Quem aplicou em títulos com vencimento no longo prazo do Tesouro Direto no início do ano tinha motivos de sobra para se sentir satisfeito até duas semanas atrás. Porém bastaram os últimos nove dias, desde o início da guerra em que os Estados Unidos atacaram o Irã, para o ganho acumulado em 2026 ser apagado.

A taxa do título Tesouro Prefixado 2032, por exemplo, chegou a pagar, na mínima do ano, 13,29% ao ano. Nesta segunda-feira (9), o retorno já subiu para 14,07% ao ano.

Isso significa que não só o ganho do ano foi zerado em, basicamente, uma semana, como também o título já apresenta uma perda de retorno comparando ao melhor momento dos últimos dois meses, ocorrido em janeiro.

No caso do Tesouro IPCA+ 2050, o papel voltou a encostar em 7% ao ano mais a inflação. Retomou o patamar das máximas no início do ano. Na mínima em 2026, o título chegou a pagar 6,73% ao ano. O ganho de 6% em dois meses foi literalmente zerado nos últimos dias.

Em 12 meses, porém, o papel ainda acumula uma alta de cerca de 20%.

Na dinâmica do mercado de títulos, se a taxa de juros aumenta, o preço do papel cai. Quem já tem esses ativos na carteira percebe esse fenômeno ao observar o saldo da carteira, que, no momento, está recuando.

O mesmo efeito ocorre nos títulos privados de renda fixa, como debêntures e certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e do agronegócio (CRA). No mercado secundário, ou seja, em que o investidor vende os papéis antes do vencimento, os preços estão em queda.

O movimento da alta dos juros futuros ocorre em momento de aumento das incertezas relacionadas à inflação e aos rumos das políticas monetárias no Brasil e no exterior. As preocupações com as pressões sobre preços vêm a reboque da alta do preço do petróleo para acima de US$ 100 o barril.

A volatilidade tem sido tão grande que o Tesouro Direto paralisou as negociações no início da manhã, um mecanismo conhecido no mercado como circuit breaker.

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Volatilidade dos juros longos

A oscilação dos preços ocorre devido à chamada marcação a mercado, ou seja, a variação diária dos papéis. A marcação a mercado reflete justamente o quanto os investidores estão dispostos a pagar pelo ativo naquele momento. E essa avaliação é afetada por vários fatores, como as perspectivas para inflação, juros, câmbio ou questões geopolíticas.

Em momento de alta volatilidade, que atinge de maneira mais acentuada os títulos com prazos mais longos, o melhor a fazer é evitar entrar em ondas de vendas.

Desfazer-se dos títulos em um momento de alta oscilação, na prática, significa tornar realidade o prejuízo visto na tela. De qualquer modo, é sempre bom lembrar que o retorno contratado na aquisição dos papéis continua valendo, desde que o investidor leve o título até o vencimento.

A subida das taxas, na verdade, pode representar uma janela de oportunidade – quando “a poeira baixar”. No caso dos títulos públicos, por exemplo, é uma chance de “travar” por vários anos rendimentos historicamente elevados. No caso do Tesouro IPCA+, as taxas, no momento, estão acima de 7% e, no caso do título com vencimento em 2032, já quase encostam nos 8% anuais.

O que preocupa os investidores?

A alta do petróleo para acima de US$ 100 o barril foi muito mais rápida que o esperado. O preço saltou da casa dos US$ 80 na sexta-feira (6) para mais de US$ 102 nesta segunda-feira, depois de notícias no fim de semana como a escolha de Mojtaba Khameini, filho do aiatolá Ali Khamenei, como novo líder do Irã. A commodity chegou a subir quase 30% na máxima e tocou a marca de US$ 120 o barril.

Por volta de 14h35 no horário de Brasília, o Brent, referência global, tinha alta perto de 7% cotado a US$ 92,70 o barril. O valor representa uma alta aproximada de 40% em 10 dias.

Um elevação tão brusca foi a “faísca” que alastrou os temores sobre a volta da inflação no mundo todo. Se as pressões sobre preços persistirem, bancos centrais como o Federal Reserve, nos Estados Unidos, poderão se ver em uma nova encruzilhada: interromper o ciclo de corte de juros e até mesmo dar uma guinada na política monetária atual e avaliar subir as taxas de novo.

E não é só a alta do petróleo que entra na equação inflacionária.

Os preços dos combustíveis vão a reboque. A gasolina já subiu 18% na comparação com a cotação antes do início da guerra. E o diesel acumula avanço de 25% em menos de duas semanas.

Além dos derivados de petróleo, os efeitos da guerra e do bloqueio do Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, afetam outros setores. Fertilizantes, por exemplo, são afetados em escala semelhante.

Pelo canal marítimo passam um quinto da uréia, fertilizante com alto teor de nitrogênio, utilizada em lavouras de alimentos como café, milho, cítricos e cana de açúcar. O preço do insumo agrícola já acumula alta de 36% desde o dia 26 de fevereiro, véspera dos primeiros ataques ao Irã.

Outro exemplo é o alumínio.

O Oriente Médio como um todo, incluindo Emirados Árabes Unidos e Bahrein, é um hub global de exportação. O metal sofre em duas frentes com o bloqueio de Ormuz: pela questão logística e, indiretamente, pela alta dos preços da energia, em meio à redução dos embarques de gás natural liquefeito (GNL).

O encarecimento do GNL, que já subiu mais de 60% em 10 dias, se reflete diretamente nos preços da energia em grande parte do mundo. Isso porque o combustível é essencial para a geração térmica. No Brasil, o custo da geração térmica pode aumentar em até 40% se o patamar atual de preços persistir por vários meses.

E os efeitos no Brasil?

Até o final de fevereiro, o panorama para a inflação brasileira era considerado desafiador, porém gerenciável. O quadro apontava para um IPCA abaixo de 4% neste ano, dentro do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central.

O consenso do último boletim Focus, por exemplo, ainda aponta para uma inflação de 3,91% no fim do ano. Mas a pesquisa foi feita antes de o petróleo superar os US$ 100 o barril.

As duas principais preocupações do mercado são a alta do dólar e o repasse das subidas para os preços dos combustíveis.

Caso a Petrobras decida repassar a alta ao consumidor, cada 10% de aumento nos preços equivale a algo entre 0,15 ponto e 0,20 ponto percentual no IPCA do ano. Ainda que seja uma elevação significativa, é um nível considerado gerenciável pelo mercado.

De qualquer modo, a possibilidade de persistência dessa nova pressão sobre a inflação é o que está movendo os juros futuros longos para cima. O mercado, no entanto, tem ponderado qual o fôlego da Petrobras para segurar os repasses.

A leitura é que, mesmo mantida a pressão por mais tempo que o esperado, a estatal tende a agir com parcimônia — absorvendo parte do choque para evitar turbulências maiores no cenário político e social.

Em um ano eleitoral, há forte resistência política a mexer nos preços dos combustíveis. A própria presidente da estatal, Magda Chambriard, sinalizou cautela antes de qualquer movimento.