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Economia

Para entender a crise do petróleo: a guerra de preços tem futuro?

A pandemia do novo coronavírus chegou como uma avalanche em meio a uma disputa entre países que derrubou as cotações. O que está em jogo nesta crise e quem vai se salvar?

Publicado

em

por

Breno Queiroz
petróleo

Se seu estado está aplicando as medidas sugeridas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de isolamento social e fechamento de negócios não essenciais, as chances de você ter enchido o tanque do carro da família este mês são muito baixas. Mal ou bem, os produtores mundiais de petróleo sabiam que a demanda pela commodity ia cair — e a pandemia intensificou essa queda. 

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Por isso, os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+), que inclui a Rússia, discutiram um acordo de cortes na produção, que só ficou pronto no início de abril. A decisão final foi por reduzir a atividade em 10 milhões de barris por dia. Para se ter uma ideia, sem efeito qualquer do coronavírus, o volume de produção mundial de petróleo era de 94,7 milhões de barris por dia, segundo o último anuário estatístico publicado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em 2018.

Como exposto por diversos analistas, a redução demorou para chegar e, com a pandemia, já não faz tanto sentido, dada a dimensão da queda na demanda com a retração da economia global. O banco de investimentos Goldman Sachs se posicionou afirmando que “a produção logo vai precisar de uma queda considerável para trazer estabilidade para o mercado”.

O problema é que, antes mesmo de os agentes descobrirem o tamanho do buraco, alguns entenderam o momento como uma oportunidade para ganhar consumidores — market share. Esse foi o motivo da guerra de preços protagonizada entre Rússia e Arábia Saudita, dois dos maiores exportadores do mundo. 

WTI x Brent: qual a diferença?

Antes de explicar a “guerra do petróleo” em si, é preciso voltar atrás para entender o motivo de alguns produtores serem mais afetados pela queda de preços do que outros. O técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Cloviomar Cararine, afirma que a disputa de preços vai interferir, principalmente, em campos de exploração de países com custo de produção maior.

“Os Estados Unidos, por exemplo, que têm o gás e o óleo de xisto, que possuem custo de produção alto, sofrem mais o impacto da queda no preço do que o Brasil com o pré-sal, que tem o preço de produção em torno de 21 dólares o barril”, completa Cararine.

Petróleo significa literalmente óleo de pedra, de modo que pedras diferentes resultam em óleos diferentes e requerem meios de extração próprios. No caso do pré-sal, o óleo se encontra incrustado em uma pedra porosa no fundo o oceano, permitindo a extração por pressão. Já o xisto é uma rocha sedimentar, mais próxima da superfície, mas que exige outros processos químicos, além de muito mais pressão para ser extraída. O efeitos para o meio ambiente deste tipo de petróleo também são mais questionáveis, já que a extração requer água e aditivos poluentes.

O custo de extração, além da capacidade de armazenamento, é um dos fatores que explicam a discrepância do impacto sentido na cotação dos dois tipos de petróleo referências para o mercado: West Texas Intermediate (WTI), negociado na Bolsa de Nova York, e que representa o produto americano, e o Brent, comercializado na Bolsa de Londres. Este representando principalmente o petróleo extraído no Mar do Norte pela Inglaterra, e é usado como referência para os preços praticados pela Petrobras no mercado interno.

No dia 20 de abril, quando os estoques nos EUA atingiram o limite pela falta de demanda, o contrato futuro do barril de petróleo tipo WTI para maio na New York Mercantile Exchange (Nymex) fechou abaixo de zero pela primeira vez na história, em queda de 305,97%, negociado a US$ -37,63 o barril. Já o Brent sofreu bem menos no mesmo dia, em queda 9%, valendo US$ 25,57. Em suma, o preço negativo significa que os negociadores estão pagando para que os fornecedores armazenem sua produção.

Guerra de preços

Agora imagine que em uma crise como a que vemos você tenha o menor custo de extração possível. É a situação de países do Oriente Médio como Irã e Iraque, mas em especial, a Arábia Saudita, que tem a particularidade de ser uma economia pequena, com taxação favorecida, focada na exportação de quase 90% da sua extração. Lá, com os campos abundantes próximos da superfície, o lifting cost (termo usado no mercado para denominar o custo de extração) é próximo de US$ 3.

Em março, a petroleira estatal saudita Aramco ameaçou fornecer um recorde de 12,3 milhões de barris por dia no próximo mês, um aumento de quase 25% da produção, para inundar o mercado com oferta. A Rússia comprou a briga. O ministro da Energia do país, Alexander Novak, na época declarou que “no curto prazo o país pode aumentar [a produção] para 200 mil a 300 mil barris por dia e 500 mil barris por dia no futuro próximo”.

A corrida por espaço no mercado terminou em um acordo tardio de redução de 10% na produção dos países da Opep+. Mas quem ficou ferido mesmo foi o mercado americano, com estoques cheios e sem capacidade para entrar na disputa de preços. O presidente Donald Trump anunciou, inclusive, um plano de ajuda financeira para a petroleiras, e a compra de 75 milhões de barris para a reserva nacional.

Passada a euforia, os produtores agora temem que o mercado jamais seja como antes. Alguns críticos como Chris Saltmarsh, elaborador do Green New Deal para o partido trabalhista inglês, aposta que “essa queda dramática no preço do petróleo aconteceu porque os negociadores perceberam que o colapso na demanda significaria que eles poderiam realmente ter que receber e armazenar o ativo”.

Mercado futuro

Quando falamos da cotação do petróleo, quase nunca nos referimos ao preço à vista. A doutoranda em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Marcela Schiavi, lembra que “a indústria petrolífera é a mais valiosa fonte de insumos que o mundo tem”. Logo, a cadeia produtiva não pode lidar com grandes oscilações de valor e, por isso, os preços costumam ser acertados com antecedência, a partir de contratos. 

Mencionado por Marcela como um pré-crise, o ataque a duas fábricas da poderosa Aramco por drones de radicais yemenitas, em setembro de 2019, é um exemplo da instabilidade a que esse mercado está sujeito. O episódio fez com que os contratos futuros do petróleo subissem 20%, uma das maiores altas da história em um único dia de negociação.   

Citando a crise de 2008, Cloviomar, do Dieese, chama atenção para esse distanciamento entre a esfera financeira e a realidade da produção. “É uma aposta de compra de uma série de produtos que têm mercado futuro, como a maioria das commodities, mas que no mundo real ainda precisam acontecer”, explica.

A queda de preço que vimos nas últimas semanas, por exemplo, aconteceu com os contratos liquidados em maio (que venceram no dia 21 de abril) ou em junho (depois do dia 21) nos Estados Unidos. Ou seja, dizem respeito ao valor a ser pago pelo barril de petróleo no futuro, refletindo a expectativa do mercado quanto ao valor da commodity. É como se ele antecipasse o equilíbrio entre a oferta e a demanda pelo produto.

O futuro do petróleo

Na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, um estudo assinado por pesquisadores previu que as estratégias intermitentes de distanciamento social talvez precisem ser empregadas até 2022. Comparando com a gripe espanhola, que teve três diferentes ondas de contaminação, a estimativa não é absurda e talvez o mercado de petróleo tenha que se acostumar com diferentes ciclos de ajustes na demanda. 

Perguntada se essa não seria a chance para o mundo adotar uma transição para outras fontes de energia, Marcela ponderou bem o peso da indústria petrolífera na economia mundial. Segundo ela, “é uma área cujo processo produtivo abrange diversas atividades e etapas, dando oportunidade a diferentes tipos de estudo, pesquisas e mercado de trabalho”.

“No entanto”, emenda, “uma nova realidade vem transformando uma das principais e mais cobiçadas indústrias”. Para ela, a indústria automobilística, uma peça importante do setor de petróleo, é um exemplo das que abandonaram a dependência total do petróleo ao aderir ao carro elétrico. A inovação garante redução do impacto ambiental, quando os motores a gasolina são responsáveis por pouco mais de 20% das emissões de CO2, e diversas outras vantagens tecnológicas de espaço e conforto. 

Assessorando a Federação Única dos Petroleiros (FUP) pelo Dieese, Cloviomar demonstra preocupação com os efeitos da crise do petróleo no mercado de trabalho brasileiro. Ele alerta que a política de desinvestimentos e a paralisação na produção da Petrobras durante a pandemia pode levar a mais demissões no setor. Apesar disso, ele considera que as empresas estatais de petróleo possam sair mais fortalecidas da crise em comparação com as privadas. A observação leva em conta a política de proteção dessas empresas, que em países de modelo privado, como os Estados Unidos, viram planos de ajuda financeira ou compras para reserva nacional.     

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