Chegou a vez dos bureaus de crédito entrarem na corrida para estrear na bolsa de brasileira: a Boa Vista SCPC (BOAS3) começa a negociar suas ações na B3 nesta quarta-feira (30), após ter movimentado R$ 2,17 bilhões em sua oferta pública inicial de ações (IPO, em inglês). O preço fixado por ação foi de R$ 12,20. Coordenaram a oferta os bancos JPMorgan, Citi e Morgan Stanley.

Os papéis da companhia (BOAS3) estrearam com fortes ganhos nesta quarta-feira (30). Por volta das 10h22, as ações BOAS3 tinham alta de 5,98%, cotadas a R$ 12,93.

A companhia está listada no Novo Mercado, maior nível de governança da bolsa de valores. Ao todo, 154,6 milhões de ações ordinárias da companhia foram ofertadas em dois blocos:

Após a oferta pública inicial, a Boa Vista terá um freefloat de 33,84% do seu capital social. Freefloat é o montante de ações com livre circulação no mercado.

Para onde vai o dinheiro?

Os recursos da oferta primária, que representam 54% das ações, movimentaram R$ 1,3 bilhão. Deste valor, 94% serão destinados para financiar novas aquisições e 6% para investir em tecnologia. Segundo a Suno Research, os principais objetivos com as aquisições são:

Como a empresa atua?

Com mais de 60 anos, a Boa Vista SCPC é um bureau de análise de crédito, ou seja, uma empresa que coleta e vende informações sobre a capacidade de pagamento dos consumidores ou o histórico deles para honrar suas dívidas. Os clientes da Boa Vista pagam uma taxa para obter estes dados. Entre seus principais concorrentes estão a Serasa Experian, SPC Brasil, Quod e Fico Analytic Consulting.

Sob o comando do fundo de private equity TMG Capital, a Boa Vista se tornou a segunda maior empresa em gestão e analise de dados do Brasil e a que teve maior crescimento nos últimos cinco anos em receita líquida. Segundo a Eleven Financial Research, no primeiro semestre de 2020, a Boa Vista tinha uma receita líquida de R$ 303 milhões.

O lucro líquido da companhia saltou de R$ 17 milhões em 2017, para R$ 47 milhões em 2018. No ano passado foi de R$ 74,3 milhões. O nível de endividamento também vem caindo. Em 2017 o grau de alavancagem era de 1x o ebitda e em 2019 a proporção foi de 0,82x. Veja dados financeiros:

Dados financeiros (R$ milhões)2017 2018 2019 1S191S20
Receita Líquida572601662316303
Serviços para decisão407463529252251
Serviços para recuperação1651371336452
Lucro Líquido1747743224
EBITDA Ajustado185233285135128
Margem EBITDA Ajustado (%)32,3%38,9%43,1%42,8%42,4%
Dívida Bruta237262291243363
Dívida Líquida185144234168224
Dívida líquida/ EBITDA ajustado1,00 x0,62 x0,82 xn/an/a

A companhia concentra a sua receita em dois tipos de serviços: os de decisão e os serviços de recuperação. Os serviços de decisão foram responsáveis por 80% das receitas da Boa Vista em 2019, como soluções analíticas, relatórios de risco, soluções de marketing e soluções para o consumidor.

Os serviços de recuperação representaram 20% das receitas no ano passado. Eles auxiliam as empresas na recuperação de dívidas com soluções digitais, impressas e relatórios.

Comprar ou não comprar?

As casas de analise Eleven Financial e Suno Research não recomendavam a participação dos investidores no IPO da companhia e também são resistentes quando o assunto é a compra da ação no mercado secundário.

Para Carlos Daltozo, head de renda variável da Eleven Financial, o valor da ação está alto e não garante forte valorização do papel nos próximos meses. “Nossa estimativa de preço é de R$ 11 até o final de 2021. Mesmo se a ação sair no piso, não vemos espaço para valorizar e não seria um bom investimento”, explica.

O mercado já teria precificado oportunidades como o Cadastro Positivo e o Open Banking, o que deixa a Boa Vista sem espaço para uma alta significativa.

Daltozo recomenda que os investidores aguardem até a ação estabilizar seu preço antes de comprar o papel. Nem mesmo para dividendos a Boa Vista apresenta um cenário claro. “É preciso esperar a política de distribuição de lucros, mas também não recomendamos a compra do papel para esta estratégia”, reforça.

Para Rodrigo Wainberg, analista da Suno Research embora o lucro da companhia aumentou nos últimos anos é importante observar que isso não foi necessariamente pelo crescimento da receita da Boa Vista e sim pela redução de gastos com postagens de carta. Ele avalia que a posição competitiva da empresa também não é das melhores, esta é muito menor que a Serasa.

Para o analista a Boa Vista é um case de crescimento com base nas aquisições que acontecerão com o dinheiro do IPO, que podem ser bem sucedidas ou não. “No segundo caso, provavelmente o múltiplo cai bastante e o investidor perde seu dinheiro de forma quase permanente, mesmo a companhia dando lucro”, adverte Wainberg.

Em relatório, a Suno Research defende que nos últimos anos os ganhos da receita foram constantes porém não expressivos, o que deve permanecer mesmo após a abertura de capital. “Entendemos que se trata de um setor muito competitivo, de rápida adaptação e que existem riscos elevados quanto a substituição ou não contratação dos seus serviços. Assim, entendemos que haverá dificuldades para atingir ganhos expressivos de receitas” aponta a casa de análise.

Wainberg também acredita que o IPO da Boa Vista muda pouca coisa no setor, apesar de ser o único bureau de crédito listado na B3.

Veja abaixo as vantagens e desvantagens apontadas pelos especialistas ao investir nas ações da Boa Vista:

PONTOS POSITIVOS

PONTOS NEGATIVOS