Os chamados juros longos, que são as taxas em horizonte de tempo mais distante, daqui a alguns anos, já começam a refletir esse cenário potencial, em um movimento que, segundo profissionais de investimento, ainda tem caminho para percorrer.
Na dinâmica do mercado, conforme um título tem queda no juro, ele se valoriza. Quem já tem esses ativos na carteira percebe esse fenômeno ao observar o saldo, que passa a aumentar.
A taxa do Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo, alcançou 6,84% nesta quarta-feira (25) e se aproximou da mínima em um ano, de 6,72%, alcançada em julho de 2025. Como consequência, o papel acumula uma valorização de 30% em 12 meses.
Já o Tesouro IPCA+ 2040 está no menor nível desde dezembro de 2025 com taxa de 7,04% ao ano. Em 12 meses, o título já se valorizou 18%.
E o papel novato do Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ 2032, que estreou na plataforma no início de fevereiro, já acumula um ganho de 1,22% no seu valor em apenas 25 dias.
A queda dos juros longos dos títulos indexados à inflação reflete a sinalização do Banco Central de que vai começar o ciclo de queda das taxas – atualmente no patamar de 15,00% ao ano – na próxima reunião de política monetária, marcada para 17 e 18 de março.
As grandes questões para os investidores agora são: qual o ritmo dos cortes e até onde vai o ciclo de redução das taxas.
O mais recente boletim Focus do Banco Central, que coleta as projeções de profissionais do mercado, mostra que as expectativas apontam para uma taxa Selic de 12,13% ao ano no fim de 2026. Essa redução de juros representa uma média de corte de 0,41 ponto percentual por reunião neste ano.
Ou seja, embute uma visão de que a autoridade pode começar o ciclo com cortes de 0,25 ponto nos dois próximos encontros e acelerar para 0,50 a partir da reunião de junho.
Mas e se o ritmo for mais forte? Parte do mercado já começa a traçar um cenário no qual o BC tenha de começar já cortando 0,50 na taxa básica de juros e acelerar para 0,75 ponto nas últimas reuniões do ano. Um dos que enxergam esse movimento é o diretor da Itaú Asset, Bruno Serra Fernandes.
Para o gestor, que ocupou o cargo de diretor de Política Monetária no BC, a instituição tem mais do que sinalizado que vai começar o ciclo de reduções de juros com um corte de 0,50 ponto. “Para mim, isso já está dado”, afirmou durante o evento BTG Summit, nesta quarta-feira (25) em São Paulo.
O cenário base da Itaú Asset é a de uma Selic em 11% ao ano no fim de 2026. Outro especialista que enxerga a taxa básica menor do que os 12% previstos atualmente pelo consenso de mercado no fim do ano é Marco Freire, gestor de investimentos da Kinea. “Esse nível ainda é o dobro dos juros atuais de outros emergentes, como o México e a África do Sul. A Selic pode ficar abaixo disso.”
Esse cenário de ritmo de cortes mais acentuado ainda não se reflete nos preços de títulos públicos. Isso significa que uma queda mais rápida dos juros efetivamente concretizada em março pode levar a uma redução também mais aguda das taxas do Tesouro IPCA+, com valorização dos papéis.
Como esse movimento pode ficar mais intenso, significa que ainda há uma “janela” de oportunidade aberta para quem investe em títulos atrelados à inflação. Quem comprar agora estará “travando” uma taxa em um nível alto para padrões históricos. E antes que, potencialmente, caia ainda mais.