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Finanças

A bolsa de valores está ‘fora da realidade’? Frase de Lira divide analistas

Analistas apontam que pode ter havido ‘exagero’ nas perdas da bolsa, mas não acreditam que o alívio vai continuar.

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Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados 12/02/2021 REUTERS/Ueslei Marcelino

“O mercado precisa estar mais conectado com a realidade do que de fato acontece.” A frase foi dita na terça-feira (24) pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, no mesmo evento em que ele garantiu que não será aprovado nenhum projeto que agrida a Lei de Responsabilidade Fiscal ou fure o teto de gastos. As declarações foram seguidas de avanços da bolsa de valores e queda do dólar após diversos dias de pessimismo por preocupações fiscais. Mas o mercado estava exagerando? O alívio visto agora é temporário?

O Ibovespa, principal indicador da bolsa de valores brasileira, a B3, tenta se recuperar do tombo das semanas anteriores. Nesta semana até o fechamento de quarta-feira (25), o índice acumula avanço de mais de 2%, depois de cair 2,59% na semana passada e 1,32% na anterior.

A queda nos pregões anteriores acompanhou a escalada das preocupações dos investidores com impasses como Bolsa Família e precatórios. Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para possibilitar o parcelamento de dívidas de precatórios e abrir espaço no Orçamento, em um movimento visto pelo mercado como possibilidade de “calote” em dívidas para financiar aumento de gastos como a elevação do Bolsa Família.

Lira, no entanto, afirmou que “não houve e não haverá o mínimo sinal de que teremos um rompimento da responsabilidade fiscal”, em declarações que parecem ter acalmado investidores. 

Será, então, que o mercado “exagerou” na queda da bolsa de valores nas semanas anteriores? Ele estaria mesmo “desconectado da realidade”? Especialistas ouvidos pelo InvestNews concordam que não há como ignorar as preocupações fiscais, mas apontam que as perdas das últimas semanas podem ter sido desproporcionais.

Enrico Cozzolino, analista da Levante Ideias de Investimentos, por exemplo, afirma que “o mercado pode ter exagerado porque não era nada comprovado e nenhuma discussão nova. Essa preocupação fiscal sempre existiu”. 

Ele também comenta que a temporada de balanços, apesar de ter vindo com dados acima do esperado, foi ofuscada por receios com a situação das contas públicas. “A gente acabou de sair de uma temporada de resultados em que as empresas fizeram muito bem o dever de casa, cresceram o lucro, surpreenderam em 53% o consenso na questão lucro”, aponta Cozzolino.

Já João Beck, economista e sócio da BRA, não acredita que o mercado tenha exagerado nas preocupações fiscais. “O teto de gastos foi uma conquista institucional importante e qualquer sinalização de quebra do teto deixa investidores avessos ao risco”, diz.

Mas ele concorda com a declaração de Lira de que o mercado “precisa estar mais conectado com a realidade”, e também cita os balanços. “Concordo. A temporada de balanços recentes das empresas tem sido acima do esperado. Os dados fiscais também melhoraram. Ao invés de um déficit primário de 3% do PIB que o mercado estimava no início de abril, os dados agora apontam para um déficit de 1,5% do PIB. Ou seja, em apenas cinco meses a expectativa de déficit primário caiu pela metade”, analisa ele. 

Alívio na bolsa de valores: temporário?

Bolsa de valores de São Paulo
Bolsa de valores de São Paulo 09/03/2021 REUTERS/Amanda Perobelli

Se o exagero ou não na queda dos mercados não é consenso entre os especialistas, todos concordam que as declarações de Lira não devem ser suficientes para sustentar uma trégua no mercado sobre a questão fiscal por muito tempo. 

André Machado, professor e fundador da  escola de traders Projeto os 10%, acredita que o alívio na bolsa de valores “é temporário”. “A pergunta é: mudou alguma coisa? Absolutamente nada. A parte fiscal está bem preocupante”, justifica ele.

“(O ministro da Economia) Paulo Guedes hoje falou que não tem como cumprir os compromissos se não mexer na legislação que envolve os precatórios. Então, isso é um fato. Continua na mesa. Esse bode continua na sala”, comenta Machado. 

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, comenta que o movimento da bolsa de valores nos últimos dias é uma clara mensagem do que o mercado espera. “Historicamente, quando sobra espaço no Orçamento, não são feitos gastos pontuais. São feitos gastos recorrentes. Só que o espaço era pontual. Então, você vai acumulando problemas. Por isso que tem essa pressão e o mercado ‘exagera’. Eu acho que exagera porque era para exagerar mesmo, ou o sentimento seria de que pode passar de qualquer jeito. Não é bem assim.”

Cozzolino, da Levante, usa as palavras do próprio presidente da Câmara para explicar por que ele não acredita em alívio permanente. “O mercado precisa estar mais conectado com a realidade, com o que de fato acontece: não é porque o Lira falou que vão ter responsabilidade fiscal, vamos cumprir teto que também a gente pode esquecer a preocupação.”

Alison Correia, CEO da Top Gain, concorda. “Lira não fez mais do que o papel dele como presidente da Câmara de acalmar o mercado. E o que ele fala não se escreve.”

Mas Correia ressalva que, ao analisar o sobe e desce da bolsa de valores nos últimos dias, o investidor não deve levar em conta somente as questões fiscais e as declarações de Lira. 

“O mau humor que tomou conta do mercado teve o contexto local. Sem sombra de dúvidas, as preocupações internas são muito grandes. Mas a gente tem um contexto da variante delta, da parte internacional como China, o minério de ferro teve fortes tombos, as commodities tiveram fortes tombos. Então, a questão não é somente interna”, lembra Correia. 

“Agora, a gente teve uma recuperação muito forte simplesmente pela fala do Arthur Lira? Não. A gente teve um contexto também mais favorável no quesito internacional. A gente teve, por exemplo, dois dias seguidos em que ninguém morreu na China de covid. A gente teve uma queda nos estoques de petróleo, trouxe também uma tranquilidade e fez com que as commodities subissem um pouco”, continua. 

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Este conteúdo é de cunho jornalístico e informativo e não deve ser considerado como oferta, recomendação ou orientação de compra ou venda de ativos.

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