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Finanças

‘O Brasil está uma pechincha para investir’, diz porta-voz da Franklin Templeton

Para Rafael Cassab, crise que derrubou as ações brasileiras na pandemia da Covid-19 abriu uma janela de oportunidade, mas ‘cautela’ ainda é a palavra de ordem.

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Franklin Templeton

Para uma das maiores gestoras de recursos do mundo, o Brasil está em “liquidação” para o investidor estrangeiro. A crise que derrubou os preços das ações brasileiras durante a pandemia da Covid-19 abriu uma janela de oportunidade para quem tem dólares na mão. Por outro lado, a palavra de ordem continua sendo “cautela” para o investidor local, que ainda está exposto a riscos internos e políticos. Investir em ativos descolados do Brasil e em mecanismos de proteção (hedge) é uma estratégia recomendada pelos gestores da Franklin Templeton, que tem um portifólio sob gestão de US$ 650 bilhões no mundo, dos quais US$ 9,5 bilhões estão alocados no Brasil.

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“Acreditamos que ainda teremos grande volatilidade na bolsa brasileira”, afirma Rafael Cassab, responsável pelo relacionamento com investidores na Franklin Templeton Brasil, para quem ainda é cedo para dizer que o Ibovespa, principal indicador da B3, está em trajetória de recuperação. Nesse contexto, a escolha criteriosa das ações que compõem a carteira faz toda a diferença. “Nos posicionamos em empresas que sofreram muito com essa crise nos últimos três meses. Elas são líderes de mercado, com baixa alavancagem operacional. São empresas que com a retomada econômica podem pagar bons dividendos”, conta.

O risco calculado também está presente nos fundos de Previdência da Templeton no Brasil. Para a gestora, o investimento de longo prazo, especialmente com o objetivo de garantir uma renda de aposentadoria, precisa ser consistente e cauteloso. Para cada aposta da gestora na carteira, há uma posição contrária, uma espécie de “seguro”. Um exemplo são os ativos atrelados à inflação. Montamos uma posição de inflação, travamos a inflação como se fosse ficar no patamar de 3% ou 3,5% nos próximos 15 anos, mas caso ela suba neste período, também ganhamos”, explica.

Cassab atua na distribuição de produtos locais e internacionais para family offices, bancos, corretoras e alocadores da Franklin Templeton. Antes da gestora, ele passou pelo Credit Suisse Hedging- Griffo, XP Investimentos e escritórios independentes de assessoria investimentos.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Rafael Cassab:

InvestNews – Passados mais de dois meses da pandemia no Brasil, com o mundo sinalizando a reabertura gradual das economias e a expectativa de alguma vacina, qual a visão de vocês em relação a voltar a tomar risco no contexto da indústria de fundos, já chegamos ao fundo do poço e já dá para precificar uma retomada?

Rafael Cassab – Em termos globais, tenho conversado com investidores e analistas e muito se discute sobre o formato da retomada, se será em V, U ou W. Para nós, nenhuma destas letras precifica exatamente como vai ser a retomada. A gente imagina algo muito mais gradativo, uma retomada lenta e contínua ao longo dos próximos dois anos. Isso vai bem em linha com o que o FMI tem divulgado, eles preveem uma contração do PIB global em torno de 3% e uma retomada de atividade só em meados do ano que vem. Isso deve se estender lentamente até termos um “novo normal” no comecinho de 2022. Para nós, a retomada é mais gradativa, não só pela crise de saúde na pandemia, mas por um acirramento cada vez maior do confronto EUA e China, uma possível migração para que outro país emergente supria a lacuna que a China deixaria de ser a principal fornecedora de matérias-primas aos EUA, um mundo mais polarizado do ponto de vista político e econômico e uma reprecificação grande entre demanda e oferta. Com o avanço e as preocupações na pandemia, as pessoas passam a ser mais poupadoras e gastam menos, isso tem um impacto grande em demanda e inflação para patamares baixos ao longo dos três ou quatro anos. Para o mundo, o que vivemos em maio e abril, uma euforia em relação à abertura de mercados, o mercado se antecipou em relação à economia real. Os índices de pedidos de auxílio-desemprego continuam em patamares elevadíssimos, mesmo que a gente chegue perto de uma possível cura, até que as pessoas se recoloquem no mercado, deve demorar. São mudanças drásticas. Nas nossas alocações internacionais, preferimos trabalhar com moedas fortes, temos posição em moeda japonesa, coroa norueguesa, franco suíço, que em períodos de maior volatilidade se destacam.

E no cenário local?

Somadas todas as incertezas no exterior, ainda temos uma crise política grave, temos um ambiente muito difícil para aprovar reformas que antes da crise estavam bem endereçadas. Tem um interlocutor que não tem a destreza para se comunicar como deveria. Temos um ruído político muito grande. Falando de posicionamento de portfólios, estamos extremamente cautelosos e para qualquer posição agressiva que tomamos, temos hedge (proteção) na mesma proporção.

Diante destes riscos políticos internos, qual a visão em relação a ativos descorrelacionados com o Brasil e quais os melhores para se proteger?

Apesar desse momento negativo em termos de conjuntura econômica e saúde e nas diversas proporções que podemos colocar, o universo de investimentos no Brasil é relativamente restrito. Algumas posições podem se beneficiar dessa mudança de comportamento, como o setor de tecnologia, com muita gente trabalhando e se comunicando de casa. Mas olhando para a economia interna no Brasil, as opções de investimentos para empresas que podem se beneficiar disso são muito limitadas. A variedade de empresas com uma boa penetração de e-commerce, por exemplo, é muito limitada. Para conseguir diversificar e descorrelacionar seus investimentos em relação ao risco local, o caminho talvez seja expandir os horizontes e buscar investimentos fora do Brasil.

Faz parte da estratégia de vocês olhar para fora?

A gente se beneficia de ter uma estrutura global. Todas nossas decisões de investimentos partem de um colegiado. O que um gestor no Brasil faz é muito influenciado por uma discussão ampla que ele tem com gestores em mais de 40 países. É uma decisão muito “top down” de como outros países enxergam o Brasil e como posso me posicionar para extrair algum valor disso.

Olhando de lá para cá, a bolsa brasileira ficou mais barata em dólar e seria um chamariz para o estrangeiro retornar, além da tensão externa e juros baixos lá fora, tudo isso não torna o Brasil mais atrativo?

O Brasil tem uma peculiaridade em relação a outros emergentes. Ele é uma economia bastante auto-suficiente. Mesmo que os ruídos internacionais aumentem ao longo dos próximos trimestres, o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, tem recursos naturais praticamente inesgotáveis. É uma economia muito fechada ainda, ainda não se abriu para o mundo de uma maneira mais liberal, mas além do preços dos ativos, é uma economia bastante sustentável. Achamos hoje que o Brasil está uma pechincha. O Brasil está com preços muito atrativos mesmo, e isso em algum momento de trégua de ruídos políticos pode ser um momento de entrada de fluxo estrangeiro com certeza.

Para o investidor local, o Ibovespa subiu 8,5% em maio e surpreendeu quem  temia a “maldição de maio”. Muita gente diz que ela está a preço de banana, mas já chegou aos 90 mil pontos. Ainda dá para afirmar que a bolsa está barata?

Acreditamos que ainda teremos grande volatilidade na bolsa brasileira. O que aconteceu no mercado local foi muito acompanhado do que aconteceu lá fora, somado a uma trégua no ruído político que estávamos vivendo. Foram dois fatores que animaram os investidores. Nos posicionamos em empresas que sofreram muito com essa crise nos últimos três meses. Elas são líderes de mercado, com baixa alavancagem operacional. São empresas que com a retomada econômica podem pagar bons dividendos. Temos uma boa posição defensiva, e junto desse portfólio, a gente sempre faz o hedge (proteção). Temos uma carteira comprada em determinados papéis e fazemos a ponta contrária vendida. A gente ganha de fato se os papéis que a gente selecionou andam mais que o resto do mercado.

Vocês mudaram a visão sobre o cenário construtivo que se desenhava antes da pandemia em relação aos setores?

Nossa visão é de mais longo prazo. Quando a gente compra um papel não fazemos trades curtos, construímos uma tese e leva por um bom período até que ela se mature. Reposicionamentos a carteira para ativos de qualidade que sofreram mais do que deveriam e estamos otimistas com setores de tecnologia, onde entra e-commerce, educação à distância e alguns papéis que se beneficiam desse cenário. E para contrabalancear esse otimismo com o Brasil, temos alguns papéis que servem como hedge, com boa parte da receita das empresas dolarizadas. A esse é que, se essa parte da empresa não andar, sua receita em dólar deve contrapor o downside nessa parte da carteira.

Como os fundos de Previdência se inserem no contexto da pandemia, levando em conta seu perfil de longo prazo e os resgates que a indústria sofreu nesse período?

Nosso compromisso com o longo prazo é bastante relevante. Nossa estrutura de Previdência com a Franklin tem crescido, a gente tem uma parceria com a Icatu em um fundo multimercado, justamente por ter esse viés de investimento de longo prazo, ele tem um controle de risco muito rigoroso, trabalhamos com uma baixa volatilidade e investindo em teses de alta convicção. A sede da Franklin fica em San Mateo na Califórnia, que fica a 10 minutos do Vale do Silício. Desde sempre existia uma interação entre gestão de empresas de tecnologia muito grande. Hoje uma tese que trouxemos ao Brasil é o investimento maciço em fintechs. Dentro do nosso fundo de Previdência, uma parte, aproximadamente 20% do patrimônio líquido dele decidamos a comprar créditos de empresas vinculadas ao ecossistema de fintechs. Como teve muito resgate de fundos de crédito privado nos últimos três meses, a  abertura, o spread, os yields abriram muito. Aproveitamos para reposicionar nosso portfólio e compramos uma letra financeira do Nubank que foi emitida a 108% do CDI, entramos a 200% do CDI. Com esse resgate muito grande na indústria de crédito, aproveitamos para essa parte do portfólio alocar em nomes que temos plena convicção e retornos atrativos.

Como vocês veem a relação entre ativos de risco e Previdência?

Acreditamos como premissa básica para uma empresa de mais de 80 anos que o controle de risco é o ponto principal de perpetuidade tanto do investidor como de uma empresa. Acreditamos que se vc quer tomar risco, faz sentido ter uma exposição direta em algo que você consegue controlar a volatilidade como os fundos de ação. Se quer ter um controle um pouco mais rigoroso em relação a volatilidade, tem que ter um multimercado mais conservador. Principalmente nesse cenário de juros negativos praticamente em boa parte do mundo. E aqui com a Selic baixa, pra não ter um patamar tão baixo preferimos contrair um pouco mais de risco e a gente tem tido um resultado bastante significativo.

Tem alguma lição que essa crise já ensinou para a indústria de fundos?

Talvez a maior lição é o velho conceito de diversificação. É importante ter ativos descorrelacionados uns aos outros no seu portfólio. Para o investidor pessoa física, essa atenção tem que ser maior ainda. No mundo das assets,  uma lição muito grande que tiramos foi a necessidade de controlar a sua liquidez. Ter um passivo muito claro, um controle rigoroso e projetar todos os possíveis cenários de stress de mercado e ter uma posição líquida que consiga honrar uma onda de baixa que a gente teve. Uma frase muito emblemática lá fora é que “cash is king”, Isso se provou muito verdadeiro no Brasil também, não só nos últimos três meses, mas também em outubro e novembro do ano passado, quando o crédito privado sofreu bastante. Esse controle rigoroso de risco é fundamental para se prevenir que momentos de maior volatilidade e uma crise sem precedentes como a que vivemos agora.

Qual seria o seu conselho para o investidor que está com o pé atrás em tomar risco, tem uma reserva na mão, mas diante das incertezas de curto prazo não sabe o que fazer?

Uma lição que todo investidor tem que ter é olhar para seu portfólio e ver quão confortável você está ao risco inerente a suas aplicações. Principalmente o brasileiro que está muito acostumado a taxas de juros em patamares de mais de dois dígitos, quando se conseguia investir em fundos de renda fixa, de perfil muito conservador, e ganhar aquele bom e velho 1% ao mês, que todo brasileiro tem enraizado na cabeça. É difícil que os juros, pelo menos num espaço curto de tempo, voltem para esse patamar. Para quem quer viver de renda e tem perfil conservador, inevitavelmente terá que tomar mais risco na carteira. Com isso está sujeito a meses com retornos positivos e meses com retornos negativos e a ideia é que faça um bom gerenciamento  dos investimentos para ter mais meses positivos. O principal recado é não agir por impulso em momentos de euforia do mercado, seguir o movimento de manada, fazer o que todo mundo está fazendo. Se você está confortável e diversificado com um portfólio de investimento, não é para ver todo o dia, tenta se afastar de grandes ruídos, tenha uma visão de longo prazo para ter uma aposentadoria um pouco mais tranquila. Se você tem R$ 1 mil para investir, não investe tudo em um dia. Investe um pouco por dia e consegue fazer um preço médio das oscilações de mercado.

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