Isso vai mudar agora, mas não valerá para qualquer título do Tesouro. Vamos por partes.
O Tesouro anunciou no ano passasdo que, a partir deste janeiro de 2026, começa a modalidade de saques (e de investimentos) 24 horas por dia, sete dias por semana – ainda que não tenha dado uma data específica para a novidade.
Trata-se de um objetivo antigo. O próprio Drex, o “real digital”, estava sendo desenvolvido para permitir esse tipo de coisa. O projeto pausou, mas o fato é que encontraram um caminho para isso sem a necessidade de uma tecnologia completamente nova. Vão simplesmente “plugar” o Tesouro ao Pix, que já funciona 24/7.
A princípio, não dá para plugar todo e qualquer título (por motivos que vamos ver adiante). A operação vai começar com um título novo, cujo nome provisório é Poupança de Emergência. Trata-se de uma forma de o Tesouro Direto concorrer de forma mais direta com as “caixinhas” dos bancos – que permitem saques 24/7.
Esse título será uma espécie de par do Tesouro Selic. Ou seja: vai seguir a taxa básica de juros do Banco Central. Mas com uma difeferença.
O mundo dos títulos públicos é complexo. Na prática, você não faz um “saque”. Você vende seu título para o mercado. Daí as restrições de horário. Também existem oscilações nos preços. No caso dos títulos prefixados e IPCA+, elas são violentas. No caso do Tesouro Selic, mínimas, mas ainda assim existem. Via de regra, ele sobe de valor todo dia. Mas já houve momentos em que isso não aconteceu, por conta de volatilidades de mercado.
Como o novo título título isso não vai acontecer. O Tesouro vai garantir que o saldo suba diariamente, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença do mercado, sempre com referência na juro básico do BC. Se ele pagar 100% da Selic, hoje em 15% ao ano, daria 0,0006% ao dia. Em números mais amigáveis, R$ 5,59 por dia (antes de impostos) para cada R$ 10 mil aplicados.
Não se sabe, porém, se a ideia é pagar 100% da Selic. Para comparar: o título Tesouro Selic com vencimento em 2031 paga 100,1% do juro básico. O novo tenderia a render abaixo disso, de outra forma o Tesouro Selic perderia a razão de existir.
Também é basicamente impossível que algum dia venha a existir um título prefixado ou IPCA+ com saque 24 horas por dia, justamente porque o valor deles oscila demais, a depender do dia.
Exemplo: de 4 para 5 de dezembro, o Prefixado com vencimento em 2031 desabou 2,5% em um único dia. É porcentagem de renda variável. Esses títulos são sensíveis a notícias que mudam o rumo dos juros para o longo prazo – como uma eleição presidencial.
Uma notícia política que desanime o mercado no fim de semana faria com que esses títulos abrissem para negociação na segunda-feira muito abaixo do patamar em que estavam na sexta. Isso virtualmente impede o sistema de “saques aos finais de semana”. O Tesouro perderia dinheiro.
Mas essa restrição quase física aos prefixados e IPCA+ não é um problema. Reserva de emergência deve ficar, obrigatoriamente, em produtos que sigam a Selic (ou o CDI, cãozinho fiel da taxa básica). E isso nos leva de volta ao nome provisório do novo título, aquele que já vimos:
‘Poupança de Emergência’
O apelido não deixa dúvidas. O título também chega para brigar com a Caderneta de Poupança. A tarefa não será fácil. Ela reúne uma base de 32 milhões de pessoas; o Tesouro Direto, só 3,3 milhões.
Do ponto de vista do Tesouro isso é um problema. O dinheiro que vai para a Poupança não financia as contas do governo, vai para financiamento imobiliário. Logo, é do interesse do governo puxar mais gente para o Tesouro Direto.
Mesmo que não fosse, deveria ser do interesse do investidor. A Poupança rendeu 8% líquidos em 2025 (6% + TR de 1,97%, sem Imposto de Renda). O Tesouro Selic deu 12% líquidos (já descontando o imposto). Uma difereça abissal. Isso sem falar que o saldo não sobe todo dia, só na “data de aniversário”. Sacou antes, perdeu o rendimento das últimas semanas.
Os títulos públicos, vale notar, ganharam nos últimos tempos um aliado de peso: o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Em eventos recentes, o chefe da autoridade monetária enfileirou críticas à Caderneta. Em novembro, Galípolo chamou a poupança de “Robin Hood às avessas” – ou seja: “rouba dos pobres para dar aos ricos”.
Em termos menos litrerários: a poupança paga juros risíveis aos depositantes, muitas vezes das camadas mais pobres da população, e, na outra ponta, subsidia juros mais suaves para que o pessoal dos andares mais acima da pirâmide social comprem imóveis. Vale lembrar que o dinheiro usado nas linhas de habitação popular não é o da Poupança, mas o do FGTS.
A decadência da Poupança
Mesmo rendendo pouco, a Caderneta ainda se segura no posto de aplicação financeira mais popular, com preferência de 23% dos brasileiros, segundo dados da Anbima. Mas essa participação vem caindo ano a ano. A última pesquisa da entidade, que representa o mercado de capitais, mostrou uma queda de seis pontos percentuais nessa fatia.
Os números de entradas e saídas também revelam que o tradicional porto seguro financeiro passa por uma crise. Desde 2021, a caderneta acumula resgates líquidos de R$ 272,7 bilhões só considerando o volume utilizado para o financiamento imobiliário no SFH, conforme os dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
A mudança no investimento mínimo
De volta ao Tesouro Direto. Desde 18 de novembro a plataforma não exige mais o valor mínimo de R$ 30 para aplicações. Fica valendo só a fórmula de cálculo de compra mínima: 1% do valor unitário de cada título.
Até a mudança, os investidores tinham de aplicar no mínimo os R$ 30 mesmo quando a fatia de 1% ficava abaixo desse valor. É o caso, por exemplo, do Tesouro Prefixado com vencimento em 2028, no qual 1% equivalia a R$ 7,82 em 31 de dezembro.
O título com maior necessidade de investimento mínimo é justamente o Tesouro Selic (R$ 180 no dia 31 de dezembro). É muito para quem quer concorrer com as caixinhas dos bancos e com a poupança. Logo, o novo título 24/7 deverá exigir um pingo menor na entrada.
Na outra ponta, o Tesouro Direto dobrou o limite mensal de aplicação. Agora dá para aportar até R$ 2 milhões a cada 30 dias.
Ou seja: há mudanças para atrair mais sardinhas e para chamar mais tubarões também. Só falta combinar com o governo. Os títulos públicos brasileiros concorrem pela atenção do dinheiro grande com os de outros países. Para atrair mais dinheiro para o financiamento da dívida pública a juros sustentáveis, só com a parte fiscal sob controle – o que parece longe de acontecer. E esse continuará sendo o grande debate em 2026.
Feliz Ano Novo.