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Economia

Alta do petróleo divide economistas sobre impactos no IPCA e no corte da Selic

Preços do barril da commodity no mercado internacional vêm ganhando força, se aproximando dos US$ 100.

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Os preços do barril de petróleo no mercado internacional vêm ganhando força, se aproximando dos US$ 100. Embora o avanço da commodity se reflita, teoricamente, no crescimento em cadeia dos preços de diversos produtos e serviços, podendo impulsionar a inflação, economistas consultados pelo InvestNews têm opiniões distintas sobre o impacto desse movimento na inflação do Brasil e na magnitude do ritmo de corte da taxa Selic.

Na quinta-feira (28), os futuros do Brent terminaram o dia em US$ 93,10 por barril. Veja cotação diária ao longo de 2023:

No mesmo dia, a Rússia, um dos maiores produtores de petróleo do mundo e a principal fornecedora externa de diesel ao Brasil, informou que não discutiu com a Opep+, grupo dos principais produtores de petróleo, um possível aumento no fornecimento de petróleo bruto para compensar a proibição de suas exportações de combustível.

Diante desse cenário, as atenções se voltam para a Petrobras, com expectativas de aumento sobre os preços dos combustíveis e o consequente impacto sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Frentista abastece carro em posto de gasolina em Brasília 07/03/2022 REUTERS/Adriano Machado

Para Luciano Costa, sócio e economista-chefe da Monte Bravo, a alta dos combustíveis, por si só, teria um efeito limitado sobre o IPCA. Ele destaca que, quando se olha a defasagem entre o preço do combustível no exterior e do Brasil, ela está ficando mais no diesel (entre 16% a 18%) do que na gasolina (entre entre 6% e 8%). 

“No caso do IPCA, especificamente, o peso da gasolina é menor em relação ao diesel. O diesel pesa em torno de 0,20% no IPCA, e a gasolina, 5%. Então, com o nível de defasagem da gasolina em torno de 6% a 8%, provavelmente, a Petrobras não vai alterar o preço da gasolina. Talvez, possa ter algum realinhamento do preço do diesel, mas o impacto é pequeno no IPCA. Até porque a Petrobras fez um realinhamento de preços recentemente, os preços não estão tão desalinhados em relação ao exterior”, avalia Costa.

Mas Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, diz que a alta do petróleo e, consequentemente, do custo dos combustíveis, pode automaticamente afetar o preço de diversos produtos e serviços, pesando sobre a inflação.

“O preço do petróleo fica maior, elevando, automaticamente, o preço dos combustíveis. No Brasil, por mais que a Petrobras evite repassar essa alta, fica muito difícil conter o movimento de alta no preço do barril de petróleo, pois parte dos combustíveis vendidos internamente, como gasolina (aproximadamente 13% do total) e óleo diesel (aproximadamente 26% do total) são importados de outros países”, destaca Piellusch. 

Movimento da cotação do petróleo

A diminuição da produção pelos integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e o crescimento da demanda estão entre os motivos que favoreceram o aumento do preço do barril de petróleo.

A  Agência Internacional de Energia apontou que os cortes na produção de petróleo que a Arábia Saudita e a Rússia estenderam até o final de 2023 significarão um déficit substancial no mercado até o quarto trimestre.

A Opep e seus aliados, conhecidos como Opep+, começaram a limitar os suprimentos em 2022 para reforçar o mercado. Este mês, o petróleo Brent de referência ultrapassou US$ 90 por barril pela primeira vez este ano, depois que os líderes da Opep+, Arábia Saudita e Rússia, estenderam seus cortes combinados de 1,3 milhão de barris por dia (bpd) até o final de 2023.

Tanques de petróleo aguardam abastecimento em Moscou. REUTERS/Alexander Natruskin/File photo

Gustavo Cruz, estrategista chefe da RB Investimentos, entende que existe uma busca dos produtores para tentar esse lucro agora, pois está bem claro para eles que o próximo vai ser de demanda mais fraca, puxando para baixo os preços do petróleo, como aconteceu ao longo do primeiro semestre. 

“A tendência é essa, de enfraquecimento das grandes economias. Então, isso impacta, sim, as inflações pelo mundo. Estamos vendo em todas as aberturas algum impulso já por causa de preços de combustíveis, mas tem que ver também, claro, a interferência do governo aqui no Brasil”, afirma Cruz. 

Na mesma linha, Hulisses Dias, analista e mestre em finanças pela Sorbonne, defende que há uma ameaça no front vindo do petróleo, que é matéria-prima tanto para produção como para distribuição logística, o que afeta toda a cadeia global com maiores custos e diminuição das margens das empresas, gerando desaceleração econômica.

Piellusch acrescenta que a alta do petróleo tem alguns impactos imediatos na inflação, mas que outros vão ocorrendo com o tempo, conforme os custos vão sendo repassados para as etapas seguintes das cadeias produtivas. 

O professor da FIA Business School alerta, porém, que é necessário avaliar se esse movimento de alta no petróleo vai permanecer, já que não depende apenas da demanda, mas, também, das decisões da Opep, que determinam a produção e oferta de petróleo.

  • Confira ações da Petrobras (PETR4)

Mudança de preços pela Petrobras

A alta dos preços do petróleo eleva a defasagem dos preços praticados pela Petrobras (PETR4) nas refinarias ante os valores praticados no exterior.

O último reajuste em preços de gasolina e diesel feito pela companhia ocorreu em agosto, quando a estatal elevou o preço do diesel para distribuidoras em 25,8% e o da gasolina em 16,3%.

Apesar da escalada das cotações internacionais do petróleo, o CEO da Petrobras, Jean Paul Prates, afirmou na quinta-feira (28) que a estatal tem, por enquanto, condições de manter os preços dos combustíveis no patamar atual por mais um tempo, sem riscos para a rentabilidade.

Jean Paul Prates, CEO da Petrobras 2/03/2023 REUTERS/Pilar Olivares

Marcos Piellusch, professor da FIA, defende que, no Brasil, por mais que a Petrobras evite repassar essa alta, fica muito difícil conter o movimento altista no preço do barril de petróleo, pois parte dos combustíveis vendidos internamente, como gasolina (aproximadamente 13% do total) e óleo diesel (aproximadamente 26% do total) são importados de outros países. 

Já Gustavo Cruz, da RB Investimentos, diz que o Brasil está vivendo um momento diferente dos últimos anos, quando acompanhava friamente os preços internacionais. “Estamos mais próximos dos começos dos anos 2000, quando a parte de preços de combustíveis era praticamente horizontal em meio à oscilação de preços internacionais”, diz. 

Sinais da inflação brasileira

Nesta semana, dados divulgados da inflação brasileira apontam para um cenário relativamente controlado. 

Na terça-feira (26), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) avançou 0,35% em setembro depois de alta de 0,28% em agosto. O resultado do indicador, considerado prévia da inflação oficial, ficou um pouco abaixo da expectativa em pesquisa da Reuters, de avanço de 0,38%.

Pessoas passam em frente a barracas de verduras em mercado no Rio de Janeiro
Pessoas passam em frente a barracas de verduras em mercado no Rio de Janeiro 08/04/2022 REUTERS/Ricardo Moraes

Na quinta-feira (27), a Fundação Getulio Vargas (FGV) informou que o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) registrou alta de 0,37% em setembro. A expectativa em pesquisa da Reuters com analistas era de um avanço de 0,4%.

Já o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), também divulgado na quinta-feira, trouxe as estimativas do Banco Central para a inflação em 2023 (5%), 2024 (3,5%) e 2025 (3,1%). Para 2023, o centro da meta de inflação é de 3,25%, com piso de 1,75% e teto de 4,75%. De 2024 em diante, o alvo central é de 3% com bandas de 1,50% a 4,50%.

Os preços e a taxa Selic

No último dia 20, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, fazendo a taxa básica de juros passar de 13,25% para 12,75% ao ano. 

O Copom ainda sinalizou mais cortes de 0,5 p.p. nas próximas reuniões, se confirmado o cenário esperado, e disse antever redução de mesma magnitude nas próximas reuniões para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário.

O BC também voltou a informar que seguirá acompanhando os próximos dados de inflação e atividade econômica para definir os próximos passos de política monetária.

Na ata da reunião, o Copom mencionou que, que embora haja uma evolução benigna dos preços correntes, as expectativas de inflação seguem acima da meta e são fator de preocupação.

Prédio do Banco Central em Brasília 29/10/2019 REUTERS/Adriano Machado

Costa, da Monte Bravo, avalia que a alta do petróleo não impacta o ciclo de queda da Selic, pois o reflexo do avanço do preço da commodity é menor no caso da gasolina do que no diesel.

Ele comenta ainda que, mesmo que haja um reajuste no preço da gasolina, o Banco Central não deve reagir com mudança brusca na política monetária pois, no choque primário, a autoridade monetária não tem muito a fazer, já que o preço vai subir na bomba independente de qual for a decisão sobre os juros básicos.

Assim, segundo o economista, o Banco Central vai se importar mais com os efeitos secundários dessa alta de preços, como contaminação das expectativas. 

“Como, provavelmente, não tem nenhuma alteração de preço de gasolina, então, o BC não deveria mudar o ciclo de queda da Selic. Ele já está fazendo um ciclo cauteloso. O preço do petróleo não altera, por enquanto, esse cenário. A não ser que tivesse um choque adicional”.

Luciano Costa, sócio e economista-chefe da Monte Bravo.

Na mesma linha, Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest, avalia que ainda é cedo para dizer se a alta do petróleo pode impactar a inflação brasileira, pois não se pode olhar os dados de curto prazo como base. Por isso, a expectativa é de continuidade no ciclo de queda da Selic para os próximos meses.

“Claro que o preço do petróleo se mantiver elevado por muito mais tempo, isso tende a ter impacto altista na inflação futura, sim. Mas há uma defasagem e o impacto não se dá de forma direta. Por enquanto o cenário não se altera”, defende Quartaroli. 

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