Vamos dizer que você juntou R$ 300 mil. É o suficiente para ter uma renda extra todo mês?

Pelo juro de hoje, na casa de 14% ao ano, isso dá perto de R$ 3 mil líquidos por mês. Não importa aqui se isso parece muito ou pouco. O ponto é que juro alto engana. Essa Selic não vai durar para sempre. É juro de pico. E mesmo se durasse, o ato de sacar o rendimento inteiro todo mês iria destruir suas economias.

Com um IPCA até baixo, de 4% ao ano, R$ 300 mil se transformam no equivalente a R$ 200 mil de hoje em 10 anos. Não tem jeito. Dinheiro evapora, mesmo com inflação baixa.

Para ter uma renda extra segura, você precisa se precaver bem.

Esse é o assunto do oitavo e último episódio da série Estratégias para Viver de Renda, produzida pelo InvestNews com patrocínio exclusivo do Nubank. Até aqui, o editor-executivo Alexandre Versignassi apresentou conceitos e exemplos de como formar uma carteira geradora de renda. Agora, vamos falar sobre os cuidados básicos que você precisa tomar para preservá-la.

A regra dos 4% e por que ela pede cautela

Dividendos de ações, renda de títulos imobiliários e títulos IPCA+ conseguem produzir uma renda acima do CDI, dependendo das condições. Mas na hora de fazer um planejamento de longo prazo, você precisa ser conservador.

“As pessoas olham para o cenário atual e projetam que ele vai se repetir por duas ou três décadas. Mas, há poucos anos, os juros chegaram a 2%, com a inflação superando a Selic”, diz a planejadora financeira Letícia Camargo.

Hoje, o CDI está dando IPCA+9%. Totalmente fora da curva. A média dos últimos 10 anos foi de IPCA+4%.

É com algo nessa faixa que você precisa contar para o futuro. Se o rendimento é de 4% além da inflação, isso significa que você pode retirar 4% ao ano sem dor de cabeça. A massa bruta de dinheiro, que dá origem à renda extra, segue intacta. 4% ao ano dá 0,3% ao mês. Para R$ 300 mil, então, a margem segura de saque é de R$ 1 mil por mês. Só.

Montar uma carteira que gera renda de verdade, protegida da inflação, exige ajustar expectativas.

Reserva de emergência em primeiro lugar

Tem mais. Antes de pensar em renda, você precisa montar uma reserva de emergência. É aquilo: ter pelo menos seis meses de seu custo de vida na mão.

“Na mão” significa dinheiro naqueles investimentos em que você pode sacar sem penalidade: fundo DI, Tesouro Selic e CDB com liquidez diária. Para comparar, vamos considerar que você investiu R$ 100 mil em cada um desses produtos. E que todos renderam 13% ao ano. Depois de dois anos você teria:

A diferença vem de impostos e taxas. Nos fundos DI, tem taxa de administração (0,3% nesse caso) e “come-cotas”, uma antecipação de 15% de Imposto de Renda a cada seis meses. O Leão morde um pequeno pedaço do patrimônio, e isso compromete uma parte do efeito dos juros compostos.

No Tesouro Selic não tem come-cotas, mas tem uma taxa de custódia de 0,2% ao ano, com isenção pra quem tem até R$ 10 mil. Já o CDB não tem taxa nem come-cotas.

Renda variável: longo prazo ajuda, mas não garante

Com a reserva de emergência está garantida, o próximo passo é investir focando no longo prazo. Na renda fixa, aí, estamos falando de títulos do tipo IPCA+. Na variável, de ações.

Bolsa é um investimento de longo prazo por definição – no curto prazo ela não é investimento, é aposta. Mas isso não significa o tempo vai jogar sempre a seu favor.

Exemplo: você comprou um ETF de Ibovespa em maio de 2008 e vendeu agora, 18 anos depois. Seu ganho foi de 170%. Só que a inflação nesse prazo também foi de 170%. Então o ganho real, descontando a inflação, foi zero. IPCA+0%. Deu menos que a poupança.

Mas se que se você tivesse comprado o mesmo ETF em março de 2020, teria um ganho absurdo, de IPCA+14%. Ou seja: nessa circunstância, um investimento de 6 anos se mostrou mais prolífico que um de 18 anos.

A diferença aí foi o ponto de entrada. Em maio 2008 o Ibovespa estava num pico histórico do Ibovespa — um pico que só se renovaria, em termos reais, agora, em abril de 2026. Já em março de 2020 o índice estava numa baixa igualmente histórica, a da pandemia. E de lá para cá a alta em termos reais, além da inflação, foi absurda.

Dá para cravar quais são os melhores momentos para entrar ou sair? Não. É impossível saber o que vem pela frente. Mas tem uma coisa que dá para fazer: olhar o P/L — o preço sobre lucro.

O “preço” aqui é o valor de mercado. Para calcular o P/L de uma empresa, pega-se o valor somado de todas as suas ações e divide-se pelo quanto ela lucrou nos últimos 12 meses. Se o resultado for 10, por exemplo, significa que o valor de mercado equivale a 10 anos do lucro dela.

Dá para fazer isso por empresa, e dá para fazer com o Ibovespa inteiro, que é um conjunto de empresas. O P/L médio do Ibovespa está em 12,7. É muito? É pouco? Depende da comparação com o histórico. Nos últimos 25 anos, a média ficou em 10,9.

Dá para dizer, então, que acima disso a bolsa está cara, e abaixo disso, barata — grosso modo, porque o padrão pode mudar com o tempo. Mas hoje a régua é essa.

Para ficar mais claro: entre março de 2020 e dezembro de 2022, o Ibovespa já havia subido 75% em relação ao piso da pandemia. Se o lucro das empresas tivesse ficado parado, o P/L teria subido na mesma proporção — a bolsa teria ficado 75% mais cara.

Mas não. O lucro médio cresceu praticamente no mesmo ritmo que os preços das ações, e o P/L ficou quase igual, em 8,3. Quer dizer: a bolsa subiu bem — de 63 mil para 110 mil pontos —, mas continuou barata. Acontece.

Hoje está diferente. A bolsa subiu 50% entre abril de 2025 e abril de 2026, mas os lucros das empresas não cresceram na mesma toada. O P/L subiu, e agora está acima da média histórica. A bolsa ficou mais cara.

Quanto é preciso acumular para viver de renda?

De volta àqueles R$ 300 mil do início. Não se trata de um patrimônio capaz de gerar renda passiva de fato. Mas é uma boa base. Se você partir disso e ir acrescentando R$ 3 mil por mês, a IPCA+4%, dá para chegar a R$ 1 milhão em 12 anos.

R$ 1 milhão de hoje. O valor nominal daqui a 12 anos pode ser de 2 ou 3 milhões, dependendo de qual for a inflação. Mas esse dinheiro que aparecer no saldo lá na frente, seja qual for, vai ter o poder de compra que R$ 1 milhão tem agora.

Com esse patrimônio, a regra dos 4% permitiria retirar cerca de R$ 3,3 mil por mês antes de impostos, mantendo o principal intacto.

Para ter uma renda de R$ 10 mil mensais, você precisaria acumular R$ 3 milhões. Partindo de R$ 300 mil, 12 anos é pouco tempo. Exigiria um aporte mensal pesado, perto de R$ 14 mil. Esticando para 20 anos, o investimento mensal necessário cai para R$ 6,4 mil.

“No início da fase de acumulação, o tempo conta mais do que a rentabilidade. O mais importante é ter disciplina e constância nos aportes”, diz Robson Casagrande, sócio da GT Capital.

Se estiver disposto a consumir o patrimônio, e não apenas viver do retorno que ele proporciona, as retiradas mensais sobem bastante. Uma carteira de R$ 3 milhões daria um “salário” de R$ 18 mil por mês durante 20 anos.

Mas mesmo que o total lá na frente não chegue a tanto, a renda extra ainda fica razoável nessa modalidade. Para R$ 2 milhões, R$ 12 mil por mês ao longo de 20 anos. Para R$ 1 milhão, R$ 6 mil.

Para continuar a aprender sobre renda passiva

Esta foi a última reportagem da série Estratégias para Viver de Renda. Mas, a discussão sobre renda passiva não para por aqui.

O InvestNews vai reunir um time de peso em uma masterclass ao vivo no dia 26 de maio, às 18h30. Louise Barsi, cofundadora do AGF; Marília Fontes, cofundadora da Nord; Eduardo Mira, sócio do Clube FII; e Patrícia Whitaker, gerente-geral de Investimentos do Nubank, vão compartilhar ideias e ensinamentos sobre renda passiva.

A masterclass Estratégias para Viver de Renda é uma oportunidade para aprofundar a discussão, conhecer a experiência de grandes nomes do mercado e tirar dúvidas. Inscreva-se agora para garantir uma vaga e receba uma assinatura do The Wall Street Journal de graça por um ano, um e-book exclusivo e outros conteúdos extras com os caminhos para construir sua carteira de renda.