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Economia

Por que o Brasil está subindo juros mais rápido se inflação afeta o mundo todo?

Inflação persistente tem acelerado alta de juros no Brasil; em alguns países, BCs têm preferido ‘estimular economia’.

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copom- Banco Central BC
REUTERS/Adriano Machado

Embora a inflação no Brasil esteja mais forte que na maioria dos outros países, ver os preços subindo acima das projeções em 2021 não é exclusividade da nossa economia. E, enquanto diversos países pelo mundo têm se deparado com inflação crescente, os bancos centrais têm adotado estratégias diferentes. Ao mesmo tempo em que alguns preferem manter os juros inalterados ou subi-los gradativamente, outros têm elevado as taxas com mais força. O Brasil faz parte do segundo grupo. 

A última elevação da taxa Selic pelo Banco Central, a 7,75% ao ano, colocou o país na liderança do ranking de juros pelo mundo. Em uma lista com 40 países, o Brasil tem a maior taxa de juros real – ou seja, a taxa com desconto da inflação. 

Ilustração de ranking de juros dos países

E a Selic deve continuar ganhando ainda mais força. É o que têm apontado os últimos comunicados do Comitê de Política Monetária (Copom), atas de reuniões e até declarações do presidente do BC, Roberto Campos Neto. 

Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, explica que existem diversas razões pelas quais a inflação preocupa mais por aqui, fazendo com que os juros no Brasil subam mais rápido. Entre as principais, ela destaca:

  • Histórico inflacionário: o Brasil já foi afetado por altas taxas de inflação, o que afeta a confiança dos consumidores, expectativas e até a credibilidade do Banco Central. 
  • Indexação: o Brasil tem reajustes de contratos, serviços, salários e diversos outros preços reajustados por índices de inflação, o que faz com que ela “se espalhe” pela economia com mais facilidade. 
  • Taxa de câmbio: o real foi uma das moedas mais desvalorizadas durante a crise da pandemia, elevando os custos de produtos e matérias-primas importadas. Além disso, enquanto o mundo todo enfrenta o aumento em dólar das commodities lá fora, o Brasil sofre mais por ter sua moeda desvalorizada. 
  • Crise fiscal: a falta de confiança dos investidores na condução das contas públicas eleva o valor do dólar sobre o real, e também motiva um aumento da taxa de juros para manter o Brasil atraente para as aplicações. 

Entre os principais vilões da inflação no Brasil, têm se destacado o aumento do preço dos combustíveis e o da energia por causa da crise hídrica, entre outros fatores que afetam os preços no mundo todo, como o desajuste na cadeia de produção por conta da pandemia. Mas Fontes chama a atenção para o “espalhamento” desses choques para outros preços. 

“A gente é muito bom em propagar choques inflacionários”, afirma ela. “O nosso Banco Central ainda não tem credibilidade de anos de controle inflacionário. Então, qualquer choque se propaga rapidamente, juntamente com o fato de que a gente tem alta indexação.”

A economista acrescenta que “nossa diferença é que a gente não tem o benefício da dúvida”. “Os EUA falam: ‘(o choque inflacionário) é temporário, então nós não vamos subir juros’. A gente não pode fazer isso no Brasil. Um aumento da inflação de curto prazo é rapidamente propagado para o resto da economia”, diz Fontes. 

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, tem destacado em suas decisões a avaliação de que a alta dos preços por lá é temporária, já que tem ganhado força em meio aos ajustes após a crise da pandemia. No Brasil, durante algum tempo o Banco Central também chegou a apontar o avanço da inflação como temporário.

“O BC durante muito tempo insistiu que o choque inflacionário seria temporário. Talvez possa ter ficado um pouco atrasado nesse aumento dos juros”, comenta Ulisses Ruiz de Gamboa, professor de economia e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica. “Essa pressão de custos está se provando mais persistente do que se achava.” 

Ainda sobre a comparação com os Estados Unidos, Fontes diz: “ao contrário de países como Estados Unidos, a gente não está tendo inflação porque a nossa recuperação econômica está pujante, o mercado de trabalho está com tanto emprego que há pressões de salários, os nossos dados de venda de varejo e produção industrial estão tão fortes que a gente está entrando no gargalo da economia. Não é esse o cenário. A gente teve choques que se propagaram para o resto dos preços.”

Juros em outros países

Os temores sobre a inflação em 2021 e 2022 têm sido discutidos em países desenvolvidos, mas também em economias em desenvolvimento. Veja abaixo como diversos bancos centrais estão lidando com o tema em suas últimas decisões:

EUA: inflação aumenta expectativas por juros

Chair do Fed, Jerome Powell 28/09/2021.
Chair do Fed, Jerome Powell 28/09/2021. Kevin Dietsch/Pool via REUTERs

Um dos principais focos de atenção dos mercados no mundo inteiro é o Fed, dos Estados Unidos. Os juros nos EUA por lá seguem perto de zero, como forma de estimular a economia em conjunto com o programa de compra de títulos, que injeta dinheiro na economia norte-americana há vários meses.

O Fed tem apontado em seus comunicados que a prioridade é o restabelecimento do mercado de trabalho, indicando tolerância com uma inflação que seria “transitória”. No entanto, dados recentes têm indicado uma alta de preços mais forte que o esperado. Em outubro, os preços ao consumidor aumentaram 6,2% em relação a um ano antes, o maior salto anual em 30 anos.

Os números, aliados a dados como números fortes da economia, têm alimentado expectativas de que o Fed vá subir os juros antes do esperado. “Com a inflação anual agora superando 6%, isso é suficiente para forçar a mão do Fed? Esse longo, longo período transitório tem de aumentar a pressão sobre o Fed”, disse à Reuters a estrategista-chefe da Principal Global Investors, Seema Shah. 

Europa: ‘inflação temporária’

Na Europa, a situação da inflação também tem surpreendido para cima. Dados mais recentes indicam alta de preços duas vezes maior que a meta de 2% do Banco Central Europeu (BCE). No entanto, a instituição prefere manter os juros baixos, avaliando que a inflação é “temporária” e a economia precisa de estímulo para voltar a crescer.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, admitiu em novembro que o pico da inflação será mais alto e mais longo do que se pensava, mas afirmou que ele vai perder força no próximo ano e, por isso, uma alta de juros agora atingiria a economia negativamente assim que a alta dos preços começar a moderar por conta própria.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, fala enquanto participa de uma coletiva de imprensa sobre a reunião do Conselho do BCE, em Frankfurt, Alemanha, em 28 de outubro de 2021. REUTERS/Kai Pfaffenbach

“Em um momento em que o poder de compra já está sendo pressionado por contas de energia e de combustível mais altas, um aperto indevido das condições de financiamento não é desejável e representaria um obstáculo injustificado à recuperação”, disse Lagarde em uma audiência do comitê de economia do Parlamento Europeu no dia 15 de novembro. 

Mas a avaliação não é consenso no continente. Na Alemanha, por exemplo, o CEO do Deutsche Bank, Christian Sewing, discordou da narrativa de que a inflação é temporária e pediu a ação dos bancos centrais globais. “A suposta panaceia dos últimos anos – taxas de juros baixas com preços aparentemente estáveis – perdeu seu efeito e agora estamos lutando contra os efeitos colaterais”, afirmou. 

Rússia: porta aberta para mais altas de juros

Em outubro, o banco central da Rússia aumentou sua taxa básica de juros em 75 pontos-base, para 7,5% ao ano. Foi a sexta elevação deste ano, num esforço para domar a inflação mais acelerada desde o início de 2016, indicando ainda que há possibilidade de mais altas de juros.

“Se a situação se desenvolver de acordo com a previsão básica, o Banco da Rússia mantém em aberto a perspectiva de novos aumentos dos juros básicos em suas próximas reuniões”, disse o banco central em comunicado.

O banco central elevou sua projeção média para a taxa de juros em 2022 para 7,3% a 8,3%, ante 6,0% a 7,0%, enviando um sinal “hawkish” (inclinado a uma política monetária mais apertada, com tendência de alta de juros) ao mercado.

México: juros subindo devagar

No dia 11 de novembro, o Banco Central do México (Banxico) aumentou sua taxa básica de juros em 25 pontos-base pela quarta reunião de política monetária consecutiva, a 5%, expressando preocupação sobre a inflação. No acumulado deste ano até outubro, a inflação mexicana está em 6,24%, mais que o dobro da meta oficial. 

Canadá: alta de juros à vista

O banco central do Canadá sinalizou no final de outubro que um aumento nos juros pode ocorrer mais cedo que o esperado no ano que vem, após o país reduzir as taxas para uma mínima recorde de 0,25% em março do ano passado durante a primeira onda da pandemia.

O Banco do Canadá disse que a economia continua exigindo um apoio monetário considerável. Porém, a taxa anual de inflação acelerou para uma nova máxima em 18 anos em setembro.

China: juros mantidos há mais de 1 ano

Bandeira da China em Pequim
Bandeira da China em Pequim 29/04/2020 REUTERS/Thomas Peter

Em decisão de outubro, a China manteve sua taxa básica de juros para empréstimos corporativos e residenciais pelo 18º mês. A taxa básica de juros de empréstimo de um ano (LPR) foi mantida em 3,85%. A LPR de cinco anos permaneceu em 4,65%. A maioria dos empréstimos novos e pendentes na China baseia-se na LPR de um ano. A taxa de cinco anos influencia o preço das hipotecas.

A China, segunda maior economia do mundo, teve uma recuperação impressionante desde a crise da pandemia no ano passado, mas desde então perdeu força ao ter que lidar com a desaceleração do setor manufatureiro, problemas de dívidas no mercado imobiliário e surtos de covid-19.

Em meio a esse cenário, o banco central da China tem dito que que manterá sua política monetária prudente “flexível e direcionada”. Zou Lan, chefe de mercados financeiros do Banco do Povo da China, disse que o banco central vai aprofundar as reformas da taxa de juros e melhorar a transmissão para reduzir ainda mais os custos de financiamento.

No entanto, não há grandes expectativas no mercado de um corte de juros. A holding financeira Nomura, por exemplo, disse que algumas mudanças no texto do relatório de implementação de política monetária do banco central no terceiro trimestre sugerem que o banco pode se tornar mais decisivo no afrouxamento monetário. “Mas ainda vemos a probabilidade de um corte nas taxas de juros como muito pequena”, disse em nota.

Índia: juros baixos para estimular economia

Neste mês, o comitê de política monetária do BC indiano manteve as taxas de juros em mínimas recordes e reiterou a necessidade de diminuir o estímulo da era pandêmica apenas gradualmente para ajudar na ainda inicial recuperação econômica.

“O aperto prematuro (da política monetária) pode causar a estagflação que todos temem, sufocando o crescimento no momento em que a economia está se recuperando”, disse o BC em seu boletim mensal.

A economia da Índia se recuperou no trimestre de abril a junho, mesmo com uma devastadora segunda onda de covid-19 varrendo o país. O crescimento do PIB foi de mais de 20% em comparação com o mesmo período do ano anterior, impulsionado por um aumento na produção e maiores gastos do consumidor.

Turquia: cortando juros mesmo com inflação em alta

Notas de lira turca
Notas de lira turca 11/11/2021 REUTERS/Cagla Gurdogan

Na contramão da tendência mundial de aumentar os juros, no dia 18 de novembro o banco central da Turquia cortou sua taxa básica em 1 ponto percentual, para 15%, citando pressão “temporária” de preços, mesmo depois de a inflação ter saltado para quase 20%, quatro vezes a meta oficial.

O afrouxamento dos juros na Turquia começou em setembro, em meio a pedidos do presidente Tayyip Erdogan por estímulos à economia, apesar dos riscos. A condução da política monetária tem feito o dólar disparar contra a lira turca, que já se desvalorizou em mais de 32% neste ano. “Literalmente um movimento insano que coloca a lira em ameaça real”, disse no Twitter Tim Ash, do BlueBay Asset Management.

Japão: um caso à parte

Assim como em outros países, o Japão tem visto os preços das matérias-primas subirem com força. No país asiático, a inflação no atacado atingiu uma máxima em 13 anos. A diferença é que a pressão não chega ao consumidor, com inflação estagnada perto de zero. Como as pessoas não gastam, as empresas acabam não repassando as altas de preços. 

Aliada a isso, a recuperação frágil da economia alimenta a expectativa de que o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) siga por algum tempo com sua meta para as taxas de juros de curto prazo em -0,1% e para os rendimentos dos títulos de dez anos em torno de zero.

“Globalmente, os bancos centrais estão mudando para responder ao aumento da inflação com alta das taxas de juros. Mas é difícil ver o BoJ se tornando ‘hawkish’ (mais duro na política monetária)”, disse Hiroshi Ugai, economista-chefe para o Japão da JPMorgan Securities.

Inflação x atividade da economia

Diversos países têm preferido evitar ou suavizar uma alta de juros, mesmo com a inflação subindo. Nesses casos, os bancos centrais argumentam que é preciso estimular a economia em meio à recuperação pós-pandemia – já que juros mais altos desestimulam o consumo e investimentos de empresas na produção.

No entanto, economistas apontam que no Brasil a persistência da inflação não deixa espaço para essa possibilidade, embora o crescimento preocupe. Como resultado, um cenário de estagflação tem se tornado cada vez mais próximo.

“O nosso cenário é um cenário de choques que se propagaram por falta de confiança. A gente está sendo obrigado a subir o juro, que vai provocar recessão no ano que vem”, resume Fontes, da Nord. “E esse aumento de juro está levando a uma expectativa de recessão no ano que vem. É o pior cenário. É a inflação sem crescimento.”

“A inflação aqui no Brasil é uma das mais altas. Embora haja uma inflação com pressão de custos generalizada nos outros países, no caso brasileiro a inflação tem ficado num patamar muito alto. Isso leva o Banco Central a ter que fazer um esforço maior. É o que tem que ser feito mesmo, não tem jeito. Mas é um momento de retomada. Infelizmente, não é o momento mais propício. Mas não tem muita escolha”, complementa Gamboa, do Mackenzie. 

( * com informações da Reuters)

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