Não teve festa de carnaval para o bitcoin (BTC) em fevereiro. A maior criptomoeda em valor de mercado caminha para fechar com queda de 15%, o quinto mês consecutivo no vermelho.

Uma sequência negativa dessa magnitude não era vista desde o fim de 2018, quando o setor atravessou uma crise profunda após o estouro da bolha das Initial Coin Offerings (ICOs) – a febre de captações que funcionava como uma espécie de IPO do mercado cripto.

Olhando para fevereiro, muita coisa jogou contra.

Primeiro, o quadro macro. Dados de emprego considerados fortes nos Estados Unidos e inflação ainda resistente reduziram as apostas de corte de juros. E vale sempre lembrar: juros altos tendem a tirar brilho dos ativos de risco, já que a renda fixa continua atraente.

Somado a isso veio a incerteza sobre tarifas nos Estados Unidos, a venda pesada de ações de tecnologia e as dúvidas crescentes sobre o ritmo de crescimento e a monetização da indústria de inteligência artificial. Cripto costuma andar de mãos dadas com o setor de tech – especialmente em momentos de estresse – e, quando as gigantes de tecnologia perdem fôlego, o reflexo costuma aparecer no setor.

Além do macro, houve também uma pressão de vendas. ETFs de bitcoin registraram a pior sequência de saídas em um ano, enquanto investidores – tanto de varejo quanto institucionais – reduziram exposição. No meio disso tudo, pairou uma espécie de crise de identidade, e a narrativa de “ouro digital” – uma reserva de valor – ficou fragilizada justamente no momento em que o mercado buscava proteção.

Mês Desempenho
Outubro/2025 -3,69%
Novembro/2025 -17,67%
Dezembro/2025 -2,97%
Janeiro/2026 -10,17%
Fevereiro/2026 -15,12%
Fonte: Coinglass

O que esperar de março?

O cenário ainda inspira cautela.

No front macroeconômico, não há, por ora, qualquer expectativa relevante de corte de juros nos Estados Unidos. Segundo a ferramenta FedWatch, que compila as expectativas do mercado com os juros, 96% dos agentes de mercado apostam que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve manter a taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano na reunião nos dias 17 e 18 deste mês. Traduzindo: o vento macro não sopra a favor dos ativos de risco – e cripto entra nesse pacote.

Sem alívio monetário no radar, o mercado digital fica mais dependente de gatilhos próprios. E, olhando para o quadro geral, também não há, neste momento, um fator de impulso específico para o bitcoin ou para o ecossistema cripto como um todo, segundo especialistas.

Além disso, se o passado servir como guia – e ele costuma, ao menos, oferecer pistas -, o bitcoin pode permanecer em trajetória de baixa por mais algum tempo. Um levantamento da Mercado Bitcoin (MB) mostra que os ciclos anteriores de queda após topos relevantes de preço – 2013/2015, 2018/2019 e 2021/2022 – duraram entre 12 e 13 meses. Não é pouco tempo.

Portanto, seguindo essa lógica, “se o topo do valor de mercado aconteceu em outubro de 2025 (em torno de US$ 126 mil), seguindo esse padrão, o período de baixa poderia se estender até outubro de 2026”, disse Rony Szuster, head de research da corretora cripto.

É uma ciência exata? Não, pois há inúmeras variáveis em jogo. Mas o histórico é, sim, uma peça relevante no tabuleiro.

Bitcoin segue nas carteiras

Apesar do pessimismo, o BTC continua sendo a espinha dorsal do setor. Nas carteiras de players locais, ele permanece como principal ativo.

Para Julián Colombo, diretor sênior de políticas públicas e estratégia para a América do Sul na Bitso, a cripto hoje tem um perfil mais estratégico do que puramente especulativo – menos dependente de narrativas disruptivas e mais integrado ao sistema financeiro tradicional.

Para março, segundo ele, o BTC tende a funcionar como “referência de liquidez e termômetro de risco do setor, especialmente em um ambiente macro que ainda exige cautela”.

André Franco, CEO da Boost Research, disse que a criação de Satoshi Nakamoto segue como o principal indicador do momento de mercado. Isso porque ele carrega dois papéis possíveis.

“Se houver nova capitulação, tende a cair menos que o restante do mercado. Se o fundo estiver formado, será o primeiro a sinalizar reversão.”

A queda atual é diferente?

Parte do mercado argumenta que a queda atual é diferente. Ao contrário de recuos anteriores, como a que houve na quebra da exchange FTX, em 2022, não houve colapso de grandes players.

Exchanges relevantes seguem operando, enquanto ETFs concentram uma fatia relevante – 6,38%, segundo a plataforma SoSoValue – da oferta circulante, e bancos continuam a ofertar produtos ligados a ativos digitais. Ou seja: a infraestrutura construída nos últimos anos está em operação.

“Apesar da fraqueza nos preços, o desenvolvimento do ecossistema permanece intacto. A Lightning Network (solução que roda em cima do BTC) continua processando volume significativo de transações, ampliando a utilidade do bitcoin como trilho de pagamento e transferência de valor”, escreveu Maximiliaan Michielsen, analista sênior de pesquisa da 21shares.

Mas nem todos compram essa tese. Para parte dos críticos, o mercado cripto – apesar dos avanços em infraestrutura e adoção institucional – ainda é essencialmente especulativo. Na visão deles, os preços sobem não por geração consistente de valor mas porque há sempre alguém disposto a pagar mais à frente. Quando essa dinâmica se esgota, o “castelo” balança.

“Em ciclos de alta (“bull markets”), os ativos sobem por hype e liquidez extra, mas também caem abruptamente quando essa euforia desaparece. Para investidores, a mensagem é cautela. O bitcoin e os ativos digitais continuam altamente voláteis e dependentes de sentimento e liquidez”, disse Luiz Arthur Hotz Fioreze, diretor de portfólio da Oryx Capital.