O Banco Central ampliou a intervenção no mercado de câmbio com a primeira compra de dólares no mercado futuro em dez anos, diante da forte queda da moeda americana. Trata-se de um passo para a redução do estoque de swaps cambiais.

Agora, em português claro: quando o dólar está subindo, o BC vende “seguros” para o mercado, os swaps cambiais. Por exemplo: sua empresa tem uma dívida em dólar para pagar daqui a um ano. E você está com medo: e se o dólar disparar de R$ 5 para R$ 7?

Você pode comprar os dólares hoje para se garantir e pronto. Mas o BC não quer que você faça isso – se todas as empresas correrem para comprar dólar, aí que a moeda americana salta mesmo. Então o BC diz: “Vamos fazer um trato. Você me dá R$ 5 agora. Se o dólar subir além disso daqui a seis meses, eu te pago a diferença”.

Você está protegido. E o BC fica contente também, já que impediu uma compra de dólares no mercado. Esfriou a demanda.

Hoje, o BC tem um “estoque” de US$ 95,75 bilhões em swaps cambiais. E a compra de dólar no mercado futuro cancela isso. Como?

Assim: o trato que o Banco Central fez com você foi do tipo “Se o dólar subir, eu te pago a diferença”. O BC está do lado perdedor caso o dólar suba. Ele está “torcendo para o dólar cair”.

Agora, com as compras no mercado futuro, ele faz o oposto: o swap reverso. O BC acerta com outra pessoa: “Se o dólar subir, você me paga a diferença. O BC fica do lado ganhador caso o dólar suba. Ele “torce para o dólar subir”.

Pronto: os dois contratos se anulam. Agora não interessa mais o que aconteça com o dólar. O Banco Central se livra das obrigações assumidas como os swaps.

Compra dólar e vende real

O BC fez um leilão do chamado swap reverso nesta quarta-feira, equivalente a uma compra de US$ 500 milhões em dólar futuro, instrumento em que a autoridade passa a ficar comprada em dólar e vendida em reais, funcionando na prática como uma aquisição de moeda americana no mercado futuro.

Atualmente, o estoque de swaps do BC é de US$ 95,75 bilhões. Desde o início do período de Nilton David na diretoria de Política Monetária do BC, o estoque caiu mais de US$ 7 bilhões, com a realização de uma série de operações conhecidas como “casadão” — com a venda de dólar à vista das reservas internacionais e, ao mesmo tempo, compra de dólar futuro via swap reverso.

O BC também deixou vencer pequenas quantidades da rolagem diária de swaps tradicionais ao longo dos últimos meses. Ontem, a autoridade também deixou vencer US$ 3,7 bilhões em um outro instrumento, as linhas, que são vendas de dólar à vista com compromisso de recompra futura.

O BC “está tirando vantagem da força” do real para “desmontar posições”, disse Alejandro Cuadrado, responsável global de câmbio e estrategista-chefe para América Latina do BBVA. “Todos estão comprados no real.”

Em 2016, a autoridade monetária, então chefiada por Ilan Goldfajn, realizou uma série de atuações com a compra de dólares no mercado futuro. A estratégia foi interrompida após a primeira eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Agora, analistas preveem que, como naquela época, esse tipo de intervenção pode se estender à frente. “Eu acredito que o BC vai ser mais ativo, pelo menos mais do que vinha sendo”, disse Daniel Manso, chefe de futuros da Warren Rena.

Para Daniel Balaban, corretor de NDF da XP em Nova York, a autoridade monetária fornece uma sinalização de que, com o dólar nesses níveis, pode seguir reduzindo a posição em swaps.

O volume recomprado “é pouco, mas a sinalização é importante”, disse Balaban. “Pode ser um programa de recompra, o que faria bastante sentido.”