O bitcoin (BTC) terminou 2025 em queda, deixando boa parte dos investidores frustrados. “Cadê a superalta projetada pelos especialistas?”, muita gente se perguntava. Ainda assim, havia uma certa esperança de que, no início de 2026, a maior criptomoeda do mercado pudesse recuperar o fôlego e brilhar de novo – talvez retomando a velha narrativa do “ouro digital”. Ledo engano.

Às vésperas do fim do mês, o bitcoin caminha para fechar janeiro com queda de 6%, na casa dos US$ 82 mil. É o pior janeiro desde 2022, quando a cripto recuou 16,6%. E coisa não faltou para atrapalhar o desempenho do BTC – e do mercado como um todo – nesses primeiros dias do ano.

O primeiro baque veio do cenário geopolítico, que afastou investidores de ativos de risco. Difícil alguém não ter ficado grudado na TV no início de janeiro acompanhando as notícias sobre a captura do ditador Nicolás Maduro. O bitcoin até ensaiou uma alta em meio ao burburinho sobre supostas reservas de BTC da Venezuela, mas o movimento não foi adiante.

Na sequência, vieram os dados de inflação e emprego nos Estados Unidos. Os números até pareciam mais comportados, alimentando a narrativa de que os juros poderiam começar a cair logo. O bitcoin voltou a flertar com os US$ 95 mil – oh, beleza – e passou alguns dias acima desse patamar.

Mas o alívio durou pouco. Logo surgiu um impasse em torno da regulamentação cripto nos EUA, discussão que segue em aberto. Um dos principais pontos de atrito envolve o pagamento de rendimentos por stablecoins, algo que os bancos não curtem nem um pouco. A decisão foi adiada – e o bitcoin voltou a escorregar.

Depois, Donald Trump ressuscitou o discurso de que quer a Groenlândia por razões de segurança nacional. Houve protestos na Dinamarca e a União Europeia entrou na conversa e ameaçou retaliar com tarifas. Foi um falatório só. Resultado: mais instabilidade e nova rodada de queda para a maior cripto do mercado.

Para completar o quadro, o Japão também virou fonte de preocupação. A alta rápida nos juros dos títulos públicos do país, em meio a temores fiscais, começou a mexer com o mercado global de juros. Por anos, o dinheiro barato japonês ajudou a sustentar investimentos mais arriscados ao redor do mundo. Com essa engrenagem ameaçando travar, o fluxo de capital fica mais apertado – e ativos como criptomoedas acabam sentindo o impacto.

Por fim, chegamos à última semana do mês – e aí a coisa desandou de vez. Teve venda forte no setor de tecnologia após resultados meia-boca da Microsoft, escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã por causa do acordo nuclear, risco de novo shutdown em Washington, juros elevados nos EUA (sem sinal de cortes no curto prazo) e mais de US$ 1 bilhão em resgates nos ETFs de bitcoin. Combo completo. Não há bitcoin que aguente.

O que esperar de fevereiro?

Prever o próximo capítulo é missão impossível. O que dá para dizer é que, com o Trump no poder, o ruído geopolítico deve continuar e, em momentos assim, investidores tendem a correr para ativos considerados mais seguros, como o ouro (o que é bem ruim para criptos). Ainda assim, dentro do universo das moedas digitais, o bitcoin segue sendo a principal referência – especialmente no longo prazo.

“Cravar o timing exato de uma recuperação é difícil, mas o período atual, especialmente ao longo de fevereiro, tende a ser interessante para acumulação gradual em patamares mais baixos, enquanto o mercado passa por um processo de consolidação antes de uma nova pernada de alta”, disse Paulo Camargo, embaixador da OKX, CIO e cofundador da Underblock.

Marcelo Person, diretor de tesouraria cripto e mercados da Foxbit, falou que mesmo em períodos de volatilidade, a liquidez e a função de reserva de valor do BTC, mais adoção institucional – que continua forte – são impulsionadores positivos para o BTC.

Julián Colombo, diretor sênior de Políticas públicas e estratégia para a América do Sul da Bitso, vai na mesma linha. Ele disse que o criptoativo tende a funcionar como uma base de estabilidade nos portfólios, “capturando os fluxos de entrada e saída de capital de forma mais previsível do que as altcoins”.

E as altcoins?

No meio dessa bagunça toda, as altcoins – ou seja, todas as criptos que não sejam o bitcoin – caíram ainda mais em janeiro. Algumas delas, como a XRP (XRP) e dogecoin (DOGE) – que ganharam ETFs nos EUA final do ano passado – viram seus preços caírem para níveis de 2024. O ethereum (ETH) caiu quase 10% em janeiro, enquanto a solana (SOL) recuou cerca de 8%

Como têm mercado e liquidez menores, essas primas do BTC costumam sentir com mais intensidade os movimentos de sobe e desce. Em momentos de estresse, quando investidores reduzem exposição ao risco, o dinheiro tende a sair primeiro dos ativos menores e ir para os mais consolidados.

E o que esperar delas em fevereiro?

Volatilidade também. Entre as alternativas fora do bitcoin, especialistas recomendam atenção às criptos mais consolidadas, como ethereum e solana mesmo. Elas tendem a atravessar melhor períodos de instabilidade, especialmente por estarem ligados a setores que seguem aquecidos no mercado cripto, como tokenização, finanças descentralizadas (DeFi) e o boom das stablecoins.

Riscos

Vale sempre reforçar que criptomoedas são ativos de alto risco. Não é recomendável investir nelas o dinheiro que você vai precisar para despesas do dia a dia – como pagar o pão de amanhã. Por isso, especialistas costumam sugerir que a exposição a cripto seja limitada, geralmente a menos de 3% do portfólio, justamente por causa da volatilidade. Além disso, esses ativos fazem mais sentido para quem pensa no longo prazo, e não como uma aposta de curto prazo ou ferramenta de especulação.