Finanças

Smart Fit é 1ª rede fitness a estrear na B3; conheça os prós e contras das ações

Companhia movimentou R$ 2,3 bilhões em IPO e tem forte potencial de valorização com reabertura econômica.

Publicado

em

Tempo médio de leitura: 12 min

Após fazer seu IPO (oferta pública inicial de ações, a rede de academias Smart Fit, uma das mais populares do segmento fitness na América Latina vai estrear na bolsa de valores nesta quarta-feira (14), com o código SMFT3.

Em sua oferta pública inicial de ações, a companhia levantou R$ 2,3 bilhões, com as ações negociadas a R$ 23 cada. A companhia emitiu 100 milhões de ações ordinárias no segmento de Novo Mercado da B3 (maior nível de governança da bolsa de valores).

A oferta foi 100% primária, o que significa que todos os recursos levantados no IPO foram destinados para o caixa da companhia. Segundo prospecto da Smart Fit, os R$ 2,3 bilhões foram distribuídos da seguinte forma:

  • 70,1% vão para a abertura de novas unidades. Atualmente, a companhia tem 928 academias e cerca de 2,3 milhões de clientes ativos.
  • 14,1% vão para aquisições estratégicas, como foram Queima Diária e Just Fit no passado.
  • 10,8% são destinados para a compra das ações da SmartEXP, empresa da qual a Smart Fit é controladora.
  • 5% serão direcionados para o desenvolvimento e fortalecimento do seu ecossistema.

Após a oferta pública, os acionistas tiveram sua participação diluída para 57,32%, mantendo ainda o controle da empresa.

Mesmo com uma série de conflitos relacionados a governança corporativa e endividamento da companhia, os analistas consultados pelo InvestNews enxergam diversas vantagens em investir na Smart Fit, que é a primeira companhia do segmento fitness a ser listada na bolsa brasileira.

Por ser uma segmento que sofreu os impactos da pandemia, com as restrições de circulação e menos pessoas frequentando academias, Victor Bueno, analista de investimentos da Top Gain, avalia que este foi o momento mais oportuno para chegar à bolsa.

Segundo Bueno, com a vacinação ganhando cada vez mais força, a Smart Fit deve surfar com a retomada da economia no segundo semestre. No curto prazo, o cenário para valorização das ações é bastante promissor, aponta o analista. “Com a reabertura da economia, as pessoas devem voltar para as academias. As ações devem ter uma sequência de altas por causa dessa retomada”, defende.

Contudo, Bueno esclarece que estes movimentos de curto prazo devem ser mais especulativos, impulsionados pelo otimismo generalizado. Para o investidor que deseja olhar a Smart Fit com a perspectiva de sócio minoritário, no longo prazo, o analista explica que ainda é preciso esperar os resultados da empresa, e como ela vai lidar com seu plano de crescimento e questões de governança.

Como especulação não é sinônimo de fundamento, apresentamos o que você precisa avaliar sobre a companhia, antes de comprar as ações no mercado secundário.

Um sólido modelo de negócios

Eric Huang, analista da Eleven Financial, explica que a Smart Fit conquistou a liderança no mercado brasileiro graças a estratégia High Value Low Price que se traduz em um modelo de negócios focado no melhor custo-benefício para os clientes com mensalidades baixas e acelerado ritmo de abertura de novas unidades.

A Smart Fit oferece dois tipos de planos aos clientes, com ticker baixo: o plano Black (que facilita o treino em qualquer unidade da América Latina) a partir de R$ 69,90 mensais. E o plano Smart, restrito a uma única unidade a partir de R$ 89,90.

Já concorrentes como a Bluefit oferecem planos com mensalidades a partir de R$ 99,90, enquanto a Selfit tem planos a partir de R$ 89,90.

A Smart Fit também conta com um grupo de academias destinadas ao segmento premium, é o caso da Bio Ritmo com planos com mensalidades a partir de R$ 449.

Em relação ao acelerado ritmo de crescimento, a companhia saiu de 55 academias em 2011 para 928 até o primeiro trimestre de 2021, a taxa de crescimento anual nestes anos foi de 36% ao ano.

Atualmente são 715 unidades próprias e 213 franqueadas. A companhia está presente em 13 países da América Latina, das 928 unidades, 509 estão no Brasil, 184 no México, 203 em outros países e 32 são unidades da Bio Ritmo ou da rede chilena O2.

Segundo Huang, o modelo de negócios High Value Low Price tem apresentado um forte crescimento global pela proposta de academias com preço acessível.

De acordo com a pesquisa PwC do Reino Unido, a abertura de novas unidades neste modelo de negócios era por si um gerador de demanda. “Cada vez que abria uma unidade, pessoas que não eram interessadas em ir na academia acabaram frequentando pelo custo acessível”, explica o analista.

Desta forma, a abertura de novas unidades atendia a demanda atual mas também ajudava a ter uma demanda futura com um mercado potencial em crescimento.

No Brasil e na América Latina, isso pode ser explicado pela mercado bastante pulverizado e com baixa penetração se comparado a países desenvolvidos. Segundo dados do IHRSA Global Report, a penetração de mercado da Smart Fit no Brasil em 2019 era de 4,9%, enquanto no México chegava a 3,3%.

Já em países como Estados Unidos e Canadá, a participação de mercado das academias era de 21,2% e 16,7%, respectivamente. Por este motivo, Huang acredita que ainda há muito espaço para consolidar seu crescimento no mercado latino-americano.

O analista também defende que a procura por uma vida mais saudável e atividade física já é uma tendência para os pós-pandemia, o que deve facilitar a procura dos consumidores por academias. “Neste cenário de crise e desemprego, fica mais fácil voltar para academias de baixo custo do que as do segmento premium”, avalia o analista.

Huang também cita a internacionalização da companhia como um diferencial frente aos concorrentes, com presença em 13 países da América Latina, a rede de academias já possui uma estética, layout e estratégia bem definidos, além de saber como operar em outros mercados fora o brasileiro.

Segundo o analista, adquirir essa expertise internacional não é simples, e poderia exigir muito capital, endividamento e esforços de outros concorrentes que pretendam imitar este modelo. “A Smart Fit está muito à frente de outros players neste sentido”, defende.

Além das estruturas físicas, o analista de investimentos Rodrigo Waingberg, da Suno Research, cita em relatório a atuação no segmento fitness digital, com a plataforma Queima Diária focada em conteúdo de atividade física, saúde e bem-estar oferecido via streaming, com a alternativa de fazer a atividade física desde qualquer local.

Além do marketplace Smart Fit Nutri que conecta nutricionistas e clientes para fazer um teleatendimento. A companhia também é sócia do Total Pass, que permite que empresas associadas ofereçam aos funcionários a possibilidade de treinar em academias parceiras.

“A Smart Fit está presente em toda a jornada do cliente, desde a alimentação até os treinos. A presença nos aplicativos facilita a venda cruzada de outros produtos ou serviços como o Queima Diária”, defende o analista.

Vantagens de investir em SMFT3

Entre as vantagens de investir nas ações da Smart Fit, Victor Bueno, da Top Gain, destaca a diversificação que a empresa proporciona: é a primeira do segmento fitness na bolsa de valores brasileira. “Pode ajudar a diversificar portfólio para investidores que não se identificam com os ativos presentes na bolsa, além de potencializar novos IPOs do segmento”, aponta.

O analista também cita o modelo de negócios da companhia, trabalhando com todos os nichos de mercado e públicos diferentes, desde o consumidor que procura preços baixos e o mais seleto que frequenta a Bio Ritmo. “Essa diversificação garante segurança ao modelo de negócios”, diz.

Ainda como vantagem, Bueno cita a retomada da economia com o avanço da vacinação, o segmento fitness deve ser um dos mais beneficiados e as ações podem ganhar impulso nesta segunda metade do ano.

Para Huang da Eleven Financial, as principais vantagens de investir na Smart Fit são o potencial de crescimento. A companhia pretende destinar 70,1% dos recursos do IPO para abertura de novas unidades.

Ele também cita as unidades criadas em 2019 e 2020 que não tiveram o tempo de maturação adequado por causa da pandemia. Segundo prospecto da companhia, até o primeiro trimestre de 2021, 60% das unidades estavam em fase de maturação. Estas devem acelerar ainda mais o crescimento futuro com a reabertura econômica.

A companhia também espera aumentar o número de planos Black vendidos, como a migração dos clientes do plano Smart para o Black pelo benefício de poder treinar em qualquer unidade.

Huang também acredita que com a reabertura, a Smart Fit conseguirá recompor sua base de usuários até o começo de 2022.

Outra vantagem, segundo o analista da Eleven Financial, é a melhoria nos indicadores financeiros, como redução de endividamento que deve se equacionar com os recursos do IPO nos próximos meses.

O analista também cita a capilaridade da rede Smart Fit, com tantas unidades o modelo de negócios da companhia seria dificilmente replicado em curto prazo, a presença em diversas regiões do Brasil dificulta a chegada de novos concorrentes. “Para atingir o mercado seria necessário muito dinheiro e muito tempo antes de sequer incomodar a companhia”, aponta.

Huang também vê como vantagem as avenidas de crescimento da rede fitness por meio de aquisições e abertura de novas unidades. A fragmentação do mercado brasileiro pode ainda impulsionar este crescimento.

Desvantagens em investir em SMFT3

Apesar de ser uma empresa com diversas vantagens para o investidor, a companhia também possui riscos. Segundo os analistas da Eleven Financial e Top Gain os principais pontos de atenção são:

  • Endividamento elevado: sempre utilizou dívida para crescer. Até o final do primeiro trimestre de 2021, tinha pendências de R$ 2,7 bilhões em empréstimos, financiamentos e debêntures. A pandemia acabou pressionando os resultados da companhia, que tem diversos contratos nos quais é exigida a antecipação das dívidas caso ultrapassem 6,74 vezes a dívida líquida/ebitda. A deterioração da situação sanitária pode pressionar a capacidade da empresa cumprir seus compromissos. Também tem restrições para pagar dividendos e juros sobre capital próprio.
  • Plano de crescimento agressivo: nos últimos anos a companhia manteve um crescimento bastante agressivo, o desafio será a execução de um novo plano nos próximos anos.
  • Governança: a SmartFit se viu envolvida em alguns problemas judiciais. Seu CEO Edgar Corona está sendo investigado em inquéritos envolvendo o financiamento e divulgação de fake news contra o STF. E poucas semanas antes da precificação, acionistas minoritários da ADV Esporte entraram com um processo para ter direito nas ações emitidas no IPO.

Para Huang, da Eleven Financial, estes problemas de governança não devem afetar os investidores porque não representam uma ameaça consistente e já foram precificados na oferta. Ele explica que o processo contra Corona está ligado a pessoa física e poderia apenas trazer riscos reputacionais para a empresa, o que ele acredita ser difícil de ocorrer.

Em relação à ADV Esporte, Huang defende que por ser uma empresa auditada desde 2017, o processo não teria procedência e pode ser indeferido.

Já Bueno tem uma visão contrária, com a companhia presente no Novo Mercado e o investidor olhando cada vez mais para o ESG (Environmental, Social and Governance) nos investimentos. Ele acredita que problemas de gestão e governança de uma companhia acabam trazendo insegurança aos investidores.

Ainda entre os possíveis pontos de atenção, a Suno Research cita a covid-19. Caso a pandemia se prolongue mais do que esperado, a SmartFit pode ter dificuldade de continuar suas operações.

Outros riscos seriam a baixa recorrência, com poucos clientes utilizando as academias no longo prazo e as operações franqueadas cuja gestão não depende diretamente da Smart Fit mas pode afetar a percepção do cliente sobre a qualidade de serviço da companhia.

Vale a pena comprar ações agora?

Segundo os analistas, é inegável que a Smart Fit chega ao mercado com forte potencial de valorização no curto prazo, nesta situação a alta das ações pode não ser fruto dos fundamentos da empresa e sim de um movimento de recuperação de certos setores na bolsa.

Por este motivo, Bueno acredita que para movimentos especulativos o curto prazo possa ser atrativo, contudo, para o investidor que deseja se tornar um sócio da companhia no longo prazo ele recomenda esperar a retomada da economia antes de comprar as ações, desta forma com os resultados trimestrais, a companhia poderá provar seu valor e que superou finalmente seus conflitos de governança.

Para Huang, as ações têm potencial no longo prazo, no entanto o investidor precisará avaliar o movimento dos papéis no primeiro dia de negociação. “Se acontecer um movimento exagerando como ocorreu na estreia da Mosaico (MOSI3) o papel pode valorizar mais do que deveria reduzindo o upside no curto prazo”, exemplifica.

Segundo ele, fortes valorizações na estreia tem como consequência a realização desse lucro, o que pode afetar negativamente o upside da companhia.

Mais Vistos