O Mercado Livre continuou a queimar “gordura” no quarto trimestre para sustentar a liderança no varejo online brasileiro – em que a briga tem ficado cada vez mais acirrada.

A gigante do e-commerce reportou queda de 14% no lucro líquido na base anual, para US$ 559 milhões. Poucas horas depois da divulgação do balanço na noite desta terça-feira (24), as ações recuavam 6% no pós-mercado de Nova York. O resultado operacional cresceu e passou de US$ 820 milhões para US$ 889 milhões, mas com margens menores: de 13,5% para 10,1%. 

Nesse mesmo período, a Amazon ampliou a margem operacional de 11% para 11,7%. A big tech americana, no entanto, opera em todo mundo, enquanto o Mercado Livre opera em países da América Latina, com destaque para Brasil, México, Chile e Argentina, onde nasceu.

Essa discrepância entre o aumento do lucro operacional e a redução das margens tem a ver com o quanto o Meli tem gastado para preservar a liderança de mercado no Brasil, seu principal negócio, e para avançar no México, que tem sido sua operação de maior crescimento.

A empresa tem oferecido mais cupons de desconto, retirou a cobrança de frete para compras a partir de R$ 19,90 e aumentou a concessão de crédito no Mercado Pago. Conforme as concorrentes avançam sobre o varejo online brasileiro, em especial a Amazon e a Shopee, o Mercado Livre decidiu sacrificar rentabilidade na defesa do seu território. 

A Amazon, por exemplo, fez cortes agressivos de taxa a vendedores que adotaram seu sistema de fulfillment (sistema em que o marketplace armazena, embala e envia os produtos) ao longo do último trimestre e, segundo pessoas próximas à companhia, deve mantê-las reduzidas até julho. 

Mais clientes

No Brasil, houve crescimento de 45% no número de itens vendidos e de 35% em vendas totais (GMV, na sigla em inglês), no ano contra ano. No total, a receita líquida da companhia cresceu 45%, para R$ 8,8 bilhões. Segundo a empresa, a redução do valor mínimo para o frete grátis foi determinante para esse avanço. 

O Meli argumenta que os novos consumidores adquiriram mais itens e em um número maior de categorias, apresentando maior taxa de retenção em comparação com aqueles que se cadastraram antes do início da nova oferta de frete grátis. “Isso confirma que os investimentos em frete grátis estão atraindo novos compradores e aumentando a frequência de compra.”

Em teleconferência com analistas, o CFO, Martin de Los Santos, disse que a pressão de margem ainda deve continuar, em linha com a estratégia de manter o crescimento da empresa.

“International fulfillment ainda precisa crescer, então devemos ter alguma pressão de margem por isso. Mas estamos confiantes de que os investimentos que estamos fazendo são de longo prazo.” Ainda segundo ele, o aumento das vendas também já ajudou a diluir custos logísticos. 

O número de compradores únicos no trimestre superou a marca de 80 milhões pela primeira vez, com um recorde de 16 milhões de usuários adicionais na plataforma em relação ao ano anterior. 

A malha logística do Mercado Livre também tem sido uma aposta relevante como vantagem competitiva: 75% das entregas rápidas são realizadas em até 48 horas. A empresa chegou a 27 centros de distribuição em 2025 – parte do pacote de R$ 34 bilhões de investimento no ano.

“Estamos ganhando mercado por causa desses investimentos. Portanto estamos muito confortáveis com isso. Nosso maior foco é capturar oportunidades, mesmo com pressão temporária de margem.”

O Mercado Pago acelerou no fim de 2025 com um trimestre que combinou crescimento forte de receita, ganho de escala de usuários e mais volume transacionado.

No quarto trimestre, a receita líquida chegou a US$ 3,8 bilhões, alta de 51% em dólares (e 61% em base neutra de câmbio) na comparação anual, enquanto a base de usuários ativos mensais avançou 27%, para cerca de 78 milhões.

Os ativos sob gestão tiveram um salto de 78% e alcançaram US$ 18,8 bilhões, reforçando o peso de produtos como conta, investimentos e outras soluções de crédito/poupança no ecossistema.

Já no core de pagamentos, o volume total processado somou US$ 83,7 bilhões no trimestre, com um crescimento de 42% ano a ano, o que indica que a operação segue ganhando tração tanto no online quanto no offline.