Em um vídeo no TikTok com 62 mil visualizações, a influenciadora Nananaths convida os seguidores a baterem perna com ela pelo shopping center. Bem na linguagem da internet, ela diz “POV [point of view]: somos amigas passeando no MorumbiShopping”. Passa por lojas de roupas, vai tomar um café, anda na escada rolante.

Outro vídeo, feito por outra usuária do TikTok no Shopping Cidade Jardim, um dos endereços do varejo de luxo em São Paulo, passou das 324 mil visualizações — e os comentários são quase uma disputa para ver quem conhece melhor aquele shopping.

@nananaths

meus favs do MorumbiShopping em SP 🩷 café gelado, livros, looks e tênis! alguém já leu esse quadrinho? 👀 – publi @MorumbiShopping

♬ som original – nath araujo

Esses vídeos não são anúncios. Ao menos não exatamente. São passeios, compartilhamento de experiência e criação de conteúdo. E dizem muito sobre como a relação entre o consumidor mais jovem, muitos da Geração Z, e o shopping center está se reconfigurando no Brasil.

Não é que o shopping tenha perdido espaço aqui.

Ao contrário: a indústria nunca deixou de ser um destino desejado pelos brasileiros — dos rolezinhos da periferia paulistana, em 2013 e 2014, que lotavam shoppings da classe média como ato de pertencimento e aspiração, até os vídeos de redes sociais de hoje, em que clientes documentam passeios por corredores de luxo. O que mudou é o porquê de se ir. E como se chega lá.

Mas os números mais recentes do setor mostram que as administradoras têm precisado se reinventar para manter esse interesse. Dados da Abrasce, associação que representa o setor, apontam queda de 6,2% nas visitas mensais entre 2019 e 2025.

No ano passado, a média foi de 471 milhões de visitas ao mês, ante 476 milhões em 2024 — o primeiro recuo desde a retomada pós-pandemia.

E, embora o faturamento nominal tenha crescido 4,2% no mesmo período, chegando a R$ 200,9 bilhões, as vendas reais caíram 25% quando descontada a inflação. São 658 shoppings em operação no país, com taxa de ocupação média de 95,4% – uma das mais altas da série histórica –, mas o consumidor que frequenta esses espaços é, em volume, menor do que antes da pandemia.

“O shopping saiu da posição de ser a falta de opção para ter que ser uma opção”, diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, especializado na análise do consumo do brasileiro. “Se é uma escolha, o shopping tem que se esforçar mais para ser escolhido.”

A isca para o shopping center

Nos Estados Unidos, uma reportagem do Wall Street Journal de março contou que a Geração Z estava “ressuscitando” os shoppings americanos — centros de consumo que haviam ficado esvaziados nas décadas anteriores com o avanço do e-commerce. Por lá, o fenômeno é de recuperação.

No Brasil, o desafio é outro: não se trata de reconquistar um público perdido mas de manter relevância para um consumidor que nunca foi embora. E que também ficou com muito mais opções de onde ir e o que fazer.

Essa escolha, hoje, começa nas redes sociais. O consumidor descobre produtos no TikTok, salva referências no Instagram, pesquisa preços no celular, e só então vai ao espaço físico, não necessariamente para comprar, mas para viver uma experiência que a tela não entrega.

“A originação acontece no telefone, na rede social, e aí ele vai ao shopping porque quer a experiência de sair com a sacola”, afirma Armando d’Almeida, CFO da Multiplan, que tem o MorumbiShopping e o Barra Shopping em seu portfólio, entre outros. “Antes, em especial na pandemia, era o unboxing, a caixa chegando em casa. Agora é a experiência de ir, escolher e sair com a sacola.”

É essa lógica que tem levado grupos que administram shoppings a investir cada vez mais em conteúdo digital. Não como substituto da visita física mas como caminho para ela. A Multiplan fez ações com o TikTok e transmissões ao vivo em datas importantes de varejo, como o Dia das Mães.

A Allos lançou o Live Shopping, um projeto que instala estúdios de transmissão dentro dos shoppings para que lojistas façam lives no TikTok Shop. O primeiro a receber os equipamentos é o Shopping da Bahia, em Salvador, seguido pelo NorteShopping, no Rio de Janeiro.

Os estúdios são cedidos de forma gratuita para os lojistas e incluem suporte técnico e capacitação. A ideia é transformar o ponto físico em espaço de produção de conteúdo e, ao mesmo tempo, em vitrine digital para consumidores de qualquer lugar do Brasil.

A SYN, grupo que opera o Shopping Cidade São Paulo, o Tietê Plaza, ambos na capital paulista, e o Metropolitano Barra, no Rio, acompanha o mesmo movimento.

“As tendências nascem nas redes sociais, impulsionadas por creators e tiktokers, fazendo com que marcas hypadas despertem desejo muito antes de o consumidor chegar ao ambiente físico”, diz Cindy Beni, gerente comercial da SYN.

Para a executiva, o shopping passou a funcionar como um espaço que materializa essas tendências. Ela cita a abertura da primeira loja da chinesa Mixue do Brasil no Shopping Cidade São Paulo, em abril, como exemplo: o alto engajamento digital da marca gerou filas, conteúdo espontâneo nas redes e consumo imediato no espaço físico.

O Iguatemi, com shoppings voltados para o consumidor de alta renda, aposta em uma estrutura própria para isso.

O Iguatemi Daily, hub de conteúdo do grupo, já supera 200 milhões de acessos e cresceu mais de 550% em seguidores em 2025. Em parceria com influenciadores como Sasha Meneghel e João Guilherme, as ações geraram mais de 56 milhões de visualizações e 1,1 milhão de interações no ano passado.

“Entendemos as redes sociais como uma extensão da experiência Iguatemi”, diz Renata Zitune, diretora-executiva de marketing do grupo.

Menos fluxo, mais tempo

Por trás dos números de queda há uma transformação no perfil da visita. O tempo médio de permanência subiu para 80 minutos, acima dos cerca de 73 minutos em anos anteriores. E pesquisa da Abrasce mostra que 52% das visitas são motivadas por alimentação e lazer, não por compras, que respondem por 43%.

O dado reforça o que executivos do setor descrevem como a transformação do shopping em “terceiro lugar”: um espaço de convivência entre a casa e o trabalho, em que a compra é consequência, não razão.

Para Glauco Humai, presidente da Abrasce, a equação reflete a nova natureza da visita. “O consumidor que vai menos ao shopping, quando vai, tem mais intenção, fica mais tempo e acaba utilizando outros serviços além da compra”, diz. “A compra virou uma commodity. O que está em volta dela — o passeio, a alimentação, o momento agradável — é o que o shopping entrega.”

“O consumidor não precisa mais ir ao shopping para comprar na C&A”, diz Meirelles, do Instituto Locomotiva. “Mas, se ele entra na loja, vai ter uma experiência que não teria online. O desafio é fazê-lo entender que vale a pena ir.”

Esse argumento tem respaldo nos dados da Multiplan. A empresa investiu quase R$ 2 bilhões em expansão e revitalização de ativos nos últimos três anos. O New York City Center, no Rio, que passou por reformas sem expansão de área, dobrou as vendas em cinco anos.

Para Cecília Ligiéro, diretora de marketing da Ancar, o engajamento com o consumidor mais jovem passa também por uma reinvenção da linguagem. O grupo lançou um programa de relacionamento gamificado em que o cliente acumula pontos por visitas, compras, participação em eventos e leitura de QR codes espalhados pelos shoppings.

Amais, programa fidelidade da Ancar que tem modelo gamificado (Foto: Divulgação)
Amais, programa fidelidade da Ancar que tem modelo gamificado (Foto: Divulgação)

A lógica se aproxima mais do Duolingo do que do varejo tradicional: há desafios mensais dentro do aplicativo, metas a cumprir e recompensas a resgatar a cada interação.

“O cliente dizia: vim, comi, comprei, fui ao evento — e não ganho nada. Criamos algo mais dinâmico”, explica Ligiéro. Quando saiu em busca de referências para o modelo, o grupo não encontrou nada parecido em outros shoppings, e decidiu olhar para fora do setor.

A reinvenção passa também pelos espaços físicos.

No terraço do Shopping Botafogo, da Ancar, uma moldura temática instalada em frente à vista para o Pão de Açúcar vira ponto de foto — e de conteúdo espontâneo nas redes. “Todo mundo está no shopping com o celular na mão”, diz Ligiéro. “Como a gente conecta isso à experiência?”

O retrato é de um setor que aprendeu a competir não só com o e-commerce mas com o sofá.

“O shopping não compete mais apenas com outras lojas”, observa Gabriela Reis de Melo, coordenadora de insights da Consumoteca, no podcast Portas Abertas, da Abrasce. A consultoria elaborou o Censo de Shopping Centers em parceria com a associação.

“Ele compete com o streaming, com as redes sociais, com a academia, com o desejo de ficar em casa. Para merecer o deslocamento, precisa entregar algo que justifique a saída.”

E, pelo jeito, os vídeos de passeio no TikTok e no Instagram também ajudam.