Quase dois meses após a aprovação da recuperação extrajudicial (REJ) em 12 de março, as assembleias para negociar os termos do plano com os detentores desses títulos, referentes a descontos, prazos e pagamentos – vão ser realizadas nesta quarta (6) e quinta-feira (7).
A Raízen deixou as condições do plano em aberto quando protocolou o pedido de recuperação extrajudicial – e isso deve ser definido nessas votações.
A base de investidores pessoas física de CRAs da Raízen é uma das maiores do mercado brasileiro, com cerca de 120 mil CPFs, que representam cerca de R$ 5,4 bilhões em dívidas a receber.
Dentro das regras da recuperação extrajudicial, a securitizadora responsável pela emissão dos papéis vai representar os investidores dos certificados emitidos por ela. No caso dos CRAs da Raízen, os detentores serão representados, basicamente, pela Opea.
“O plano assinado em 10 de março de 2026 é um plano-quadro, confessadamente incompleto, e as condições concretas serão definidas apenas no plano atualizado [após aprovação nas assembleias]”, apontou a Opea.
A Opea contratou o escritório de advocacia Felsberg e a assessoria financeira Journey Capital, especializada em crédito privado, para negociar em seu nome e dos detentores de seus CRAs.
Para ter validade, o plano de recuperação terá de ser aprovado por mais de 50% mais um dos credores representados. No caso dos certificados de recebíveis, como a Opea representa a maior parte dos detentores, terá a palavra final sobre o tema.
Algumas plataformas, como a XP, têm se mobilizado e enviado a investidores dos CRAs em sua base pedidos de procurações para poder participar das discussões como parte interessada.
Negociações envolvem potenciais descontos
A Raízen divulgou em março apenas opções a serem negociadas, mas nenhuma proposta concreta. Uma das soluções prevê a emissão de novas dívidas para substituir os créditos existentes, com novos prazos de vencimento, taxas de juros e demais condições.
Uma segunda possibilidade seria a conversão de parte da dívida em participação acionária no grupo Raízen. Nessa opção, o restante teria um alongamento de prazo de pagamento e, eventualmente, um “haircut“, ou seja, o desconto sobre o valor atual da dívida.
Conforme a Opea, a Raízen também não sugeriu um nível específico para o “haircut“.
Esse percentual também vai ser proposto nas reuniões. No mercado secundário, os títulos da Raízen são negociados com um desconto de 60% sobre o valor de face. Esse seria, portanto, o prejuízo potencial precificado pelos investidores.
A produtora de etanol e açúcar e distribuidora do combustível deve ainda apresentar, dentro do plano de recuperação, propostas com possibilidade de reorganização societária. Para fortalecer a estrutural de capital, a Raízen vai precisar vender ativos, como a refinaria e uma rede de cerca de 700 postos de combustíveis na Argentina, avaliados em US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões).
Conversão de dívida por participação
Um gestor que conversou com o InvestNews e pediu anonimato afirmou acreditar que a possibilidade de converter parte da dívida em ações pode ser a solução com menor potencial de perdas aos credores.
“O que temos ouvido por aqui é que, no final, você vai eventualmente converter um pedaço em ações, o que pode ajudar a reduzir o desconto no valor dos títulos, porque, lá na frente quando vender os papéis, o valor recuperado da dívida será maior do que os 40% [precificados no mercado secundário].”
Em 25 de abril, a Raízen propôs aos credores institucionais, como bancos e fundos de investimento, que representam a maior parte dos R$ 65 bilhões de dívida do conglomerado antes controlado também pelo empresário Rubens Ometto, a conversão de 45% da dívida em 70% das ações ordinárias do grupo.
As negociações, no entanto, estão em um impasse, porque as instituições financeiras pedem uma reformulação do conselho da produtora de açúcar e álcool. Os bancos querem a saída de Ometto, fundador da Cosan, que controla a Raízen junto com a Shell, da presidência do colegiado.
Próximos passos após as assembleias
Após as assembleias da quarta e da quinta-feira, a Opea vai ter de ratificar entre os investidores as decisões tomadas pelos representantes das partes. Vai, para isso, convocar uma outra reunião de detentores dos CRAs, em data a ser agendada, para votarem os termos negociados.
Se o plano for aprovado pela maioria dos credores, a Raízen tem até 9 de junho para apresentar formalmente as propostas. Esse prazo se refere ao fim dos 90 dias de congelamento de cobranças (“stand still“), obtido após a Justiça aceitar o pedido de recuperação extrajudicial.
Caso a produtora de etanol não consiga a aprovação, pode pedir uma extensão desse “prazo de congelamento” por mais 90 dias. Nesse caso, terá até 7 de setembro para conseguir que mais da metade dos credores aprove as propostas.
Na hipótese de o plano não obter consenso, os credores podem entrar na Justiça para executar a dívida após o fim da extensão de prazo. A cobrança, porém, pode se tornar um longa batalha judicial.