O brasileiro já percebeu: a conta do supermercado que não para de subir. A fatura do cartão de crédito que só cresce. A passagem aérea que custa o dobro do que era no ano passado. E tantos outros exemplos, que refletem o mesmo fenômeno: a inflação voltou a ser tema de preocupação.

São sensações difusas expressadas também nas projeções do mercado financeiro. A expectativa do mercado para o IPCA, a medida oficial de inflação ao consumidor no Brasil, sobe sem parar já há seis semanas, segundo o boletim Focus do Banco Central. Passou dos 3,9% no meio de março para 4,8% na edição divulgada nesta segunda-feira (20).

O gatilho foi a guerra. O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã desorganizou o mercado global de petróleo e disparou uma reação em cadeia no Brasil — do barril aos derivados da matéria-prima, dos derivados ao custo do frete, do frete ao preço de quase tudo.

E o que transforma essa conjuntura em algo mais duradouro é uma característica antiga da economia brasileira.

“Preço no Brasil sobe de elevador e desce de escada”, diz Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia e especialista no tema. Mesmo que o conflito se resolva e o preço do petróleo caia com mais força, boa parte dos aumentos que já se espalharam pela economioa não será revertida na mesma proporção.

A guerra disparou os reajustes; e a estrutura doméstica impede uma ampla reversão.

O formador de preço — o dono do restaurante, o transportador, o supermercadista — muitas vezes já estava absorvendo custos mais altos, esperando um gatilho para repassá-los. Quando o gatilho vem, ele incorpora não só o aumento recente mas a compensação dos meses anteriores.

E quando a pressão se alivia, o caminho de volta é lento, parcial ou simplesmente não acontece. Romão atribui parte disso à memória inflacionária de um país que conviveu com hiperinflação até 1994.

É com essa lente que se deve olhar para três cadeias que estão empurrando a inflação para cima. Cada uma opera em um tempo diferente. E nenhuma se desfaz com facilidade.

O diesel que está em tudo

A alta do petróleo se traduziu em reajustes relevantes na gasolina e no diesel — este último com aumento de dois dígitos no IPCA de março. A gasolina pesa mais no índice, mas é o diesel que tem o efeito mais capilar.

“É como a energia elétrica, está em tudo, na formação de muitos preços — nesse caso, por causa do frete”, explica Romão. Quase tudo o que se transporta por caminhão fica mais caro quando o diesel sobe. Em alguns casos, houve desabastecimento localizado de derivados, agravando o problema logístico. A Logos projeta que o grupo Transportes feche 2026 com alta de 5,4%.

A passagem aérea que desafia a sazonalidade

A segunda cadeia opera com atraso.

O querosene de aviação acumulou alta de 55% no início de abril, mas esse aumento ainda não apareceu integralmente no IPCA. O IBGE simula a compra da passagem com dois meses de antecedência — o dado de maio reflete o que foi “comprado” em março, antes do pior momento do choque. A pressão do querosene vai começar a aparecer no índice a partir de junho e julho.

A passagem aérea já acumulava alta de 46% no primeiro trimestre, contrariando a sazonalidade. A mediana de 2016 a 2025 para o mesmo período é de queda de 22,8%. A Logos projeta que o item terminará o ano com alta de 45%, um dos maiores aumentos da série histórica.

Do barril ao prato

A terceira cadeia é a mais longa e a mais preocupante.

A alimentação no domicílio — o que o brasileiro compra no supermercado — acelerou de 0,26% em fevereiro para 1,94% em março. Parte da pressão vem do frete. Mas há um segundo efeito, mais demorado. O preço dos fertilizantes tende a subir na esteira do petróleo e da instabilidade nas cadeias de insumos — e esse custo aparece na lavoura com defasagem de meses.

“O fertilizante pode acabar fazendo preço no segundo semestre e em 2027”, alerta Romão. “Não faz impacto agora porque muita coisa já foi colhida, mas, pensando lá para frente, é preocupante.”

A projeção da Logos para a alimentação no domicílio em 2026 saiu de 3% para 5,4%: está ainda abaixo da mediana dos últimos 15 anos (7,8%), mas é uma alta brusca em relação ao 1,4% de 2025.

No topo da montanha

Para o brasileiro, o problema não está só na variação de um ano para o outro. Está no patamar acumulado. Romão usa uma imagem. “É como um sujeito que subiu uma montanha. Ele parou de subir, mas já está no topo.” A inflação pode desacelerar, mas o nível de preços não recua.

A série histórica recente (desde 2020) da alimentação no domicílio ilustra o ponto: os reajustes acumulados nesta década podem chegar a 67% ao fim deste ano.

Ano Variação de preços de alimentos
2020 +18,2%
2021 +8,2%
2022 +13,2%
2023 -0,5%
2024 +8,2%
2025 +1,4%
2026* +5,4%

Fonte: IBGE. Projeção 2026: Logos Economia.

Os raros momentos de alívio não devolvem o que se acumulou nos anteriores. O preço absoluto da comida já está em outro patamar, e a percepção acompanha o dado. Segundo pesquisa Genial/Quaest de abril, 72% dos brasileiros perceberam alta nos alimentos no último mês.

Isso pesa mais porque o orçamento já está comprometido. Oito em cada dez famílias estão endividadas, segundo a CNC — 80,4% em março de 2026, contra 77,1% um ano antes.

Quase 30% têm contas em atraso. O comprometimento da renda com dívidas chegou a 49,7% em janeiro, segundo disse à imprensa o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan.

De um lado, despesas fixas que não encolhem, como energia elétrica, plano de saúde, aluguel. De outro, comida e transporte ficando mais caros. O cartão de crédito vira válvula de escape, e o ciclo se retroalimenta.

O que esperar

Na avaliação de Romão, a volta ao cenário pré-guerra não deve se materializar. “Com tudo o que aconteceu, é bem difícil voltar a ver projeção de inflação em 4% para este ano. É mais fácil as expectativas pararem de subir do que recuarem.”

A inércia já contaminou as expectativas para 2027. No boletim Focus do Banco Central, a mediana subiu de 3,8% para 3,99% nas últimas quatro semanas.

A inflação de 2026 ainda serve de referência para reajustes de contratos, aluguéis e salários no próximo ano. Do lado da política monetária, a Logos projeta corte de 0,25 ponto percentual na Selic no fim de abril, em ritmo cauteloso. Os juros altos, combinados com o endividamento, devem tirar força dos preços de serviços aos poucos — mas é um alívio lento, não uma virada.

O governo se moveu para amortecer o impacto. Durigan coordenou cortes de tributos e subsídios para combustíveis que somam mais de R$ 30 bilhões, parte deles fora das regras fiscais. O ministro disse que, se a guerra se prolongar, bancos centrais ao redor do mundo serão forçados a reagir.

Há sinais de alívio no horizonte. A breve reabertura do Estreito de Hormuz pelo Irã chegou a derrubar o preço do Brent para menos de US$ 90 na última sexta-feira (17), o menor nível em mais de um mês. Mas a queda do petróleo internacional não reverte automaticamente os preços que ele já puxou para cima.

O Brasil de 2026 convive com uma inflação que não é dramática nos termos da história do país, mas que corrói renda, se acumula no nível de preços e tem efeito em cadeia — do barril ao frete, do frete ao supermercado, do fertilizante à safra do ano que vem. Sobe de elevador. E, se a história serve de guia, vai descer de escada.