A complicada situação financeira da Oncoclínicas já bateu nas suas emissões de dívida. A remuneração dos Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e das debêntures disparou no mercado secundário – quando o título troca de mãos via plataformas de investimento e corretoras –, refletindo a exigência de retorno maior para financiar uma companhia prestes a pedir proteção contra credores, segundo expectativas de mercado.

Em um dos casos mais relevantes, uma debênture da empresa com vencimento em novembro de 2027 foi emitida com remuneração de CDI + 1,62% – independentemente do rumo do CDI, o investidor ganharia 1,62% acima do indicador.

A taxa no mercado secundário já era de CDI + 26,4% nesta manhã de quarta-feira (8). Quem comprou esse título enfrenta um desconto relevante em relação ao valor de face: o papel é negociado a cerca de 73,8% do par.

Isso significa que, para cada R$ 100 investidos, o investidor receberia cerca de R$ 74 hoje se vendesse o título, consolidando uma perda.

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De acordo com dados da Anbima (entidade que representa instituições financeiras), essas eram as emissões relacionadas à Oncoclínicas colocadas no mercado:

Sempre que as taxas de juros dos títulos sobem, os preços caem. É como funciona a renda fixa. Por esse motivo, quem tem títulos de dívida da Oncoclínicas já vê perdas na carteira, ainda que, à primeira vista, remunerações tão altas pareçam uma “oportunidade” – e, na verdade, estão refletindo a piora na percepção de risco da empresa.

As debêntures estão, em boa parte, nas tesourarias de bancos e gestoras e podem afetar as cotas dos fundos que investem nos títulos, enquanto os CRIs estão, em sua maioria, nas carteiras de investidores de varejo, conforme profissionais de mercado consultados pelo InvestNews.

É hora de vender os papéis?

Neste momento, o investidor deve encontrar muita dificuldade de passar para a frente os títulos que têm, exatamente pela crescente preocupação com a companhia. Mas é possível tentar, caso queira, por meio das corretoras.

Na prática, os credores costumam ter poucas alternativas. Em casos grandes de crise, como o da Americanas, havia três caminhos principais: receber parte da dívida junto com instrumentos conversíveis em ações, aceitar a dívida com desconto ou simplesmente sofrer um corte elevado no valor a receber (haircut).

A última opção, em geral, funciona como padrão para quem não participa ou não vota no processo de uma eventual recuperação judicial.

Para o investidor pessoa física, a decisão de manter o título passa por uma conta simples: acreditar que vai conseguir recuperar, no futuro, mais do que o valor que o mercado já oferece hoje.

No cenário atual, isso significa apostar que o papel vai valer mais do que cerca de R$ 70 a cada R$ 100 investidos após toda a renegociação com os credores, algo que pode levar mais de um ano.

Mas essa recuperação não é integral. Há o desconto de custos, como honorários advocatícios, além de perdas impostas no próprio processo. Isso porque, ao entrar em recuperação judicial, o investidor precisa ser representado e, mesmo assim, normalmente enfrenta cortes no valor da dívida.

Além disso, há outro ponto relevante: a partir da medida cautelar, os juros deixam de ser considerados. Ou seja, o investimento para de render.

Com isso, o tempo passa a jogar contra o credor. Quanto mais longa a resolução, maior o custo de oportunidade, já que o dinheiro poderia estar aplicado em outro ativo que renda.