Parecia quase um ganho certo para o investidor. Com o ciclo de cortes de juros se aproximando, havia uma grande oportunidade sobre a mesa: se posicionar em títulos prefixados ou atrelados à inflação para capturar, ao longo de 2026, o ganho com a queda das taxas em patamares historicamente elevados: afinal, na renda fixa, conforme os juros caem, o valor do papel aumenta (e vice-versa).

Até fevereiro, havia um consenso entre investidores de que o Banco Central iniciaria a redução da taxa Selic na reunião de meados de março, como, de fato, aconteceu. Porém veio em magnitude menor do que a esperada apenas uma semana antes do encontro: o corte foi de 0,25 ponto percentual.

Tudo corria bem para o plano citado até o fim de fevereiro. Foi quando vieram o início da Guerra do Irã e a subsequente escalada dos preços do petróleo, com pressão sobre a inflação.

O evento virou o mundo da renda fixa prefixada e da que é atrelada à inflação de “ponta cabeça”. O conflito antecipou um nível de volatilidade no Brasil que, eventualmente, seria esperado por volta do terceiro trimestre, perto das eleições, e, basicamente, inverteu a lógica dos juros longos.

Como resultado, quem aplicou em Tesouro Prefixado ou IPCA+ entre janeiro e fevereiro com a expectativa de embolsar a valorização nos meses seguintes deste ano passou a ver, na verdade, o saldo em reais da carteira diminuir. Em alguns casos, como o do Tesouro IPCA+ 2050, a queda dos preços alcançou 11% comparado ao melhor momento do papel em janeiro.

Esse mesmo papel registrou uma queda de 6,11% nos últimos 30 dias, ou seja, em período que coincide, não por acaso, exatamente com o início do conflito no Oriente Médio.

No caso do Tesouro IPCA+ 2040, o recuo foi de 1,90% no período. E o Tesouro Prefixado 2032 teve uma baixa de 4,01% no acumulado de março.

Tesouro Selic e CDI protegem a carteira

Ao investidor em renda fixa, resta a pergunta sobre como agir no atual cenário de incertezas. Uma das respostas é aplicar em títulos pós-fixados, ou seja, aqueles atrelados à Selic ou ao CDI.

A escolha vale, especialmente, para quem busca juntar dinheiro no curto prazo, por exemplo, para viajar ou comprar um carro. Ou seja, com planos de usar os recursos em um horizonte de até um ano.

O retorno dos títulos pós-fixados poderia ser classificado como “imbatível” na renda fixa atual. O Tesouro Selic, com a taxa básica em 14,75% ao ano e uma inflação em 12 meses até fevereiro de 3,81%, está pagando o equivalente a IPCA + 10,94% ao ano.

Mesmo levando em conta as novas projeções para a Selic no fim de 2026 e para as estimativas de inflação, o Tesouro Selic terminaria o ano com um retorno de IPCA + 8,19% anuais.

No relatório Focus, do Banco Central, as previsões apontam o IPCA em 4,31% e a Selic em 12,50% ao ano no fim de 2026. É um retorno acima daquele oferecido por qualquer título IPCA+ encontrado hoje no Tesouro Direto.

E, detalhe, o Tesouro Selic negocia praticamente sem volatilidade. Veja nos gráficos abaixo:

Nem é preciso ser especialista para perceber que o Tesouro IPCA+ subiu e desceu em ritmo de “montanha-russa”, enquanto o Tesouro Selic teve um passeio previsível e contínuo.

Esse comportamento de baixa volatilidade também vale para produtos como CDBs que rendem o equivalente a 100% do CDI. Outros produtos de baixa volatilidade são os ETFs de renda fixa que seguem índices pós-fixados.

Esses ETF são fundos que têm cotas negociadas como se fossem ações na bolsa e replicam o desempenho de índices. Os principais fundos de índice pós-fixados são o Nu CDI Tesouro Selic B3 (NCDI11), da Nu Asset, o Galapagos Renda Fixa Pós-fixado Selic (GLFT11), da gestora Galapagos, e o BTG Pactual Teva Tesouro Selic (LLFT11), do BTG Pactual.

E para quem já tem IPCA+ e prefixado na carteira?

Com uma volatilidade tão elevada, é normal o investidor ficar preocupado e, eventualmente, querer se desfazer dos papéis com medo de eventuais prejuízos – em particular ao perceber a queda do valor dos títulos em sua carteira. No entanto esse é o pior movimento.

Se você investiu em títulos prefixados ou atrelados ao IPCA, o melhor é evitar vender agora e esperar uma melhora do cenário, se quiser realmente desmontar essa posição. Ou ainda manter o papel até o vencimento, quando você vai receber exatamente o que contratou na taxa de juro.

É importante lembrar, portanto, que se desfazer dos papéis em momentos de estresse no mercado significa tornar real o prejuízo visto na tela.

A oscilação dos valores ocorre por causa da chamada marcação a mercado. O que aparece no visor é o valor do ativo naquele momento, que pode cair ou subir de um dia para o outro de acordo com variáveis tão diversas quanto as que envolvem política fiscal, monetária e eventos geopolíticos como a guerra.

O movimento de venda de títulos antes do prazo de vencimento é uma operação utilizada com frequência por investidores, segundo números do próprio Tesouro Direto.

Os dados mais recentes da plataforma mostram que o equivalente a 93,7% dos resgates antecipados em fevereiro – um total de R$ 3,3 bilhões – foi feito para títulos acima de 5 anos de vencimento. Desse total, os prefixados e os atrelados à inflação representaram cerca de 30%.

Trata-se de um aumento dos resgates com esse prazo: em 2025, mais de 60% das recompras se concentraram em títulos com vencimentos acima de 5 anos. Entre os papéis que foram resgatados antecipadamente, mais de 20% tinham vencimentos acima de 10 anos.