“Garantido pelo FGC”. O marketing do FGC ajudou o Master a inflar uma carteira que, no fim de 2024, alcançou quase R$ 31 bilhões. O dinheiro foi captado por meio de CDBs com retornos que chegavam a 140% do CDI. E, ainda hoje, mesmo depois da venda de 58% da instituição para o Banco de Brasília (BRB), algumas plataformas de investimento continuam oferecendo o título a taxas de retorno acima da média do mercado.
Mas será que vale a pena colocar dinheiro nesses CDBs?
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo InvestNews, a aquisição de parte do banco pelo BRB pode dar fôlego ao Master para endereçar o problema, porque assegura uma liquidez que sozinho ele não teria. Mas os riscos não foram totalmente eliminados.
O problema é que o volume de vencimentos no curto prazo é considerado grande e o cenário de juros rema contra. O grande ponto complicador: o balanço do Master mostra que há uma concentração de mais da metade dos vencimentos do estoque de CDBs apenas em 2025. São R$ 16 bilhões a serem pagos até o fim do ano. Desse montante, R$ 7,7 bilhões vencem até o meio do ano.
Risco sistêmico ou oportunidade?
A questão é que a estratégia agressiva na captação de recursos cria um tipo de estrutura que tem forte dependência de novas emissões. Ou seja, conforme as obrigações começam a vencer o banco precisa emitir mais CDBs para fazer a troca de vencimentos. E isso gera preocupações sobre a liquidez da instituição.
Após o anúncio de venda de 58% do capital do Master para o BRB, o grupo divulgou uma redução nas taxas de captação dos CDBs em 0,3 ponto percentual para todos os prazos. Ainda assim, os retornos estão acima da média do mercado.
Em um momento no qual o juro básico está em 14,25% ao ano, significa que um CDB que paga 140% do CDI, retornaria hoje uma taxa nominal de cerca de 20% anuais. Algo como IPCA mais 14,5%. E se a Selic alcançar 15% até o fim do ano, como indicam as projeções de analistas e conomistas presentes na pesquisa Focus, do Banco Central, a fatura subiria para 21% ao ano.
É por isso que ainda não está claro se o banco vai conseguir honrar esse custo todo. “Mesmo com FGC, há pouca transparência sobre se o banco tem capacidade para continuar pagando todos os compromissos.”
O Citi divulgou um relatório sobre o balanço do banco, mostrando que quase 87% dos financiamentos que o banco concede são feitos usando os depósitos a prazo (funding), com taxas pós-fixadas entre 96% e 140% do CDI e taxas pré-fixadas entre 3,5% e 16,9%. Ou seja, o banco depende da captação de CDBs para continuar oferecendo empréstimos.
FGC ainda garante, mas o fôlego está mais curto
O problema é que o risco começa a ultrapassar o próprio FGC. O Master sozinho representa mais da metade do dinheiro disponível no fundo para resgatar investidores em todo o sistema bancário. E, como se pode notar pela matemática simples, o fôlego para pagar 20% ao ano ficou curto.
O Fundo Garantidor faz o ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF aplicados dentro de uma mesma instituição. Isso para produtos bancários como os depósitos a prazo, categoria que abrange os CDBs, depósitos à vista, a caderneta de poupança, as letras de crédito imobiliário e do agronegócio (LCI e LCA) e outros títulos menos conhecidos. Não entram nesse guarda-chuva produtos securitizados, como os certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio (CRI e CRA) ou fundos de investimento.
Por exemplo, se uma pessoa física tiver menos de R$ 250 mil em uma carteira com CDBs, LCIs e LCAs na mesma casa ainda estaria protegida. Porém, é preciso lembrar que todo o valor que ultrapassar esse teto fica fora da blindagem. Então quem está no limite do FGC corre um risco, porque os rendimentos creditados acima desse nível já perdem o seguro.
Outro ponto é que se a pessoa tiver CDBs do BRB e do Master vai ter de fazer uma redistribuição desses recursos. Uma vez que as marcas vão se tornar uma só, as aplicações de ambas as casas vão ter de ser somadas para o cálculo de limite da proteção. Funciona assim: se você tiver R$ 250 mil no Master e R$ 250 mil no BRB, então metade da sua carteira vai ficar desprotegida assim que a fusão for aprovada.
O ritmo de captações do Master no segundo semestre de 2024 levou a uma discussão no próprio sistema financeiro sobre o potencial problema que isso poderia acarretar para o setor. Isso porque, se o banco quebrasse, seu passivo garantido consumiria mais da metade da liquidez do FGC.
Diante do problema, as maiores instituições do país levaram ao Banco Central e ao FGC uma proposta de aperto nas regras de captação por emissores pequenos e médios que dependem muito dessa garantia. A ideia é que bancos que ultrapassarem 50% da captação assegurada pelo FGC paguem uma contribuição adicional de 0,1% sobre o valor dos depósitos elegíveis.