O Banco Central escolheu a cautela. Sem um fim no horizonte para os ataques militares no Oriente Médio, com preço do petróleo em alta e riscos à inflação no radar, a autoridade monetária optou por um corte menor da Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Mas isso não fechou as oportunidades na renda fixa e na renda variável — em alguns casos, até criou novas.

A turbulência provocada pelos conflitos no Irã empurrou as taxas de juros dos títulos públicos para cima nos últimos dias — e quando as taxas sobem, os preços caem, como é a dinâmica da renda fixa. Quem tinha esses papéis na carteira viu o saldo recuar.

A decisão do BC desta quarta-feira (18), ao confirmar o início do ciclo de cortes, ajuda a estabilizar esse movimento: com juro básico mais baixo, as taxas tendem a ceder e acontece o efeito inverso, o que traz um alívio para quem já está com o investimento em mãos.

Prevendo o início dos cortes da Selic, investidores se antecipam à decisão e, por isso, parte desse movimento já aconteceu. O que dita as regras do jogo nos últimos dias são os desdobramentos geopolíticos.

Mas nem por isso quem ainda está fora do mercado perdeu a oportunidade. Isso porque as taxas ainda elevadas significam que quem compra o título agora contrata um retorno melhor do que havia algumas semanas atrás.

E, com a expectativa de que a Selic encerre 2026 em 12,25% ao ano — ou seja, com mais cortes pela frente —, quem se posiciona neste momento em títulos prefixados ou no Tesouro IPCA+ pode se beneficiar tanto do juro contratado quanto da valorização dos papéis ao longo do ciclo.

Mas é importante notar que existe um elemento complicador – leia-se riscos relevantes – na equação: a inflação e as consequências para a duração do ciclo de cortes da Selic.

A guerra no Oriente Médio impactou o mercado de commodities: petróleo, metais, fertilizantes etc. subiram. Isso acende um alerta para os preços globais e, por consequência, para a inflação no Brasil.

Esse quadro de perspectivas para a renda fixa muda se o cenário piorar: as taxas voltam a subir, os preços dos títulos, a cair, e tanto quem estava posicionado quanto quem entrou depois enfrentará novos choques com impactos para esses investimentos.

No Brasil, economistas já revisaram levemente para cima a projeção de inflação ao consumidor para este ano, que agora está em torno de 4,10% — acima da meta, mas ainda dentro do tolerado pelo Banco Central.

É esse equilíbrio que explica o ritmo mais cauteloso adotado pelo Banco Central. Cortar juros com o risco de uma inflação maior é andar na “corda bamba”. O corte veio, mas menor — e os próximos passos dependem de como o cenário evoluir, como destacou o Copom no comunicado junto com a decisão.

Algumas frentes vão ditar esse ritmo e merecem atenção de quem investe em renda fixa. A primeira é a própria guerra: enquanto o conflito mantiver o petróleo em alta, a incerteza sobre a inflação permanece, já que o encarecimento da matéria-prima pode contaminar toda a cadeia de suprimentos no Brasil e chegar até mesmo ao preço dos alimentos.

E há também o risco para o preço das commodities em geral. O choque ainda está se desdobrando e seus efeitos não estão totalmente claros. Se algum desses fatores pesar mais do que o esperado, o BC pode ser forçado a desacelerar os cortes ou mesmo encerrar o ciclo antes do que o esperado.

Essa é a hora que os investimentos pós-fixados são uma boa pedida. Para quem prefere não correr risco de variação de preço, o Tesouro Selic e outros produtos indexados ao CDI oferecem o que chamamos comumente no mercado de “carrego”, que é o rendimento obtido por carregar um título que está pagando um nível de juros mais alto por mais tempo.

Como fica o mercado de crédito privado e a bolsa?

No crédito privado — debêntures, CRIs, CRAs e outros títulos emitidos por empresas —, o raciocínio é um pouco diferente.

Os produtos indexados ao CDI e ao IPCA tendem a capturar o movimento do mercado, claro, já que pagam um prêmio acima desses indicadores, o referencial dos produtos. Mas o tamanho do corte de hoje importa menos do que a magnitude total do ciclo.

Qualquer redução da Selic já ajuda as empresas na prática: o custo da dívida cai, o fluxo de caixa melhora e o risco de calote diminui. Mas o que realmente faz diferença é se os juros caem de forma consistente, sem que haja um novo repique inflacionário no caminho.

Um ciclo que começa e para no meio deixa as empresas em situação melhor do que antes, mas longe do alívio que um juro estruturalmente mais baixo proporciona. Por essa razão, o investidor de crédito privado acompanha menos a decisão de hoje e mais a trajetória – e os riscos que podem interrompê-la.

Como a queda de juros ajuda a melhorar o perfil de dívida das empresas, isso tende a empurrar recursos do conforto da renda fixa para o risco da renda variável. Um ajuste marginal das carteiras pode servir de novo impulso para as ações.

E esse capital, vale dizer, tende a ser mais resiliente do que o dinheiro especulativo que investidores estrangeiros vêm depositando em ações brasileiras como forma de diversificação fora dos Estados Unidos, em um mundo tomado pelo caos dos conflitos geopolíticos e de incertezas na maior economia do mundo sob a liderança de Donald Trump.

Isso porque os recursos que migram para a renda variável em um contexto de juros mais baixos buscam capturar a melhora nos fundamentos das companhias – a redução do custo de financiamento e a evolução das perspectivas financeiras tende a se refletir nos preços das ações ao longo do tempo.

No curto e no médio prazo, esse elemento, em conjunto com o fluxo estrangeiro, deve motivar novas altas para as ações, ainda que gestores globais possam reduzir sua exposição a mercados considerados mais arriscados – caso dos emergentes – se os riscos aumentarem muito.

A verdade é que, até aqui, o fluxo de dinheiro estrangeiro segue forte: o ingresso líquido (aportes menos resgates) já chegou a R$ 46 bilhões no ano até agora, acima de tudo o que entrou no ano passado.

É esse dinheiro que tem sustentado o Ibovespa entre os melhores desempenhos globais no ano e que tende a continuar como principal catalisador das ações enquanto o Brasil for visto como um destino relativamente seguro em um cenário geopolítico turbulento.