O Novo Desenrola Brasil terá impactos diferentes para juros, câmbio e a bolsa no Brasil. O programa de renegociação de dívidas que prevê o uso do FGTS para quitar débitos pode trazer impulso extra ao consumo e levar a mais altas de preços localmente.

Isso em um momento no qual já existem crescentes pressões inflacionárias derivadas da guerra no Oriente Médio.

Com mais dinheiro circulando (FGTS liberado e dívidas quitadas), o consumo das famílias tende a subir. Se essa demanda pressionar os preços, o Banco Central pode ter de manter a Selic em patamares ainda mais elevados por mais tempo para conter a inflação.

O boletim Focus do BC, que reúne projeções de instituições financeiras sobre juros, PIB, câmbio e inflação, mostra que o consenso do mercado atualmente aponta para uma taxa básica de 13% no fim de 2026. Trata-se de um nível bem acima dos 12% estimados antes do início da guerra.

Juro pós-fixado pode se manter no topo

Várias casas de análise como Itaú, Goldman Sachs, SulAmérica e ASA, já revisaram suas expectativas para a Selic em 2026 e veem a taxa básica entre entre 13,25% e 13,50% ao ano. Se for considerado o IPCA projetado pelo Focus no fim deste ano de 4,86%, significa que o juro real, ou seja, aquele acima da inflação, vai se manter entre 8,39% e 8,64% na virada para 2027.

Na renda fixa, os juros pós-fixados, caso da Selic e do CDI, terminam o ano pagando o equivalente a IPCA+ 8,39%, na melhor das hipóteses. Os 14,50% do juro básico atual representam um retorno de IPCA + 10,13% ao ano, usando a inflação pelo IPCA-15 em 12 meses até abril de 2026.

Para quem busca aplicações de curto prazo – que vão ter de movimentar o dinheiro em alguns meses – o programa de renegociação de dívidas reforça o apelo dos investimentos com liquidez diária atrelados à Selic e ao CDI, como o Tesouro Selic, CDBs que pagam 100% do CDI e fundos DI.

Se ocorrer pressão inflacionária extra, o cenário pode levar, no curto prazo, a uma subida de taxas no caso de títulos públicos como o Tesouro Prefixado e o Tesouro IPCA+. Na prática, significa que a volatilidade de preços no Tesouro Direto, como aquela vista o início da guerra do Irã, pode aumentar de novo.

Por outro lado, o “carrego” do IPCA+, ou seja, o ganho ao longo do tempo por manter o título na carteira, aumenta se a inflação ficar maior. Isso significa que o investidor com um horizonte de aplicação de médio e longo prazos, ou seja, que possa ficar mais de um ano sem mexer na aplicação, tende a encontrar uma janela para travar taxas mais altas e se proteger de uma inflação mais elevada nos próximos meses.

Consumo mais forte ajuda empresas cíclicas

No caso da bolsa, um fortalecimento do consumo pode ajudar ações de varejistas, como Magalu, Casas Bahia e supermercados, além de administradoras de shoppings, entre as quais Multiplan, Allos e Iguatemi.

Outro setor beneficiado é o financeiro. Um aumento na quantidade de “nomes limpos” melhora a qualidade das carteiras de crédito, libera recursos provisionados para inadimplência e leva a um crescimento das operações de financiamento.

Há ainda um vento favorável às incorporadoras que atuam no segmento de imóveis populares. Com o pagamento das dívidas, mais famílias ficam elegíveis ao programa Minha Casa Minha Vida. Construtoras como Tenda, Cury, Plano&Plano e MRV podem ganhar impulso extra nas vendas.

Dólar pode ganhar mais força

No câmbio, assim como na inflação, o efeito indireto tende a ser negativo. Se houver uma percepção de que o programa aumente o risco de piora do desequilíbrio fiscal, devido ao uso do FGO (Fundo Garantidor de Operações) nas negociações das dívidas, o dólar pode testar novos patamares acima do atual.

O FGO vai ser o fiador das operações sem garantias, para que os bancos tenham mais incentivo para renegociar descontos. Na prática funciona da seguinte maneira: a instituição que emprestou o dinheiro assume menos risco, pois se o devedor não pagar, o FGO cobre a maior parte da dívida.

Os recursos do fundo vêm do Tesouro Nacional. Por isso, há preocupações de que, se houver uma piora generalizada da inadimplência, o FGO tenha de ser socorrido pelo governo em um momento de fragilidade fiscal.

O risco de um cenário de piora de inadimplência atualmente, por enquanto, é baixo.

Além disso, a tendência para o dólar ainda é de se manter enfraquecido uma vez que as forças estruturais desse movimento ainda estão em cena.

Os investidores globais ainda buscam uma diversificação internacional para reduzir a concentração nos EUA. Os emergentes têm se beneficiado desde o ano passado desse movimento, com um fluxo mais forte de capital para mercados como o Brasil.

O cenário geopolítico também reforçou a visão positiva sobre o Brasil no curto prazo. Com a alta dos preços do petróleo, por exemplo, o país recebe mais recursos, uma vez que é exportador líquido da commodity.

O Brasil também se beneficia com a percepção de fazer parte de uma área sem conflitos ou grandes questões geopolíticas. Outra força vem dos juros em patamares muito elevados, o que atrai recursos de fora em busca de ganhos com o chamado diferencial de juros: a Selic atual de 14,50% ao ano representa uma distância de 10,75 pontos percentuais comparada às taxas americanas, por exemplo.