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Temporada de cruzeiros em alta, mas ações em baixa: até quando covid impacta?

Cenário de juros altos e inflação dos combustíveis pode dificultar retomada.

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O setor de cruzeiros enfrentou praticamente um naufrágio no auge da pandemia. A temporada 2020/2021 teve um prejuízo estimado em R$ 2,6 bilhões, segundo a CLIA Brasil, entidade que monitora o setor. Além disso, pelo menos 40 mil postos de trabalho deixaram de ser gerados no período.

O impacto econômico pela paralisação das rotas marítimas devido as taxas de contaminação entre tripulantes e passageiros em 2021/ 2022 foi 33% menor que a edição 2019/2020 (período que antecede a pandemia). 

Hoje, apesar de a pandemia não ter acabado, as navegações estão a todo vapor na nova temporada de férias de verão. Segundo a Associação Brasileira de Navios e Cruzeiros, essa temporada promete ser a maior dos últimos dez anos. A previsão é que 35 navios realizem viagens ao longo de seis meses, levando, aproximadamente, 500 mil turistas.

Mas enquanto o vírus estava invadindo as cabines e viagens sendo interrompidas, as empresas passaram maus bocados. A Genting Hong Kong, uma holding que operava cruzeiros e resorts e tinha ações na bolsa de Hong Kong, decretou falência. Já as companhias que sobreviveram se endividaram, além de ver suas ações afundarem.

Entre fevereiro de 2020 até dezembro deste ano, as ações da Carnival Corporation (C1CL34) caíram aproximadamente 80%. As ações da Norwegian Cruise Line (N1CL34) caíram 73% e os papéis da Lindblad Expeditions Holdings (LIND) caíram aproximadamente 52%. A Royal Caribbean Group (R1CL34) apresentou uma queda de 53%. 

O que vem pela frente?

Agora, resta saber se o naufrágio enfrentando pelo setor é reversível. Atualmente, a Carnival constatou que o volume de reservas praticamente dobrou em relação ao mesmo período de 2019. A Norwegian verificou um movimento semelhante, ao abandonar requisitos de vacinação e testes.

No entanto, para sustentar as operações, as empresas de cruzeiro se endividaram ao longo da pandemia, segundo  Luan Alves, analista chefe da VG Research. 

O endividamento da Carnival aumentou de US$ 14,433 bilhões em fevereiro de 2020 para US$ 35,286 bilhões em agosto de 2022 (+144%). O endividamento da Norwegian aumentou de US$ 8,843 bilhões em março de 2020 para US$ 14,643 bilhões em setembro de 2022 (+66%). O endividamento da Lindblad aumentou de US$ 376,8 milhões em março de 2020 para US$ 562,5 milhões em setembro de 2022 (+49%). Por fim, o endividamento da Royal Caribbean aumentou de US$ 12,825 bilhões para US$ 23,947 bilhões (+87%). 

Cenário macroeconômico 

A alta taxa de juros tende a aumentar o custo da dívida feita por essas companhias no período de crise. E com projeções de que este cenário permaneça por mais tempo devido a incertezas econômicas no mundo todo, pode ser que este alto custo permaneça prolongado. Isso sem contar na inflação dos combustíveis, o que prejudica a rentabilidade das operações. E, neste cenário, não é incomum constatar aumentos de capital, o que pode provocar a diluição deste, segundo Alves. 

“Novas variantes da covid-19 também poderiam vir a requerer a implementação de novas medidas de distanciamento social e de lockdown, embora isto pareça cada vez mais improvável”.

Apesar de as receitas das três principais empresas do setor ter mais do que dobrado em 2021 em relação a 2020 (US$ 6,65 bilhões vs US$ 3,36 bilhões em 2020), o investidor precisa saber que “nem todas as empresas de cruzeiros são iguais”, segundo o analista.

Diferentes empresas para diferentes perfis

A Royal Caribbean possui um ticket mais elevado, enquanto a Carnival possui preços mais acessíveis para o turista médio. Em um cenário de recessão, isto poderia vir a afetar a dinâmica de demanda.

A Norwegian apresenta um perfil similar ao apresentado pela Carnival, com foco no turista médio, de custo mais acessível. A Lindblad, por outro lado, se diferencia das demais ao operar cruzeiros menores de ticket elevado. Para base de comparação, essa última transporta entre 48 e 148 passageiros, enquanto as demais transportam milhares. 

“Ao oferecer serviços premium para clientes de renda mais elevada, a Lindblad pode ser mais ‘blindada’ contra os efeitos nocivos de uma recessão”, aponta o analista chefe da VG Research. 

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