Bolsonaro está resistente, nega a existência do problema. Já a proatividade do Banco Central pode ser considerada digna, apesar de que a provisão de liquidez pode não ser suficiente para o crédito às empresas. As estratégias do governo para auxiliar os trabalhadores não implicam mudanças permanentes no gasto público. Contudo, a frouxidão da gestão de liquidez é irreversível.

InvestNews – O valor pago no coronavoucher é baixo se comparado a outros países?

Otaviano Canuto: Acho que a avaliação muda muito para cada economia. No Brasil, temos uma vantagem que é o sistema de cadastramento único, herança dos tempos de Bolsa Família, que é um dos mais desenvolvidos e nem todos os países têm.

Eu acredito que o governo poderia ter sido mais generoso, oferecendo um auxílio próximo aos R$ 1 mil por pessoa, por se tratar de um gasto único e não permanente. Isso teria um impacto positivo bem maior e sem impactos fiscais desproporcionais.

Outro fator é a rapidez deste auxílio. Infelizmente se a mecânica de distribuição fosse mais objetiva, o auxílio chegaria às pessoas mais cedo. O sistema é lento e qualquer atraso vai ter um impacto negativo nos brasileiros que não têm poupança e que perderam receita ou emprego. Eles vão ficando mais vulneráveis a cada dia.

InvestNews – Como você avalia o programa que prevê cortes de salários e suspensão de contratos para manter os empregos?

Otaviano Canuto: A alternativa é a mais adequada para o momento, mas a implementação ainda é demorada. Muitas empresas demitiram antes do programa. Mas ainda assim, é muito melhor ter o salário reduzido ou os bônus cortados do que perder o emprego.

Não faria sentido proibir as empresas de demitirem ou negociaram corte de salário com os trabalhadores. O Brasil não teria como forçar estas empresas que perderam receita a continuarem pagando. Embora o auxílio do governo possa ser utilizado para compensar estes pagamentos, é melhor fazer transferências de renda e seguro desemprego do que uma transferência direita do tesouro nacional para evitar cortes nas folhas de pagamento das empresas.

InvestNews- O senhor afirmou que países emergentes com restrições fiscais podem ser muito afetados na pandemia. O Brasil é um deles?

Otaviano Canuto: O Brasil tem capacidade fiscal para enfrentar a crise. Os pacotes emergenciais são prova disso e o Banco Central ainda tem espaço para provisão de liquidez. A saída de capital estrangeiro do país já tinha ocorrido antes, mas a situação de reservas é ótima para cessar-fogo. O Brasil não é o caso mais grave de choque fiscal e financeiro, todas as economias emergentes precisaram recorrer ao financiamento privado. Desde o começo da pandemia foram 100 bilhões de dólares que os países emergentes perderam.

Alguns países pobres com dívidas externas altas sentiram o baque. Mas, em todas as nações o setor público foi considerado o segurador da catástrofe, só que em diferentes graus. Todos foram obrigados a aumentar sua dívida pública, é um desastre social. É claro que aqueles países com margem fiscal devem se recompor sem uma trajetória futura de dívida.

O Brasil tem um meio de ajuste fiscal, é evidente que deve sofrer os ônus destas medidas, mas é algo reversível no futuro. Falamos de medidas emergenciais temporárias que não vão jogar o Brasil na crise fiscal. São ônus, mas não de destruição.

Não é o caso do Equador, por exemplo, que tem o infortúnio de depender do petróleo, coincidindo uma guerra de preços junto ao Covid-19.

InvestNews- Qual é a situação dos desbancarizados nesta crise?

Otaviano Canuto: Para eles, não vejo outra saída a não ser simplificar a inclusão destas pessoas no regime formal e pagar por meio de agências ou correio. Não há outro jeito. Vão sair distribuindo dinheiro na rua?

É preciso criar estratégias para este grupo. Agora, quem realmente se torna invisível são as pessoas que não têm conta bancária e celular. No Quênia, por exemplo, que tem mais de 30 milhões de pessoas desbancarizadas, o governo conseguiu transferir dinheiro para pessoas sem conta, por meio de celulares. Eles recebiam códigos e retiravam em agências credenciadas ou correios. Se foi possível lá, por que não seria possível no Brasil? Claro que o uso do celular se torna indispensável.

InvestNews – O que seriam os 4 canais de impacto do coronavírus na América Latina?

Otaviano Canuto: O primeiro canal seria o impacto da China sobre as exportações, que é um grande player para as economias latino-americanas e principal parceiro comercial do Brasil. O segundo são os choques de oferta que afetam o Brasil e México, países manufatureiros que importam peças e bens da China. As cadeias de suprimentos foram interrompidas.

O terceiro canal é o choque nos preços das commodities, com efeitos negativos nas rendas latino-americanas. E, por último, o quarto canal é a aversão ao risco financeiro e forte depreciação cambial.

No Brasil somos carentes de bases informacionais. Não temos ideia de quando a crise vai acabar. Tudo isso é fruto da falta de testes do coronavírus. Países como Alemanha ampliaram a cobertura de testes dos infetados e tiveram um panorama mais claro. No Brasil, nem as autoridades sabem quando será o pico da pandemia.

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