O mercado já vislumbra possibilidades de várias altas de juros como resposta à aceleração inflacionária global pelos banco centrais mais influentes do mundo. É o caso do Banco Central Europeu (BCE), do Banco da Inglaterra (BoE), do Banco do Japão (BoJ) e, agora, do próprio Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA).
Para o Brasil e o resto dos emergentes, trata-se de uma notícia preocupante. Isso porque um fluxo de recursos de fora em meio a um movimento de diversificação de portfólios de investidores globais tem ajudado a sustentar tanto a alta da bolsa, quanto manter o dólar mais fraco ante o real. E a tendência agora é que o fluxo se reverta.
Para os seus investimentos significa o seguinte: mais força para ativos em dólar, como ETFs de S&P 500, que pegam carona com a moeda americana. A pressão de alta nos juros lá fora também é ruim para a renda variável gringa, mas ela é menos volátil que as emergentes.
Na renda fixa, ruim para quem apostou em títulos prefixados e de inflação (IPCA+) para ganhar na “marcação a mercado” – vendendo os títulos antes do vencimento em busca de ganho rápiido. Mas isso só funciona quando o juro de longo prazo cai. E temos o oposto. O clima atual força essas taxas para cima, e isso joga o preço desse tipo de título para baixo – seja título público seja título privado.
O cenário só é bom mesmo para a reserva de emergência. A chance de uma desaceleração nos cortes da Selic aumenta. O dinheiro em ativos que acompanham o CDI, então, seguem bem, obrigado.
De volta à parte macro. Um dólar mais forte, por aqui, também joga gasolina na fogueira da inflação, num ambiente já afetado pelo choque do petróleo. O que nos leva à próxima parte.
Mercado já vê pausa nos cortes da Selic
As opções de Copom da B3, ferramenta que acompanha o posicionamento do mercado para os rumos da política monetária brasileira, mostram que os investidores veem 58% de possibilidades de o Comitê de Política Monetária do BC cortar, na reunião de 17 e 18 de junho, a Selic para 14,25% dos atuais 14,50% ao ano.
Até aí, a previsão é semelhante à vista logo após a reunião de abril. No entanto, tudo muda de figura no segundo semestre. Há menos de um mês, o consenso indicava a possibilidade de quedas de 0,25 ponto percentual na taxa básica até o fim do ano.
Agora, porém, as opções de Copom já mostram que a maioria dos investidores enxerga uma parada do ciclo de queda da Selic no encontro de 4 a 5 de agosto. Um grupo de 54,5% espera manutenção da taxa, ante 31,5% que ainda veem espaço para nova redução.
Nesta terça-feira, o Ibovespa amargou uma queda de 1,52%, aos 174.278,86 pontos. Bem longe dos 199.354 pontos alcançados na máxima histórica em 14 de abril.
O dólar retomou o patamar de R$ 5 e fechou com alta de 0,85%, cotado a R$ 5,04.
Onda de venda de títulos americanos
Nesta terça-feira (19), os rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) avançaram com força. A taxa da Treasury de 30 anos atingiu 5,198% ao ano, no maior nível em quase duas décadas. O título de 10 anos avançou para 4,687% anuais, no patamar mais elevado desde janeiro de 2025.
A alta das taxas reflete uma onda de vendas generalizadas dos papéis. No mercado de renda fixa, a subida dos juros significa uma queda de preços desses títulos.
Os investidores continuam a se desfazer dos papéis diante do temor de que a inflação americana esteja acelerando. E até o rendimento da nota de 2 anos, que reflete mais de perto as expectativas para a taxa básica de juros do Fed, subiu para 4,127%.
Nesses níveis, os juros das Treasuries indicam que o mercado passaram a incluir nos preços a possibilidade de altas de juros. A atual taxa de política monetária americana se situa entre 3,50% a 3,75% ao ano.
“É um problema real”, afirmou Jim Lacamp, vice-presidente sênior da Morgan Stanley Wealth Management, durante entrevista ao programa Squawk on the Street, da CNBC, nesta terça-feira. “No início do ano, todos esperavam uma queda nos juros — isso sustentava a tese de alta das bolsas. Agora, parece que estamos caminhando para um aumento das taxas.”
Nos EUA, investidores já apostam em alta de juros
É claro que, em grande parte, os rumos dos juros aqui e no mundo vão depender do desenvolvimento da guerra.
Se o conflito se tornar um evento persistente, a tendência é de os investidores internacionais adotarem de vez o modo cautela e buscarem os chamados “portos seguros”, categoria em que o dólar ocupa posição de destaque.
Caso EUA e Irã consigam obter um acordo de paz e encerrar o embate em breve, os mercados globais podem retomar a busca por ativos de emergentes, ainda que esse movimento tenha uma tendência de voltar gradualmente.
Existe um porém nesse roteiro. Os flashes de que uma aceleração disseminada da alta de preços já se faz presente em várias economias começam a mudar as expectativas sobre a inflação futura e, com isso, passam a alterar a própria direção dos juros globalmente.
A ferramenta FedWatch, que monitora as apostas de investidores nos rumos da política monetária americana, mostra zero chances de novos cortes de juros em 2026 e 2027. Ao contrário. O consenso do mercado aponta para uma alta de taxas pelo Fed na reunião de dezembro ou de janeiro.
As chances de uma alta no encontro entre 8 e 9 de dezembro, por exemplo, já alcançam 56,7%. Para a reunião de 26 a 27 de janeiro de 2027, o mercado já coloca uma possibilidade de 65%.
Há menos de um mês, a FedWatch indicava que as expectativas do mercado convergiam para a retomada de cortes no início de 2027.
Colaborou Alexandre Versignassi