Nesse cenário, os bonds, ou seja, títulos emitidos por empresas no mercado internacional que pagam juros em dólar, se destacam.
A oportunidade está em aplicar uma parte da sua carteira de investimento – de 5% a até 10% para os mais arrojados – em títulos de grandes empresas no exterior, o que traz uma espécie de “seguro” contra a volatilidade cambial no médio e longo prazos e, ao mesmo tempo, vai ajudá-lo a “travar” retornos que estão historicamente elevados.
Mas tem um “pulo do gato” nessa janela: os brasileiros podem escolher bonds de companhias nacionais que costumam pagar mais comparados aos títulos de empresas americanas.
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É que para os investidores globais as companhias daqui são vistas como mais arriscadas por serem de um mercado emergente. Mas para qualquer brasileiro sequer passa pela mente a possibilidade de gigantes como a Petrobras ou a Vale, por exemplo, darem calote nos pagamentos, que é o principal risco dos papéis de crédito privado.
Títulos em dólar da Petrobras e da Vale são oferecidos no mercado internacional com retornos entre 5% e até mais de 6% ao ano, dependendo do prazo de vencimento. Quanto mais “longo” o papel, ou seja, quanto mais distante está o vencimento maior o “prêmio” que costuma ser pago. Mas essa taxa maior tem um custo: o papel mais longo é bem mais volátil na marcação a mercado.
Nas plataformas de investimentos, o bond da Petrobras com vencimento em 2044 tem rentabilidade de 6,53% ao ano e investimento mínimo de US$ 1.075 nesta segunda-feira (27). Outro título com prazo até 2040 está com taxa de 6,37% anuais e preço de US$ 1.045.
Já no caso da Vale, o bond com vencimento em 2039 pagava 5,33% ao ano, com preço a partir de US$ 1.148, enquanto o papel com prazo até 2054 tinha rentabilidade de 5,97% ao ano, com preço de US$ 1.058.
O bond da Rede D’Or com vencimento em 2036 rendia 6,34% anuais, enquanto o papel de prazo similar do frigorífico Minerva pagava 7,43% anuais. Já o título em dólar da MBRF com prazo até 2031 apresentava retorno de 6,03% ao ano.
Isso só para citar algumas companhias que costumam fazer captações no exterior. As plataformas de investimentos associadas às contas globais, como Avenue, Nomad, Inter, XP e BTG oferecem aplicações em bonds a partir de US$ 900.
Os investidores, no entanto, precisam estar atentos ao risco de crédito. As recomendações válidas para o mercado local de crédito privado também valem lá fora: se a taxa está muito elevada, significa que o papel está com desconto alto. “Isso pode esconder algum problema, por isso vale a pena evitar esses créditos muito estressados”, afirma o especialista de investimentos da Nomad, Bruno Shahini.
É o caso, por exemplo, da endividada CSN. Os bonds da siderúrgica têm sido negociados com taxas entre 14% e até 18% ao ano no mercado internacional. Trata-se de um desconto de 30% a 40% em relação ao valor de face do título.
Companhias brasileiras aceleram captações
A temporada de emissões de bonds por empresas brasileiras começou a acelerar novamente nos últimos meses por três fatores.
O mercado está favorável com o dólar abaixo de R$ 5, as companhias buscam se antecipar a uma eventual volatilidade no segundo semestre com a aproximação das eleições e, apesar da taxa elevada em termos históricos, o chamado “spread”, que é o prêmio pago acima das taxas dos títulos públicos americanos, as Treasuries, tem caído em meio à demanda pelos títulos brasileiros.
O movimento de queda de spreads pode ser favorável ao investidor que aproveitar a janela agora, porque a queda das taxas faz com que o preço do papel suba. Isso significa um aumento no saldo em dólares na carteira. Na renda fixa, quando a taxa recua, o preço do título sobe.
Um levantamento em plataformas globais mostra que, em um grupo de 40 títulos de 11 companhias nacionais, 27 papéis negociam com descontos, enquanto 13 já estão sendo vendidos com um pequeno ágio, ou seja, acima do valor de face.
Além do fator mercado, os investidores globais estão de olho também na possibilidade de as empresas locais se beneficiarem de um período amplamente favorável para as commodities nos próximos anos. O Brasil é um dos maiores exportadores globais de commodities metálicas e agropecuárias do mundo e pode se beneficiar com essa tendência de médio e longo prazos.
Conforme o estrategista-chefe a AlpineMacro, do grupo Oxford Economics, Chen Zhao, há uma forte possibilidade de o mercado global ter entrado no quinto ciclo de alta desde o século passado. “Existem fortes evidências apontando para a fase inicial de um novo superciclo de commodities.”
A Alpine cita a eletrificação dos automóveis, a expansão da infraestrutura de inteligência artificial e a crescente escassez na capacidade de geração e distribuição de energia como fatores estruturais que geram uma forte demanda por petróleo, minérios e soja.
“O Brasil está bem posicionado para se beneficiar do fortalecimento da demanda ou de qualquer disrupção no lado da oferta no mercado global de commodities.”
Na prática, significa haver uma tendência macroeconômica favorável às gigantes brasileiras como Vale, Petrobras e outras companhias ligadas às matérias-primas, alimentos e energia. Os preços dos bonds desses grupos podem refletir ao longo dos próximos anos esse ambiente mais benéfico para setores que representam um terço das exportações brasileiras.
Quanto menos mexer, melhor
Esse é um fator importante: o investimento em bonds deve ser visto como uma aplicação de, no mínimo, médio prazo, mas, principalmente, de longo prazo. Ou seja, não é um “dinheiro” que você deve mexer a qualquer hora ou sacar, por exemplo, para viajar.
“A aplicação na renda fixa em dólar funciona como um complemento da renda fixa local e funciona para proteger a carteira da volatilidade cambial e de momentos em que as incertezas domésticas batem mais forte nos mercados locais”, explica Shahini, da Nomad.
O chamado “carrego”, ou seja, o retorno obtido com o título de crédito ao longo do tempo, está historicamente alto. “Quem comprar com carrego de 6% a 6,5% ao ano está fazendo um ótimo negócio. Além disso, nos próximos anos é bem capaz da curva das Treasuries dar uma aliviada.”
O alívio vem com a queda dos juros dos títulos do Tesouro americanos. Nesse caso, os papéis privados também seguem o movimento. Com isso, quem conseguiu travar as taxas atuais pode ver seu saldo em dólares crescer mais rapidamente no futuro.
Ninguém sabe para onde vai o dólar
Apesar da tendência atual de queda do dólar frente ao real, a história mostra como essa relação cambial é instável. A atual cotação abaixo de R$ 5 pode estar próxima do piso, na visão do mercado. A mediana do boletim Focus do Banco Central, que reúne projeções de instituições financeiras, mostra que analistas e economistas veem a moeda dos EUA em R$ 5,25 no fim do ano.
A visão altista reflete as várias incertezas que ainda estão no horizonte, como o temor com o desequilíbrio fiscal, tema que dominou as atenções dos investidores no fim de 2024 e levou o dólar ao patamar de R$ 6,29 há pouco mais de dois anos.
Outro foco de volatilidade tende a ser as eleições entre outubro e novembro. Conforme nos aproximamos do pleito, as oscilações no câmbio podem se intensificar.
Shahini acredita que no melhor cenário o dólar possa permanecer no atual patamar próximo dos R$ 4,90. “Isso no caso de os efeitos do ciclo eleitoral se mostrarem menos desfavoráveis, porque os fundamentos, com fluxo de capital estrangeiro para o país e o elevado diferencial de juros, indicam um dólar mais para esse patamar abaixo de R$ 5,00.”