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Finanças

Exagero ou realidade: o que esperar de Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil?

Após semana cheia de acontecimentos, analistas estão divididos entre o risco político e oportunidade em ativos descontados

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em

por

Katherine Rivas

A julgar pelo movimento do mercado financeiro nos últimos dias, uma crise chegou às estatais. O mercado não reagiu bem a interferência política do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras ao anunciar a troca de comando na empresa, e as demais estatais que têm ações na bolsa pegaram carona na desvalorização e nas incertezas sobre o futuro dos seus ativos.

Em apenas uma semana, a Petrobras (PETR3, PETR4) chegou a perder R$ 100 bilhões em valor de mercado, dos quais conseguiu recuperar menos de R$ 30 bilhões. Mas a grande maioria do mercado financeiro deu as costas para o companhia, apesar de os resultados no seu balanço do 4º trimestre terem sido muito bem avaliados.

Gestores, analistas e corretoras baniram a petroleira das suas carteiras e recomendações, enquanto alguns mais ousados decidiram aproveitar que o ativo está descontado para ver o que acontece no futuro.

Outra que não conseguiu fugir do impasse político foi o Banco do Brasil (BBAS3). O presidente-executivo do banco, André Brandão, passou a última semana envolvido em rumores dos investidores. O mês terminou com a notícia de que ele estaria entregando o cargo, o que não foi confirmado oficialmente pelo banco.

Entre as principais estatais da bolsa, a única que conseguiu fechar a semana em um clima mais positivo foi a Eletrobras (ELET3 e ELET6), que, após se ver envolvida também no episódio de interferência política, teve uma Medida Provisória que trata de sua privatização enviada ao Congresso.

Entre idas e vindas, tombos e recuperação dos papéis, os investidores ficam confusos. Afinal, chegou a hora de fugir das estatais? Ou vale a pena entrar no investimento em um momento conhecido no mercado como “facas caindo”?

O InvestNews consultou especialistas sobre o que esperar dessas companhias a curto, médio e longo prazo. Veja abaixo:

Petrobras (PETR4)

REUTERS/Sergio Moraes.

Segundo Eduardo Guimaraes, especialista em ações da Levante Investimentos, investir nas ações da Petrobras (PETR3;PETR4) não está compensando o risco de interferência política.

Ele destaca a famosa frase “Mind the Gap” (cuidado com o buraco) utilizada por Roberto Castello Branco como resposta a sua saída da presidência da companhia. E afirma que a demissão do executivo após a Petrobras ter o maior lucro na história das empresas da bolsa– de R$ 59,9 bilhões para o 4º trimestre de 2020 – só comprova que o futuro da empresa será complexo.

“Se a um CEO que faz um bom trabalho não é permitido permanecer, já é previsível que a companhia vai continuar sofrendo”, afirma, comentando ainda que uma indicação disso é que o investidor estrangeiro que tem repensado sua posição na petroleira e outros ativos brasileiros.

Guimarães também aponta outros fatores para sustentar a sua saída do papel. O primeiro seria o lucro bruto no segmento de refino, que está pressionado por causa do giro de estoques e custos de produção. A margem bruta desta operação recuou para 10,15% no 4º trimestre – situação que, segundo especialista, pode comprometer futuramente o ebitda da Petrobras e aumentar o endividamento da companhia.

O segundo motivo que Guimarães escolheu como justificativa para ficar fora da ação é a alavancagem da Petrobras. De acordo com ele, não era esperado o pagamento de dividendos na ordem de R$ 10,3 bilhões.

Guimarães explica que a companhia teve uma forte geração de caixa em 2020, na ordem de R$ 112 bilhões, mas, apesar da redução, a dívida fechou em R$ 63 bilhões. E a alavancagem financeira está no patamar de 2,22 vezes o ebitda.

“O ideal seria não ter pago dividendos para reduzir ainda mais o endividamento, mas acredito que a atitude esteve em linha com a troca de comando”, reforça.

Além disso, ele cita que a questão de governança na Petrobras já não era das melhores, e complicou ainda com o Conselho de Administração acenando para a saída de Castello Branco. “A ação parece barata, mas não compensa o risco a curto e médio prazo. E o longo é mais incerto ainda por causa das eleições”, defende Guimarães.

Ele lamenta a decadência da estatal, que já foi a preferida de muitos investidores, e enxerga uma possibilidade de migração para petroleiras estrangeiras, como a Chevron (CHVX34), na qual é possível investir por meio de BDRs.

Já a Suno Research parece estar confortável com o ativo, e apontou em relatório que já entendia dos riscos de interferência política há algum tempo. A casa de análise enxerga oportunidades na geração de caixa robusto da Petrobras nos próximos anos, que deve garantir um retorno de até 10% em dividendos.

A Suno ainda enxerga como vantagem a valorização do Petróleo Brent, que tem sido negociado no patamar de US$ 60 e pode garantir ainda mais caixa para a companhia. “Atualmente a Petrobras negocia a menos de 5 vezes o EV/Ebitda, podendo atingir menos de 4 vezes casos os preços sejam mantidos”, aponta a casa de análise.

Eletrobras (ELET3)

Logo da Eletrobras fotografado no Rio de Janeiro (RJ) 03/01/2019 REUTERS/Pilar Olivares

Para Murilo Breder, analista de renda variável da Easynvest, o envio da MP da privatização da Eletrobras ao Congresso na terça-feira (23) foi uma espécie de reação do presidente Bolsonaro aos sinais do mercado, quando a companhia chegou a cair mais de 5% com ameaça de interferência política.

Contudo, ele não enxerga segurança nessa manobra. Breder explica que, olhando para os detalhes da medida provisória, é possível identificar que não se trata de uma venda integral, pois o governo ainda deve ter o controle de uma parte da companhia.

O analista também destaca como risco a incerteza da aprovação desta MP. “O processo pode levar até 60 dias para ser aprovado e ter uma prorrogação de outros 60” , explica. Embora o presidente da Câmara, Arthur Lira, tenha afirmado que a votação está prevista para os próximos dias, Breder destaca que todo cuidado é pouco quando se trata da Eletrobras. Ele lembra que uma MP entregue não significa que uma companhia pode ser privatizada.

Breder também destaca que, embora a Eletrobras esteja com as suas ações muito baratas, negociando a 0,67 vezes preço/valor patrimonial (o que significa que o preço é inferior à soma de ativos e passivos da companhia), o futuro ainda é incerto. Isso porque a privatização permitiria que a Eletrobras até dobrasse de preço nas ações, mas, se o contrário acontecer, o ativo pode desvalorizar bastante.

Para os investidores que enxergam a Eletrobras como uma oportunidade para receber dividendos, Breder aconselha procurar alternativas mais seguras. Ele cita a Taesa (TAEE11), outra companhia elétrica que paga bons dividendos, tem uma volatilidade menor e está longe de riscos políticos.

O banco Credit Suisse também se mostra cético com a privatização da companhia e manteve a recomendação neutra para as ações da Eletrobras (ELET6) com preço-alvo de R$ 32.

Em relatório, o banco suíço apontou que a privatização pode ser muito positiva para a companhia, mas é necessário apoio político para ser aprovada. Além disso, destacou tempo que a MP tem para ser votada. “A proposta de pagamento da taxa de concessão parece inicialmente maior do que esperado e vemos incerteza em muitas variáveis”, afirmou o banco.

O Credit Suisse ainda cita que o governo já teve dificuldades no passado para privatizar a companhia e será necessário a indicação de um novo CEO para a empresa.

Banco do Brasil (BBAS3)

bb

O Banco do Brasil ainda permanece do centro de possíveis interferências políticas. Segundo Matheus Generoso do Amaral, analista do Inter Research, os impasses entre André Brandão e Bolsonaro aumentam o cenário de cautela sobre as ações BBAS3.

Ele também destaca como pontos de atenção como a reestruturação do Banco, considerada pouco agressiva considerando os desafios que as instituições financeiras devem enfrentar com enxugamento de custos e transição digital.

“O Banco do Brasil afirmou que vai fechar 122 agências, enquanto o Bradesco (BBDC3 e BBDC4) fechou 1 mil em 2020 e foi mais agressivo”, destaca. Para o analista, os conflitos com Brasília podem dificultar ainda mais esse corte de gastos tão necessários para melhorar a eficiência operacional.

Apesar da solidez dos resultados do banco no 4º trimestre e um potencial de valorização de 38% nas ações, o analista acredita que a interferência política representa o risco substancial para a companhia. Por este motivo, o Inter Research mantém a sua recomendação neutra para o ativo e rebaixou o preço-alvo para das ações BBAS3 para R$ 40.

Para ele, investir em concorrentes como Bradesco (BBDC3 e BBDC4) e Santander (SANB11), bancos com planos agressivos de redução de custos e sem risco político, pode ser mais eficiente para o investidor a curto e médio prazo. “Além de uma boa reestruturação, o Banco do Brasil também precisa definir o que fará com a Cielo (CIEL3) e outros desinvestimentos. Recomendo ficar de olho também nos desdobramentos com André Brandão”, destaca o analista.

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